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Full text of "Trabalhos da commissão scientifica de exploração"

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3 5711 00017 0564 








F~T Tlí 



TRABALHOS 



DA 



I 



& 



DE EXPLOBAÇÃO 



i 



INTRODUCÇAO 



4 Âr^y ^v*?. 




QSiSt- 



RIO DE JANEIRO 

TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE LAEMMERT 




Rua dos Inválidos, Gl B 
18G2 



èit 




PROEMIO 



JJiscutido e approvado o projecto de uma commissâo scientifica, 
composta unicamente de nacionaes, e destinada a explorar o interior 
de algumas provincias menos conhecidas do Império, forão logo esco- 
lhidos os chefes das cinco differentes secções, que a completavão ; mas 
não lhe forão por então designadas essas provincias, nem o ponto de 
partida para o começo de seus trabalhos. 

Em consequência disso os agentes do governo imperial, encarre- 
gados das compras do material indispensável para o transporte e estudos 
da commissâo scientifica, se prepararão para a dupla eventualidade 
de uma expedição por terra e por agua. Nem faltavão boas razões que 
persuadissem a conveniência de começar a expedição scientifica os 
seus trabalhos, navegando por algum dos nossos grandes rios, 
effectuando depois o seu desembarque em alguma das provincias 
centraes do Império, e dahi proseguindo por terra até voltar ao ponto 
de partida, ou ao termo que se houvesse com antecedência limitado a' 
sua jornada. 

É certo que desde que aidéa de tal commissâo foi suscitada no seio 
do Instituto Histórico, apontou-se vagamente o norte como a parte do 



c s. 



íiNOf) 



II PROEMIO 

Império menos conhecida e mais digna de ser estudada ; mas de 
modo tão duvidoso que bem poucos puderão suppôr haver de ser a ci- 
dade da Fortaleza o porto do desembarque da commissão scientifica, 
e a provincia do Ceará aquella pela qual haverião de estrear. 

Foi isso comtudo o quese decidio, contribuindo não pouco para essa 
resolução a crença geralmente aceita de ser o solo do Ceará por ventura 
o mais metallifero de todo o Brasil. Em tempos antigos, a metrópole 
o acreditara, nomeando no reinado da Senhora D. Maria I o naturalista 
Feijó para examinar as suas minas e tratar de explorar algumas delias. 
O resultado correspondeu mal ás esperanças ; mas, como se tinha dado 
a tentativa do aproveitamento das lavras, a crença popular, longe de se 
desvanecer, foi creando novas raizes, por esse mesmo facto que de- 
veria contribuir para desvanecê-la. A obra de um escriptor de prin- 
cípios deste século, que não mereceu e mal merecia as honras da 
impressão, mas que existe no opulento archivo do Instituto Histórico 
Brasileiro, mais talvez do que nenhuma outra causa concorreu para 
propagar-se aquella opinião entre os Cearenses e passar delles a todos 
os Brasileiros. O autor, * filho do Ceará, não soube achar nenhum 
outro meio de engrandecer a sua terra senão annunciando pompo- 
samente ricas minas, indicios de thesouros occultos — legados dos 
Flamengos— e curiosidades maravilhosas: cousas facilmente criveis, 
porque erão mais próprias para ferir a imaginação do povo, do que 
para convencer a razão do homem reflectido- 

O caracter sacerdotal, de que se revestia, não daria pouca força 
ás suas asserções, principalmente communicando elle os seus roteiros 
a pessoas crédulas, das quaes recebia em troca informações não 
menos assombrosas, que elle ia cuidadosamente registrando. 

Seja porém qualquer que for a origem desses boatos, de que não 
fazemos questão, a opinião de que existião grandes depósitos de 
metaes preciosos no Ceará corria incontroversa ; e essa opinião forta- 
lecia-se com existirem no musêo nacional amostras, colhidas naquella 
provincia, de galena de chumbo, e uma delias argentifera, de sul- 

* Padre Francisco Telles de Menezes Lima: Mappa curioso de novo descoberto, etc, MS. de 341 
pag. in. 4 o (1799-1806). 



PROEMIO ih 

phuretos de antimonio e de zinco, de molybdato de chumbo, de ouro, 
cobre e ferro, além de salitre, soda, potassa, pedra-hume, caparrosa e 
schistos bituminosos. Pareceu portanto, e era acertado, veriíicar-se 
de uma vez por todas o que nisso haveria de real . 

Partio pois a commissão para a capital do Ceará, composta de cinco 
chefes e dobrado numero de adjuntos; e pede a verdade que se con- 
fesse, que raras vezes se encontrará em tantos a abnegação, o desinte- 
resse, o amor de bem servir como nesses, que possuidos de louvável 
enthusiasmo, apoiarão com calor a idéa de uma tal commissão, e 
senti rão-se honrados de fazerem parte delia. Não esquecião, mas 
menosprezavão o perigo, com quanto soubessem que na quasi tota- 
lidade de expedições semelhantes, se bem que emprehendidas por 
estrangeiros, metade do pessoal de que se compunhão ficou por 
essas matas e rios em holocausto á sciencia. Não disfarçavão o 
amargor das privações por que ião passar, e cônscios do que os aguar- 
dava, não se persuadirião também que pudessem ser acoimados de 
cupido interesse, quando sacrifieando-se a seus commodos, sepa- 
rando-se de suas famílias, do trato de seus amigos, da frequência de 
suas relações e amizades, expunhão-se lá a todas as intempéries das 
estações, ao sol, ao relento, á chuva, á ausência da sociedade, e á falta 
de abrigo, de alimento, e alguma vez até de agua. 

Lembramos estes penosos incidentes, porque nos regalos da corte 
estamos mais que dispostos a duvidar de que haja quem os passe no 
Brasil, ou quem a elles se sujeite, senão movido pela ambição do 
lucro. Todos, mais ou menos, soffrerão, e alguns soffrem ainda de 
saúde. Um delles expirou corajosamente sem abandonar o seu posto ; 
outro, sentindo mais aggravados os seus males com os penosos tra- 
balhos de que se encarregara, regressou á corte para rematar os seus 
dias de modo deplorável. Outros emfim, e não poucos, retirárão-se 
por doentes, de modo que na volta a commissão scientifica contava 
cerca da metade do pessoal com que se tinha organisado. 

Não admira, era antes de prever que isso acontecesse a pessoas, que 
só por força de dedicação e boa vontade se sujeitavão aos inconve- 
nientes e privações de uma vida, para a qual não tinhão nascido e 
com que se não tinhão habituado. 



IV PROEMIO 

Admira, porém, que homens sertanejos, afíeitos áquelle modo de 
viver agro, recuassem não poucas vezes ou se dispensassem do serviço 
por doentes, a tal ponto que um delles, natural de Mombaça, que 
acompanhava as secções geológica e ethnographica na sua primeira 
e mais longa excursão, falleceu no Crato, poucos dias antes que d'alli 
regressasse para o seio de sua familia. 

Comtudo no meio das privações que passavão, e promptos para 
sujeitarem-se a maiores, quando fosse preciso, os membros da com- 
missão scientifica nunca se acharão em circumstancias de empre- 
hender gyro de mais larga duração que a de seis ou oito mezes ; mas 
nesse intervallo, apezar dos rigores da sêcca e caminhando pelos lu- 
gares mais assolados delia, entrarão nas províncias do Piauhy, Per- 
nambuco, Parahyba e Rio-Grande do Norte. Quando forçados pelas 
circumstancias a circumscrever os limites de suas excursões, percor- 
rerão a provincia do Ceará em todas as direcções, e estudarão-a em 
todos os seus aspectos. Fizerão sem duvida pouco, se se considera o 
muitissimo que tinhão a fazer; mas nós outros, os Brasileiros, nos 
temos reciprocamente em tão máo conceito, que esse pouco (afoita- 
mo-nos a dizê-lo) excederá,por ventura, de muito á expectação dos que 
mais aflfeiçoados e sympathicos se têm mostrado á idéa de tal com- 
missão, se não á escolha de seus membros. 

Por emquanto apresentamos um leve bosquejo histórico da com- 
missão scientifica, seguido dos relatórios summarissimos dos trabalhos 
de cada uma das secções, que forão apresentados ao Instituto Histórico 
e Geographico. Observaremos, porém, que a continuação não pode 
ter toda a regularidade, por não ser conveniente que a estudos desta 
natureza se dê a apparencia e o caracter precário de uma publicação 
periódica. Lá colligio-se, tomárão-se notas, fizerão-se observações, 
e pouco mais se pôde fazer do que isso. Resta agora o mais difficil, 
o estudo das collecções, a consulta dos autores, a disposição das ma- 
térias , a revisão , coordenação e redacção das notas e observações, o 
que é negocio de meditação e de tempo. Uma commissão idêntica, 
organisada pelo governo austríaco, e que ha annos aqui esteve no Rio 
de Janeiro, na fragata Novara, viajando com outras commodidades , 
que não teve a commissão brasileira, e hoje de volta á Europa, habi- 



PROEMIO 



litada e dispondo de outros recursos, que estamos muito longe de 
possuir,para a mais prompta execução e apresentação de seus trabalhos, 
pedio para isso quatro annos : e esse prazo minimo, reclamado pela 
secção ethnographica, a cargo do illustre Sr. Dr. Carlos Schertzer, a 
ninguém pareceu excessivo. 

Pouco affeitos a publicações desta natureza, entre nós acontecerá 
infelizmente o contrario. 

Lembramos aquelle e poderiamos citar alguns outros exemplos. 
Pedimos vénia para nos conformarmos com elles. 



PARTE HISTÓRICA 



Desde os primeiros tempos da coionisação do Brasil, quando só a 
violência era capaz de abrir as portas desta colónia, tão ambicionada 
pelas potencias marítimas daquelles séculos, já acontecia que a terra 
de Santa Cruz era melhor estudada e apreciada nas viagens e relações 
dos escriptores estrangeiros do que nas memorias dos nossos antepas- 
sados. Lery, Thevet, Abeville, Ives d'Evreux, Hans Staden, Baro e 
muitos mais, e posteriormente os escriptores hollandezes, como Piso, 
Marcgraff, Laet, Nieuoff, Barkeus e outros dão testemunhos desta ver- 
dade e nos legarão valiosos documentos, cujo preço se irá cada vez 
mais elevando com a successão dos tempos, 

Franqueada a nossa communicação com os paizes civilisados de 
além mar, e começando o Brasil a ser procurado e visitado, não como 
presa de fácil alcance, porque até então assim o tinhão considerado, 
mas por ser uma região tão pouco conhecida quanto digna de ser es- 
tudada, por ser uma fonte importante de productos variados e pre- 
ciosos, que se abria pela primeira vez ao commercio e á apreciação do 



VII1 PARTE HISTÓRICA 

mundo, aquelles factos que nos tempos coloniaes erão uma curiosi- 
dade notável rematarão com a recusa do governo portuguez, intimada 
e recommendada aos seus agentes das governações do Brasil, para que 
não fosse permittido ao barão de Humboldt, nome então desconhecido, 
percorrer livremente o famoso Amazonas, já nessa época visitado al- 
gumas vezes ; porém tão pouco estudado, mesmo sob o ponto de vista 
hydrographico, como ainda o é hoje a máxima parte dos confluentes, 
tributários deste grande rio. 

Depois de Humboldt, porém, desde que o Brasil foi elevado á ca- 
tegoria de reino, e principalmente depois de constituido império. 
os estrangeiros têm tido, nem só ampla faculdade de visita-lo, pois não 
carecem de solicitar permissão para isso, como auxilio, recommenda- 
ção, protecção e favores do nosso governo; e dos particulares, quanto se 
pode obter de uma nação naturalmente generosa, franca e hospitaleira, 
posto que tantas vezes tenhão sido tão mal remunerados os seus obsé- 
quios. As obras acerca do Brasil, dos seus preductos, dos seus pro- 
gressos, do seu futuro, têm depois desse tempo aviltado em numero, 
assim como em importância : mas aquelle facto singular que no prin- 
cipio assignalámos —de ser o Brasil mais e melhor conhecido pelos 
estranhos do que pelos nossos— se conserva no mesmo pé. Precisamos 
estudar o Brasil nos autores estrangeiros, consultamos as suas cartas 
maritimas até na nossa navegação de cabotagem, e mesmo na apre- 
ciação politica dos acontecimentos remotos ou recentes da nossa his- 
toria o estrangeiro como que têm, na opinião publica, entre nós a 
primazia, e leva a palma ao nacional, bem que as mais das vezes escreva 
sob as inspirações deste ultimo. 

Comtudo, nem sempre aquelles, com quanto dedieados á sciencia, 
com quanto por amor delia se hajão sujeitado a longas peregrinações 
e a fadigosas viagens, tinhão bastante rectidão e senso critico para nos 
julgarem sem prevenção, ou firmeza para se não deixarem levar de 
informações alheias da verdade, ou das primeiras impressões, que 
disparatavão com os hábitos adquiridos e as suas idéas já formadas. 

Então o Sr. Varnhagen demonstrou com a sua Historia do Brasil 
como escriptores eminentes , mesmo Southey. apezar do incontes- 



PARTE HISTÓRICA IX 

tavel merecimento da sua grande obra, podião e devião ser em alguns 
pontos emendados. erudito e consciencioso Sr. Joaquim Caetano da 
Silva, começando pouco depois, no seio da illustre Sociedade Geogra- 
phica de Paris, com as suas leituras acerca dos nossos limites ao norte 
com as possessões francezas da Guyana, provou de modo evidente que 
o Brasil já possuia documentos de alto interesse para a nossa historia, 
que conheciamos perfeitamente os escriptores francezes que tratavão 
dessa questão, e que os podiam os entender tão bem e criticar melhor 
do que os seus próprios compatriotas. O Sr. commendador Manoel 
Ferreira Lagos, por fim, fazendo no Instituto Histórico uma larga 
resenha dos viajantes estrangeiros que havião percorrido o Império, 
fez sobresahir uma quantidade incrivel de factos mal estudados, de 
apreciações erróneas, de asserções pouco dignas de credito, cousas 
que lá fora terão passado por muito curiosas, e que entre nós são 
verdadeiros disparates, mais merecedores de riso do que credores 
de séria contestação. 

Collocámos a analyse do Sr. Lagos no lugar de honra, não por suppor 
que corra parelhas ou mereça ser preferida ás obras eminentes dos Srs. 
Joaquim Caetano e Varnhagen ; mas, porque pelo assumpto que nos 
occupa e pela época em que teve as honras da leitura em algumas das 
sessões do Instituto Histórico, foi a que mais de perto e mais directa- 
mente concorreu para ser adoptada a idéa da creação de uma com- 
missão scientifica de exploração do interior de algumas das províncias 
pouco conhecidas do Brasil. E isto o que consta das actas e registros do 
Instituto Histórico. 

Com aquelles e outros factos de igual importância, que iamos 
mencionando, se foi pouco a pouco enraizando e robustecendo no 
animo dos membros do Instituto a opinião da conveniência de melhor 
conhecermos as nossas cousas, e de estudarmos e apreciarmos por 
nós mesmos ; porque se é de boa philosophia que o homem se conheça 
a si próprio, é de melhor politica que qualquer paiz trate de conhecer 
os seus recursos para saber o que possue, de os catalogar para saber 
onde existem, ede os aquilatar para saber quanto valem. 

A idéa pois de uma commissão destinada a explorar o interior de 

c. s. 2 



x PARTE HISTÓRICA 

algumas de nossas províncias menos conhecidas estava madura e a 
ponto de ser dada á execução. O Instituto a tomou a peito, como sempre 
que se trata do engrandecimento do paiz, e offereceu-a á elevada con- 
sideração do governo de S. M. o Imperador. * 

Um homem illustre e cheio de patriotismo, que então se assentava 
nos conselhos da coroa, a quem já o Brasil deve muito, e a quem por 
fortuna deverá no futuro muito mais, o Sr. conselheiro Luiz Pedreira 
do Couto Ferraz, então ministro e secretario de estado dos negócios do 

* Para o Exm. Sr. Ministro do Império. — Illm. e Exm. Sr.— Na ultima sessão do Instituto Histó- 
rico e Geographico Brasileiro, terminou o sócio Manoel Ferreira Lagos a sua analyse da viagem do 
conde de Castelnau pelo Brasil, mostrando a urgente necessidade de fazer explorar o interior de 
algumas de nossas provindas menos conhecidas por uma commissão scientiQca de engenheiros e 
naturalistas nacionaes, e apresentou em seguida uma proposta, a qual foi unanimemente appro- 
vada, para que o Instituto se dirigisse ao governo imperial, solicitando-lhe haja de realizar tão 
útil, quão gloriosa empreza. 

Transmittindo nesta occasião a V. Ex. a sobredita proposta, inclusa por cópia, espera o Insti- 
tuto que o governo imperial, possuído do mesmo zelo com que sempre tem favorecido todas as 
emprezas tendentes ao progresso intellectual e material do paiz, se apressará em organisar a 
mencionada expedição : e se me demorasse a demonstrar as innumeras vantagens, que de seus 
trabalhos se colherão, faria uma offensa ao discernimento e reconhecidas luzes dos actuaes 
ministros da coroa. 

O Instituto confia igualmente que V. Ex., na qualidade de seu digno e prestante membro, lhe 
fará ainda o valioso serviço de activar a marcha do objecto de que trata este officio, e accrescen- 
tarámais este obsequio aos que já deve a V. Ex. 

Deos guarde a V. Ex.— Secretaria do Instituto, em 9 de Junho de 1856.— Illm. e Exm. Sr. conse- 
lheiro Luiz Pedreira do Couto Ferraz, ministro e secretario de estado dos negócios do Império. 

(Assignado) Visconde de Sapucaht, presidente. 

Proposta a que se refere o officio supra apresentada ao Instituto Histórico e Geographico Brasileiro pelo 
sócio Manoel Ferreira Lagos, em sessão de 30 de Maio de 1836. 

Propomos que o Instituto Histórico e Geographico Brasileiro se dirija ao governo imperial, 
pedindo-lhe haja de nomear uma commissão de engenheiros e de naturalistas nacionaes para 
explorar algumas das provincias menos conhecidas do Brasil, com a obrigação de formarem tam- 
bém para o musêo nacional uma collecção de productos dos reinos orgânico e inorgânico, e de tudo 
quanto possa servir de prova do estado de civilisação, industria, usos e costumes dos nossos 
indígenas. 

Saladas sessões, em 30 de Maio de 1856.— (Assignados) Manoel Ferreira Lagos.— Joaquim Bor- 
berto de Souza e Silva.— Manoel de Araújo Porto-Alegre.— Sebastião Ferreira Soares. —Guilherme 
Schúch de Capanema— Visconde de Sapucahy .—Agostinho Marques Perdigão Malheiros.— António 
Alves Pereira Coruja.— António de Pádua Fleury .—Cláudio Luiz da Costa.— Cónego Dr. Joaquim 
Caetano Fernandes Pinheiro.— Cónego Joaquim Pinto de Campos.— Dr. Francisco de Paula Me- 
nezes.— Ricardo José Gomes Jardim.— Francisco Manoel Raposo de Almeida.— Cândido Baptista de 
Oliveira.— Carlos Honório de Figueiredo.— Joaquim Manoel de Macedo.— Dt. José Ribeiro de Souza 
Fontes. 



PARTE HISTÓRICA XI 

Império, adoptou como sua a idéa do Instituto Histórico, do qual é 
digno membro ; facilitou e acoroçoou a sua execução, cônscio de que, 
se os resultados não correspondessem cabalmente aos desejos daquella 
associação e ás suas esperanças, ainda assim era não pequena gloria 
tental-o. 

Teve pois o Instituto Histórico e Geographico ordem de indigitar as 
pessoas que julgasse mais habilitadas para tão árdua missão, de con- 
feccionar as instrucções pelas quaes estas se devessem guiar no des- 
empenho de suas obrigações e no decurso da sua longa peregrinação, 
e de as submetter, depois de revistas e consideradas por aquella illustre 
corporação, á final approvação do governo de Sua Magestade. 

A resposta do governo imperial foi prompta, porque mediarão 
apenas vinte e um dias entre a apresentação da proposta e a sua appro- 
vação. O Instituto, em ordem a obter os melhores resultados"da projec- 
tada expedição, considerou quaes erão as matérias que mais convirião 
que fossem estudadas, e dividiu- as em cinco classes ou secções, cada 
uma delias a cargo de um chefe, com quanto, como era natural, ficas- 
sem todos na stricta obrigação de mutuamente se coadjuvarem. 

Para o desempenho destas cinco differentes secções forão propostos os 
Srs. conselheiro Francisco Freire Allemão, presidente da commissão e 
incumbido da parte botânica; Dr. Guilherme Schúch de Capanema, da 
geológica e mineralógica; commendador Manoel Ferreira Lagos, da 
zoológica; capitão-tenente Giacomo Raja Gabaglia, da astronómica 
e geographica; e António Gonçalves Dias, da ethnographica e narrativa 
da viagem. 

Pedia o Instituto ao governo imperial que estes membros, no caso 
de que fosse a escolha confirmada pelo governo de Sua Magestade, 
indicassem os adjuntos indispensáveis para os auxiliar na sua espinhosa 
tarefa, assim como o desenhador, naturalista preparador e mais co- 
mitiva de absoluta necessidade para a expedição. 

Lembrando estes nomes ao governo imperial, o Instituto, segundo 
as suas expressões, « comprazia-se de poder lembrar a nomeação da- 
quelles indivíduos, não só pelo conhecimento que tinha da sua intel- 
ligencia e de se occuparem com predilecção dos ramos da sciencia 



XII PARTE HISTÓRICA 

designados para cada um, mas ainda attendendo a que sua actividade 
e provado zelo pelo progresso do paiz erão garantias suíficientes do 
bom êxito de tão árdua empreza. » 

Pareceu também conveniente que as instrucções especiaes para o re- 
gular andamento dos trabalhos de cada secção fossem formuladas por 
aquelles mesmos a quem teria de caber asua execução; e nessa confor- 
midade os Srs. conselheiro Freire Allemão, Dr. Capanema e commen- 
dador Lagos apresentarão no Instituto Histórico os seus respectivos pro- 
grammas, nos quaes aquelles senhores tanto provavão os seus conhe- 
cimentos nas matérias de que ião ser encarregados, como a boa vontade 
de que se achavão possuidos para levarem a glorioso fim a em- 
preza, que tão corajosamente tomavão sobre os seus hombros. Houve 
comtudo uma excepção, filha das circumstancias. Os Srs. capitão- 
tenente Gabaglia e Gonçalves Dias se achavão por então em serviço na 
Europa, transformando-se os encargos com quealli estavão em outros, 
relativos á nova commissão, de que ião fazer parte. 

O Instituto, que tinha pressa de ver realizada a sua idéa, confiou 
por aquelle motivo a outros de seus membros o trabalho de organisar 
as instrucções para as secções astronómica e ethnographica. Coube 
a primeira dessas tarefas á vasta e profissional intelligencia do Sr. 
conselheiro Cândido Baptista de Oliveira, e a segunda á hábil penna 
do distincto Sr. Manoel de Araújo Porto Alegre, tão solicito dos es- 
tudos ethnographicos no Brasil que a elle deve o Instituto esta nova 
denominação. 

Apresentadas estas instrucções ao governo imperial, forão plena- 
mente approvadas pelo Exm. Sr. conselheiro Luiz Pedreira do Couto 
Ferraz, em data de 8 de Abril de 1857; e posto que taes instrucções 
já tenhão visto a luz da publicidade em differentes jornaes e perió- 
dicos, não será de certo inopportuna a sua inserção neste escripto, 
como em lugar que por direito lhe compete. 



INSTRUCÇÕES 



PARA 

A COMMISSÃO SCIENTIFICA 

ENCARREGADA DE EXPLORAR 

O INTERIOR DE ALGUMAS PROVÍNCIAS DO BRASIL 



Secção botânica. 



A secção botânica terá a seu cargo : 

1.° O estudo dos vegetaes silvestres, particularmente o das arvores 
que fornecem madeiras de construcção, resinas, óleos, gommas, ou 
outro qualquer producto útil ; e o das plantas que possão aproveitar 
na medicina e na industria. 

Indagará dos homens práticos do lugar o nome indigena e vulgar de 
cada vegetal, e seus usos populares. 

Das arvores, além dos ramos, flores e fructos para estudo e forma- 
ção de hervari os, colherá amostras da madeira, resina, óleo, etc: de 
tudo em quantidade sufficiente para ser distribuido pelos musêos na- 
cionaes, e mesmo estrangeiros. 

Das plantas que tenham, ou se presuma terem uso na medicina e 
nas artes, além dos ramos, flores e fructos, colherá de suas partes activas 
quanto chegue paraanalyse chimica e ensaios therapeuticos e indus- 
triaes. 



XIV INSTRUGÇÕES PARA A COMMISSÃO SC1ENT1FICA 

De todos os vegetaes mais importantes colherá frutas perfeitamente 
maduras para sementeiras ou tentativas de cultura. 

De cada uma destas cousas, não se podendo na occasião colher 
exemplares ou productos, procurará que alguma pessoa do lugar se in- 
cumba de o fazer, indicando-lhe o modo de o praticar, e de remetter 
com segurança. 

Observará o aspecto geral do paiz quanto á sua vegetação primitiva 
ou secundaria, com relação á natureza do terreno e seus accidentes. 
e ás condições meteorológicas ordinárias. 

Em cada localidade notará as espécies que naturalmente ahivege- 
tão, com o fim de concorrer para o delineamento da geographia bo- 
tânica do Brasil. 

Emfim, notará as matas mais ricas em madeiras de construccão 
naval, e em que seja fácil a sua extracção para serem reservadas. 

2.° O estudo dos vegetaes cultivados, e o systema de cultivo adoptado 
no paiz: notando a qualidade das terras, as influencias atmosphericas, 
e quantos outros accidentes forem benéficos ou nocivos á lavoura. 



Secção geológica e mineralógica. 



No que respeita á parte mineralógica, convém colligir toda a espécie 
de mineral que se apresente, quer em grandes massas, quer como 
componente de rochas. Quando sejão esses mineraes crystallisados. 
se deverá procurar o maior numero de indivíduos perfeitos, tendo 
em vista estabelecer a serie mais completa possivel das combinações 
crystallographicas. Se forem mineraes decompostos, investigar-se-na 
as matrizes respectivas para obter os individues na sua forma e com- 
posição primitiva, estudando ao mesmo tempo as causas de que possa 
provir a decomposição actual. Do mesmo modo se averiguara, ao 



INSTRUCÇOES PARA A C0MM1SSA0 SCIENTIF1GA XV 

encontrar mineraes isolados, quaes os agentes que possam ter des- 
truído as matrizes, e se essa destruição foi geral, ou se é limitada uni- 
camente a certos districtos. 

II 

Mineraes isolados podem muitas vezes ser transportados ao longe, 
não só pelas aguas dos ribeiros, mas também pelas torrentes passa- 
geiras no tempo das grandes chuvas: estes mineraes devem merecer 
attenção muito especial, visto poderem ser indicios de vieiros ou 
de formação inclinada que aponta na superfície do solo, em um só 
ou poucos pontos. E no caso de se reconhecer esses mineraes como 
indicios de formação útil, principalmente metallifera, serão as pes- 
quizas continuadas até que se encontre o tronco d'onde partirão. 

III 

Descobertos jazigos metalliferos , se procurará determinar a sua 
possança, direcção, natureza da matriz, e quaesquer outras circum- 
stancias que possão ter influencia sobre a sua minerabilidade. Entre 
estas apontaremos as forças motrizes disponíveis, a quantidade e qua- 
lidade de combustível que se encontre nas vizinhanças, distancias 
dos centros de população ou dos portos mais próximos, e meios de 
communicação : deve-se também attender ao abastecimento de man- 
timentos, que é uma das questões que mais poderão influir sobre a 
explorabilidade de uma mina. 

Considerações análogas se farão para as outras matérias dignas de 
exploração, como mármores, cimentos, carvão de pedra, lenhitos, 
asphalto, schistos bituminosos que possão ser distillados para a pro- 
ducção de naphta, etc. 

IV 

Também devem ser attendidas as tradições reinantes nas diversas 
localidades sobre a existência de mineraes, porque alguma lenda de 
ouro encantado, terrenos exhalando cheiro sulfuroso, estouros sub- 
terrâneos, podem conduzir á descoberta de minas de pyrites em cir- 



XVI INSTRUCÇÕES PARA A C0MM1SSÃ0 SCIENTIFICA 

cumstancias favoráveis para supprir de enxofre e de acido sulphurico, 
ou de pedra-hume, os nossos mercados, que hoje com difficuldade 
são fornecidos pelo estrangeiro, e trazem em dependência muita in- 
dustria de grande vantagem. 

Importa examinar com especial cuidado todos os rios, lagos e ter- 
renos salgados, com vistas de achar salitre (de potossaou soda), bórax, 
soda, sal de Glauber, caparrosa, sal ammoniaco, etc, que valha a 
pena exportar sendo próximo ás costas; ou sal commum indispen- 
sável para o uso da população e para sustento do gado, sendo no 

interior. 

V 

No caso de existir mineração activa nos lugares que tem de ser 
visitados, ou exploração metallurgica, serão estudados minuciosamente 
os processos em uso, estabelecida a relação entre producto e forças 
consumidas, indicando-se os defeitos existentes e os melhoramentos 

applicaveis. 

VI 

Encontrando-se minas ou estabelecimentos metallurgicos abando- 
nados, serão indagadas as causas desse abandono, se dependem do 
empobrecimento do solo, ou de falta de gente habilitada para con- 
tinuar, casos frequentes na provincia de Minas, S. João de Ypanema. 
etc, ; e se estudará quanto fôr possivel a historia desses estabeleci- 
mentos e a possibilidade de sua reanimação, fazendo um calculo 
approximado da producção que promettão para o futuro. 

VII 

Na parte geognostica ter-se-ha de proceder aos exames seguintes : 
1.° A natureza das rochas, a sua composição, dimensões, direcção 
e forma dos vieiros que possão conter, o rumo e a queda que se- 
guem, principalmente quando stratificadas. 

2.° No fendimento primitivo das rochas recommenda-se maior cui- 
dado em estudar como foi cheio, ajuntando todos os dados que sirvão 
para complemento da theoria das betas e vieiros. 



V 



INSTRfJCGÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA XVII 

3° Achando-se rochas differentes, procurar-se-ha estabelecer os 
termos de sua superposição, e sua idade relativa. 

4.° Deveráõ ser reunidos todos os dados que possão fornecer es- 
clarecimentos sobre a destruição de formações que tenhão existido, 
segundo vestígios actuaes, e se os agentes destruidores forão lentos 
ou violentos, como aguas, erupções, terremotos ou acções chimicas 
locaes. 

5.° Qual a marchada decomposição presente das rochas, seus pro- 
ductos e por que agente é ella continuada; qual a vegetação cellular 
que primeira bebe sua existência nessa decomposição, e se ella exerce 
uma acção accelerante ou vagarosa; e qual é a vegetação substitutiva 
que se segue até a producção de uma camada sufficiente para ali- 
mentar vegetação vascular capaz de mudar o aspecto do paiz. 

6.° Os productos de decomposição deveráõ ser examinados cuida- 
dosamente nas chapadas, nos declives, nas bacias e valles, debaixo 
das aguas, porque póde-se dar o caso análogo á decomposição dos gra- 
nitos do Rio de Janeiro, que produzem argillas vermelhas, amarellas, 
azuladas e brancas, terrenos barrentos impermeáveis á agua, assim 
como areaes, tão differentes em apparencia, e no entretanto provenien- 
tes todos da mesma origem. 

7.° Não se deve perder de vista a procura de fosseis de qualquer 
natureza que sejão, principalmente foraminiferos e infusorios, que 
muitas vezes representão um papel tão importante na petrographia 
de um paiz, além de caracterisarem perfeitamente as formações em 
que são encontrados. 

8.° Finalmente devem ser delineadas com cuidado as secções im- 
portantes do terreno, os contornos das montanhas, o maior numero 
de perfis. Rochas de aspecto caracteristico serão photographadas, 
e também se fará um nivelamento geológico, e um mappa, no 
qual se procurará marcar, com a maior exactidão que as circumstan- 
cias permittão, os limites das differentes formações, e os diversos 
jazigos e betas que nelles se descubrão, ficando a cargo da secção 
astronómica fornecer as determinações geodésicas que se tornarem 
necessárias. 

c. s. 3 



XVIII INSTRUCÇÕES PARA A C0MM1SSÃ0 SC1ENT1FICA 

VIII 

Com referencia á agricultura, se procederá ainda a uma collecção 
dos differentes solos em quantidade sufficiente para que se possa 
determinar o seu gráo hygroscopico, de aquecimento e conservação 
das temperaturas, assim como as differentes analyses chimicas. As 
amostras deveráõ trazer as indicações seguintes: se mato virgem, 
capoeira, capão, pasto, alagadiço, etc, ou campo cultivado, e neste 
caso qual a planta que produz melhor nelle, se se acha esgotado para 
uma ou mais plantas, com quantas cultura se esgota, e que tempo leva 
aregenerar-se. Acompanharão as ditas amostras uma porção de tronco, 
folhas e fructos dos vegetaes que elles de preferencia produzem, afim 
de que se possa analysar as suas cinzas, e determinar à priori, á vista 
de uma vegetação, quaes elementos se deveráõ addicionar ao solo para 
produzir outra qualquer que se intente, servindo desfarte o estudo 
geológico do paiz de guia ao agrónomo que procure cultival-o. 

IX 

Pode dar-se o caso de haver em alguns lugares falta de agua, que 
sequem os rios, e seja consequência disso a destruição da vegetação, 
mortandade do gado, e fome da população. Ahi deverá a secção 
geológica proceder a exames das localidades vizinhas, estudar todas as 
circumstancias que levem a suppor a existência de agua, e então sondar 
o terreno para fornecimento de dados práticos para abertura de poços 
artesianos. Aproveitar-se-ha igualmente esse trabalho de perforamento 
para estudar as camadas sobrepostas do terreno, como também para 
determinar a sua temperatura em diversas profundidades, e achar a 
que distancia da superfície é invariável o gráo do thermometro, e a 
rapidez com que o solo aquece e esfria. 



Das aguas que assim forem obtidas, bem como das dos rios e fontes, 
se determinará a qualidade e quantidade de gazes que contenhão ; e 
se ellas mostrarem propriedades que mereção uma analyse mais 



1NSTRUCÇ0ES PARA A C0MM1SSÃO SCIENTIFICA XIX 

rigorosa, apanhar-se-ha porção sufficiente, que será concentrada com 
todo o cuidado afim de que se conservem os saes nellas existentes para 
ensaio ulterior. Nos lugares em que houver aguas mineraes se pro- 
cederá ás operações analyticas que indispensavelmente devem ser 
feitas na fonte, remettendo-se porção apanhada com as precauções 
necessárias para evitar perda de gazes, afim de que se verifique em 
algum hospital as suas virtudes medicinaes. 

XI 

Cumpre também determinar a quantidade de matéria orgânica que 
contém as diversas aguas, e a quantidade e qualidade de matéria 
inorgânica que acarretão em suspensão em diferentes épocas, para 
d'ahi poder calcular o volume de terras levadas annualmente pelos 
rios, e probabilidades que offerecem da formação de bancos ou de 
deltas. 

Attenta a difficuldade de obter essas observações em numero suffi- 
ciente, ou em circumstancias sempre propicias, o resultado necessa- 
riamente só será uma approximação á verdade, cujos limites se irão 
estreitando com o andar dos tempos; porém mesmo assim inexacto, 
pode fornecer muitos dados de grande utilidade á engenharia. 

XII 

E' conveniente estudar com cuidado a formação de bancos em rios 
e no mar pelas arêas transportadas pelo vento. Acontece que em alguns 
lugares pequenas lagoas, bebedouro de gado, são ás vezes comple- 
tamente obstruidas, elevando-se no seu lugar um cômoro d'arêa, e 
sendo este por sua vez removido deixa uma planicie sêcca, expondo 
assim as criações á sede. Bosques mesmo e aldêas inteiras são ás vezes 
cobertas no correr de poucos annos, e uma tal destruição da vegetação 
e accumulação de um elemento estéril podem em curto espaço de 
tempo reduzir vastos districtos a inhospitos desertos. Com conheci- 
mento, porém, das leis a que obedece esse continuado movimento de 
enormes massas de arêa, se alcançará talvez impedil-o por meio do 



XX 1NSTRUCÇÕES PARA A C0MM1SSÂ0 SC1ENT1F1CA 

plantio de arvoredo, como se tem praticado nas restingas do Báltico e 
da Hollanda, e como se tenciona mesmo ir invadindo o Sahara, á vista 
dos bons resultados que os primeiros ensaios produzirão. Hardy 
assevera que no fazer vingar as primeiras cem arvores está toda a 
dificuldade: á sombra e ao amparo destas as outras crescem, e com 

pouco trabalho. 

XIII 

Nas lagoas entulhadas podem existir turbeiras que sirvão de com- 
bustível, e se examinará se depósitos de rios não formão lenhitos 
recentes. 



Secção zoológica. 



A zoologia não se limita a uma descripção simples e rigorosa dos 
animaes distribuídos sobre a superfície do globo terreste, grupando-os 
methodicamente; nem a conhecer a estructura do corpo e mecanismo 
de suas funcções physiologicas, seus hábitos e Índole, seu modo de 
viver e multiplicar, e transformação das espécies: ella occupa-se 
também, e é o mais essencial, do proveito que as artes, a medicina e a 
economia domestica podem tirar das numerosas legiões de viventes 
que povoão o ar, a agua e a terra. Concebe-se assim quão immenso é o 
dominio deste ramo da historia natural, e as vantagens que resultão do 
seu estudo, entendido como deve ser. 

II 

Os animaes de qualquer paiz podem pois ser considerados sob dous 
pontos de vista : ou geralmente como objectos de historia natural, e 
deste modo classificados segundo algum systema particular ; ou esta- 
tisticamente como manancial de riqueza, e apreciados segundo a sua 



1NSTRUCÇ0ES PARA A COMMJSSAO SC1ENTIFICA XXI 

importância. Interessa que sejão estudados de ambas as maneiras, o 
que compete ao membro da expedição scientifica encarregado da parte 
zoológica. 

III 

Terá portanto a obrigação de descrever exactamente todas as espécies 
de animaes que encontrar, vertebrados ou invertebrados, com os seus 
nomes vulgares e synonymia dos scientificos, discriminando os exóticos 
dos indígenas. Notará a degeneração que no fácies dos primeiros fez 
soffrer a transferencia do seu lugar natal, assim como as modificações 
relativas á côr, grandeza, costumes, etc, e o lucro que a industria tem 
obtido, ou provavelmente chegará a conseguir da sua acclimatação em 
maior escala. Quanto aos pertencentes á Fauna do paiz, averiguará o 
seu habitat peculiar, e a sua abundância ou escassez, distinguindo 
com maior attenção os animaes imperfeitamente descriptos, ou de todo 
ignotos, dos que já estão conhecidos, e assignando áquelles pelos seus 
caracteres os lugares que lhes cabem no systema geral de Cuvier, ou 
outro preferido segundo a classe respectiva. 

IV 

O conhecimento dos seres organisados avulta de interesse quando 
se trata dos mammiferos, entre os quaes o homem encontra seus 
indispensáveis auxiliares, tanto pelo admirável instincto, como e não 
menos pela força. A' frente deste primeiro grupo do grande typo 
dos vertebrados figura o próprio homem, tão semelhante áquelles 
pelo plano geral de sua organisação physica, mas tão superior por 
essa sublime intelligencia, que lhe faz contemplar orgulhoso a 
cadêa successiva da creação animal estendida abaixo delle até con- 
fundir-se na matéria inorgânica. Ficará porém o director da secção 
zoológica dispensado de tratar da anthropologia, visto estar privativa- 
mente sob a responsabilidade de outro membro a parte ethnographica 
dos trabalhos da commissão scientifica. 

E' entre os indivíduos enumerados pela mammalogia que se 



XXII I.VSTRUCÇOES PARA A COMM1SSÃO SCIENTIFICA 

observão as mais estranhas variedades nas formas, bem como na 
estatura. Os grandes mammiferos estão quasi todos conhecidos : mas 
reina ainda muita incerteza quanto ás espécies pequenas, e por isso 
abre-se um dilatado campo de descobertas a quem se dedicar ao seu 
exame. estudo dos quadrúpedes não se deve cingir unicamente á sua 
classificação methodica, como dissemos a respeito de todos os animaes 
em geral, pois hoje já se começa a comprehender que ella é um meio 
de facilitar a determinação das espécies, e não constitue o fim absoluto 
das investigações da sciencia : importa averiguar os seus actos, as 
condições exteriores que se ligão á sua existência, e a influencia que 
exercem sobre elles ; tudo em um palavra quanto concorra a derramar 
novas luzes sobre a historia da sua vida. Mas entre todas as noções que 
se procurar adquirir, merecem primazia, por importantissimas. as 
que se referem aos serviços que os quadrúpedes podem prestar, pois é 
a classe de animaes que permitte as mais numerosas applicações ás 
nossas necessidades : de uns nos utilisamos em quanto vivem, de outros 
só depois de mortos, e de muitos tanto vivos como mortos. Neste 
ponto bem longe estamos de haver aproveitado as riquezas que 
offerece o nosso fértil paiz: a somma delias é maior do que suppomos. 
Não faltando dos productos únicos no seu género , que os mam- 
miferos fornecem ás artes úteis e de luxo, é copioso o numero das 
espécies selvagens que, domesticadas, augmentarião os nossos 
recursos alimentares. Lamenta F. Cuvier, e com razão, que a anta 
(Tapirus americanus) viva ainda errante nos bosques, accrescentando 
que quasi todos os pachydermes até hoje no estado de ferocidade tem 
propensão para os hábitos domésticos : neste caso estão também todas 
as espécies dos géneros Ccelogenys, Dasyprocta, Cervm, etc, nos 
quaes se comprehendem as pacas, cutias e veados, sem fallar de outras 
mais ou menos apreciáveis. O mesmo se dá a respeito das aves : apenas 
algumas pessoas conservão, por curiosidade, em suas chácaras e 
quintaes, o Crax alector, e um ou outro individuo dos bellos géneros 
Penélope, Tinamus, Psophia, etc; mas ainda ninguém especulou 
sobre a sua criação em grande, imitando o que se pratica com as aves 
communs dos nossos mercados. Considerando nas modificações e 



INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIKNTIFICA XXIII 

melhoramentos introduzidos pela acção do homem na organisação, 
funcções e hábitos dos animaes domésticos, ficaremos convencidos 
que poucos quadrúpedes mammiferos existem cuja domesticação não 
seja mais ou menos proveitosa. 



Immediatamente após os mammiferos apparecem no extenso quadro 
zoológico as aves, talvez os seres animados que mais tem attrahido a 
attenção dos povos, já por seus costumes e maravilhoso instincto, já 
pela suavidade do seu canto, e sobretudo pela elegância de suas formas, 
graça de movimentos e brilhante plumagem. 

A ornithologia brasileira deve por consequência despertar a 
curiosidade do perscrutador da natureza, que será sempre indem- 
nisado com usura das suas fadigas por novas descobertas, a mor parte 
inesperadas. Descrevendo fielmente as aves de todas as ordens, não 
se olvidará de registrar quanto fôr relativo a seus hábitos, sustento , 
reproducção , nidificação , incubação e criação da progenitura , 
tanto mais que os costumes da pluralidade dos pássaros, maximè da 
America Meridional, são ainda um segredo para o homem. E como 
a nomenclatura desta segunda classe dos vertebrados se ache hoje 
bastante confusa , porque , sem fallar do abuso do neologismo , das 
distincções subtis nas espécies e dos desmembramentos não motivados 
nos géneros, differindo muito as aves segundo sua idade e sexos, os 
autores tem frequentemente tomado individuos da mesma espécie 
por de outra diversa, dilucidar-se-ha grandes duvidas conseguindo 
reunir de cada uma, o que nem sempre será fácil, o macho, a fêmea, 
e de ambos o novo, o adulto e o velho. A economia rural, as artes e o 
fasto põem em contribuição e tirão grande partido de numerosas 
aves: é isto um assumpto merecedor de toda a ponderação para o 
commercio. 

Com as espécies que vierem preparadas é conveniente remetter, 
sendo possivel, os ninhos e ovos pertencentes á cada uma, que são 
objectos um pouco desprezados nos musèos, e todavia tão interessantes 



XXIV I.VSTRUCÇÕKS PARA A C0.MM1SSÃ0 SCIENTIF1CA 

para o ornithologista como as mesmas aves : é na construccão dos 
ninhos que ellas mais nos fazem admirar a sua industria e prevenção 
para que a prole não deixe de vingar. Quando na composição dos ninhos 
entrarem matérias animaes, de que se servem certas aves, antes de 
guardados serão embebidos no licor de Smith, em uma solução de 
acido arsenioso ou de strychnina. A perfeita conservação dos ovos. 
principalmente dos pequenos, exige paciência e delicadeza, e em 
vários autores se encontrão os processos a seguir. Nos gabinetes de 
historia natural a collecção de ovos não se deve restringir só aos 
provenientes das aves ; outrosim tem bom cabimento os dos Cheloneos. 
dos Saureos, dos Ophidios, etc: é conveniente trazer isto em 
lembrança. 

Vi 

Entramos em outra parte da philosophia natural, bem fecunda em 
resultados interessantes, a ichthyologia, que tem por fito o conhe- 
cimento completo dos peixes, animaes muito variados, e também 
dignos em tudo de chamar a attenção do naturalista : diversidade de 
familias abrangendo grande numero de espécies, muitas das quaes. 
a par dos mammif eros, das aves, nos abastecem de preciosas matérias 
empregadas nas artes e na pharmacia ; fácil multiplicação em todos 
os climas, como está hoje exuberantemente provado pelas repetidas 
experiências dos mais hábeis piscicultores de França, da Inglaterra e 
da Allemanha; e sobretudo prodigiosa fecundidade dos individuos. 
a tal ponto que certas nações se alimentão quasi exclusivamente de 
peixes, sendo além disso o seu usorecommendado, entre outras, pelos 
dogmas da religião. 

Resalta do exposto que nunca haverá demasia de esforços tendentes 
ao progresso da ichthyologia, para o qual o Brasil muito pode cooperar. 
pois nossos mares e rios forão sempre afamados pela variedade de 
peixes que nelles vivem. Ás razões expendidas accresce a não menos 
attendivel de achar-se o musêo nacional mui pobre neste ramo, e por 
isso convém formar uma boa collecção de peixes, tanto marinhos 
como fluviaes, consultando na sua classificação os magnificos trabalhos 



INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSAO SCIENTIFIGA XXV 

de Lacépède, de Múller, a obra monumental de Cuvier e Valen- 
ciennes, e notando o que se souber acerca da abundância daquelles 
animaes, do seu préstimo, maneira de procrearem, de tudo emíim 
quanto augmente a massa dos conhecimentos que já possuimos. 

Isto só se poderá obter satisfactoriamente inquirindo os melhores 
pescadores, fazendo o sacrifício de acompanhal-os em seus arriscados 
trabalhos, com preferencia depois das grandes e aturadas tempestades, 
è assistindo pessoalmente a essas guerras de paciência e de astúcias, 
tão férteis de episódios, que, senhores dos mysterios do officio, elles 
dirigem contra os habitantes das aguas. Tornar-se-ha também indis_ 
pensavel entreter uma correspondência regular com pescadores de 
diversas paragens, principalmente das mais piscosas, dando-lhes as 
convenientes instrucções, e pagando com generosidade qualquer 
espécie desconhecida que apanharem, afim de interessal-os a novas 
diligencias. Embora muitos peixes marinhos se encontrem por toda a 
parte, comtudo o maior numero pertence a certos golfos, angras ou 
praias; e as espécies de peixes de agua doce differem,não só segundo 
os paizes, mas e não menos conforme os rios e lagos em que vivem. 

Constituindo a pescaria um avultado item na riqueza de qualquer 
paiz, importa observar o seu estado actual, as causas que empecem o 
seu progresso e os meios de removel-as, descrevendo igualmente os 
processos e instrumentos empregados para segurar o peixe, da mesma 
forma adoptada por Duhamel e outros que escreverão sobre a pescaria 
pratica. A descripção desses processos e instrumentos, na qual se 
deverá ter em vista as quatro classes em que os dividiu Lacépède, 
tornar-se-ha mais comprehensivel se for illustrada de desenhos 
exactos, ou ainda melhor acompanhada de uma colleeção de modelos 
das diversas espécies de curraes ou cercadas, redes, armadilhas, cestos 
ou covos, esteiras, etc. Com os modelos viráõ também amostras das 
madeiras, cordas, fibras e outras matérias de que são fabricados em 
ponto grande. Desnecessário é lembrar que os vegetaes usados pelos 
habitantes do interior, e principalmente pelos indigenas, para 
embriagar o peixe, serão contemplados na indagação deste assumpto, 
tão urgente na actualidade que o governo imperial se acha autori- 

c. s. à 



XXVI 1NSTRUGÇÕES PARA A C0MM1SSÁ0 SC1ENTIFICA 

sado pelas camarás legislativas a promover a incorporação de compa- 
nhias para a pesca, salga e secca de peixe no littoral e rios do Brasil. 

VII 

Resta-nos fallar da quarta e ultima classe dos vertebrados, a qual 
comprehende os reptis, abundantissimos no Brasil, e divididos pelos 
erpetologistas em Cheloneos, Saureos, Batrachiose Ophidios. Recom- 
mendando em geral o estudo e uma collecção bem conservada de 
todos, lembraremos de passagem diversas particularidades relativas 
aos nossos ophidios. 

Ao horror e repugnância que á maior parte da gente inspira a vista 
e aapproximação das serpentes podemos attribuir a lentidão dos passos 
da ophiologia; mas esse horror que ellas excitão, longe de ser um 
motivo para nos afastarmos do seu exame, nos prepara os mais 
extraordinários espectáculos. Difficilmente acreditar-se-ha que ainda 
se não achão determinadas com certeza as serpentes venenosas do 
Brasil, cujo numero é menor do que suppõe o vulgo, no queconcordão 
muitos observadores desprevenidos. 

A discrepância dos naturalistas na classificação das serpentes bra- 
sileiras, assim como na sua qualidade venenosa, procede quasi sempre 
da attenção dada aos nomes triviaes com que são designadas no paiz : 
por exemplo, appellidão indistinctamente cobra coral muitas espécies 
bem diversas do verdadeiro Elaps coralinus: o mesmo succede a 
respeito da jararaca, surucucú, caninana, limpa-mato, urutu, e 
outras que se confundem ou varião de nomes segundo os lugares. 
Muito interessa a dilucidação destas duvidas, determinando rigoro- 
samente as espécies, e juntando á cada uma a synonymia dos seus 
nomes vulgares. Também é de incontestável transcendência o conhe- 
cimento da força toxica das que a possuem, e não menos o dos 
antídotos apregoados como infalliveis para neutralisal-a. 

Outro ponto bem curioso, pelo qual se pronuncião a favor e contra 
grandes autoridades, vem a ser o decantado poder magico ou sobre- 
natural attribuido ás serpentes, que se acredita geralmente exercerem 



INSTRUGÇOES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA XXVII 

em distancia uma espécie de acção magnética sobre os outros animaes 
que intentão prear, obrigando-os somente com a vista a approximar-se 
pouco a pouco até precipitar-se nas suas fauces ; assim como o grão de 
fé que merecem os nossos psyllos, mandingueiros, ou curados de 
cobra, os quaes se jactão de possuir o segredo de brincar impunes com 
toda a casta de serpentes, zombando do seu veneno, e de fazel-as 
obedecer aos seus momos e assobios. A'cerca da fascinação dos 
ophidios é notável o que se lê na Erpetologia geral de Duméril e 
Bibron, até hoje a mais accurada publicação sobre os reptis. 

Divergem também os autores tratando do maior comprimento a que 
chegão as nossas espécies do género Boa, entre as quaes sobresahe a 
gigantesca Sucury ou Sucuryú (Eunectes murinus , Wagler). Haverá 
talvez opportunidade de averiguar isto, recolhendo ao mesmo tempo 
as tradições reinantes entre os sertanejos relativamente a serpentes 
monstruosíssimas, queellesattestão apparecerem em certas épocas, e de 
cuja força narrão prodigios dignos de exornar as viagens de Syndbad 
o Marinho das Mil e uma noites. Não se julgue futilidade o conhe- 
cimento dessas tradições teratologicas que a crença popular, sempre 
ávida do maravilhoso, vai transmittindo de bocca em bocca: archi- 
vadas, quando mais não seja, servirão de themapara a poesia brasileira. 

VIII 

Passamos agora a tratar dos invertebrados, divisão vastissima que 
abrange os molluscos, crustáceos, arachnides, myriapodes, insectos, 
annelides, e termina nos zoophytos, subdivisão na qual se encontrão 
esses seres ambíguos, que nos trazem indecisos sobre o limite de dous 
reinos, esgotando a paciência dos mais tenazes micrographos, que 
nelles intentão sorprender os primeiros rudimentos da molécula 
orgânica. 

A respeito dos invertebrados militão as mesmas razões expendidas 
para o estudo aprofundado dos outros animaes de organisação mais 
complicada : não repisaremos portanto o que fica dito, julgando ocioso 
especificar como se deve proceder quanto á malacologia, conchyologia, 



XXVIII 1NSTRUCÇÕES PARA A CQMMISSÁO SCIENTIFICA 

helminthologia, etc. Exceptuaremos comtudo a entomologia, a qual, 
segundo o pensar de muitos, não é uma sciencia frivola e própria 
somente para satisfazer uma vãa curiosidade, mas sim utilissima e 
digna de occupar os mais sérios espiritos. As industrias alimentadas 
pelos productos dos insectos, escreveu Guérin-Méneville, dão trabalho 
a numerosas populações, rendem sommas consideráveis, e fazem 
gyrar immensos capitães. Alguns exemplos tirados da estatistica o 
provarão melhor : a cochonilha indispensável para as fabricas de França 
custa annualmente mais de oito milhões de francos ; e a seda dá também 
cada anno mais de 150 milhões de trancos aos productores da matéria 
prima, e uma somma mais que dupla á industria propriamente dita, 
pelas manipulações que necessita antes de ser entregue ao consumo. 
Resulta dos mais authenticos documentos, e das próprias palavras do 
relatório do ministro da agricultura em 1850, que o solo francez 
não produz toda a seda necessária para as fabricas, pois alli se importa 
por anno mais de 60 milhões só de seda desfiada, importação que tem 
subido prodigiosamente. Isto, e a enfermidade destruidora que tem 
soffrido na Europa a lagarta que prepara tão preciosos fios, explica os 
grandes esforços hoje empregados pela França para a acclimatação de 
espécies exóticas de bichos da seda na Argélia. 

De sobejo temos dito para recommendar a indagação dos lepi- 
dopteros que produzem seda, devendo-se examinar qual a quantidade 
delia fornecida por cada espécie, de que vegetaes se sustentão os 
bichos, qual a temperatura da provinda desde que sahem as larvas até 
á formação dos casulos, etc. Não se receie a prolixidade neste assumpto: 
convém escrever tudo quanto se souber sobre a vida e costumes destes 
insectos, distinguindo as observações pessoalmente feitas das colhidas 
de outros indivíduos. O verdadeiro bicho da seda {Bombix mori, L.) 
não é o único insecto que produz tão preciosa matéria, como se sabe : 
o Dr. Chavannes publicou em 1855 o resultado de suas indagações 
sobre diversas espécies de Saturnias, entre as quaes distingue a 
S. aurota e S. cethra; a primeira muito commum nos arrabaldes desta 
cidade, e a segunda na Bahia, fornecendo aquella uma porção de seda 
sete vezes mais considerável que a do Bombix mori ou do Cynthia. 



INSTRUCÇOES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA XXIX 

Além destas espécies, possuímos outras conhecidas, e provavelmente 
por conhecer, de que a industria sericicola muito aproveitaria. Está 
hoje demonstrado que as raças de bichos da seda, como as dos outros 
animaes domésticos, são susceptíveis de melhoramento, e que depende 
da vontade do homem fazel-as dar mais seda, assim como se obteve 
que os bois, os carneiros e porcos dessem mais carne e gordura. 

Na colheita dos hymenopteros se deverá attender muito ás nossas 
espécies de abelhas, que são numerosas, fornecem cera em abun- 
dância, e um mel mais ou menos perfumado; e com quanto se não 
possa avançar que a qualidade de seus productos chegue a rivalisar 
com os da abelha commum (Apis mellifica), seria de desejar que se 
tentasse a sua exploração. Na ordem dos hemipteros existem diversos 
insectos do género Cocais, que também produzem ceras, das quaes 
apparecêrão varias amostras na grande exposição geral de Paris, re- 
mettidas da China, e tão bellas como o spermaceti. Os insectos do sobre- 
dito género são communs em todas as províncias do Brasil ; já muitos 
curiosos tem fabricado velas com sua cera, e isto presagia um novo 
ramo de comrtiercio. Ha muitos outros insectos úteis, cujo exame não 
julgamos necessário lembrar, como por exemplo as cantharidas; nem 
também o das numerosas famílias prejudiciaes á agricultura, á horti- 
cultura, á sylvicultura e á economia domestica, que nos causão maior 
damno do que todas as outras classes de grandes animaes nocivos. 
O estudo melhor dirigido dos diversos ramos das sciencias physicas e 
sua applicação ás necessidades da agricultura tem produzido resultados 
de grande importância, que nenhuma pessoa instruída contesta 
actualmente, e a entomologia é chamada a representar um papel 
indispensável nas sciencias agrícolas. 

IX 

. De todos as espécies de animaes colligirá o numero de exemplares 
que entender (no caso de encontral-os em quantidade), segundo seu 
maior ou menor valor scientifico, tendo em vista que, além do musèo 
nacional desta corte, outros existem em algumas províncias, onde 



xxx INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA 

convém sejão igualmente depositados, servindo os que sobrarem para 
fazer-se trocas com musèos estrangeiros. 

Na preparação desses animaes, quer a sêcco quer mergulhados em 
álcool ou em outros liquides adequados, conforme á sua natureza, 
cumpre que haja o maior cuidado, attendendo não só á futura con- 
servação, mas ainda evitando que se destruão ou deformem alguns 
dos caracteres exteriores, cuja falta dificultaria ou impossibilitaria 
depois a sua classificação. Não será muito avaliar em um quarto 
a perda resultante do máo methodo com que são preparados e 
acondicionados os objectos de historia natural. A Instruçção ar- 
ranjada pela administração do musêo de Paris , para os viajantes 
e empregados nas colónias, sobre a maneira de colher, conservar e 
remetter os produclos naturaes, servirlde excellente guia; assim como, 
e em alguns casos melhor, o Manual do naturalista preparador de 
Boitard, e vários outros tratados modernos de Taxidermia, aos quaes 
se deverá seguir com as modificações que a experiência própria e 
as circumstancias particulares do paiz aconselharem. 

Com quanto a chimica tenba descoberto processos infalliveis para 
prevenir que se corrompão e deteriorem os animaes destinados aos 
musêos de historia natural, todavia muitos delles, por exemplo peixes, 
reptis, etc, infelizmente perdem ou mudam algumas de suas bri- 
lhantes côres,logo ou poucas horas depois de introduzidos nos melhores 
liquidos preservativos, e mesmo apenas cessam de viver. Havendo 
certeza, ou desconfiando-se que as cores de alguns animaes viráõ a 
alterar-se, é indispensável fazel-os desenhar immedialamente com 
toda a fidelidade de colorido ; e quando qualquer inconveniente o 
não permitia, recorrer-se-ha a notas por meio de uma boa escala 
chromatica. Se todos os viajantes naturalistas assim praticassem, mui- 
tas figuras de animaes, aliás de correctíssimo desenho, que esmaltam 
as suas esplendidas publicações, não peccarião pelo lado do falso 
colorido, como se observn orincipalmente na classe dos insectos. As 
estampas nas obras de historia natural não são requinte de luxo, como 
ha quem acredite ; a iconographia quasi sempre economisa o tempo 
que pela simples leitura se perde em buscas enfadonhas e fatigantes, 



INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTJFICA XXXl 

e suppremuilas vezes a difficuldade de exprimir ligeiras differenças 
e caracteres, inexprimiveis mesmo com o soccorro da melhor termi- 
nologia. 

X 

Concordando todos os naturalistas na necessidade absoluta dos es- 
tudos osteologicos, muito mais depois que a paleontologia começou 
a confrontar os ossos das gerações perdidas com os das existentes 
em nossos dias, para mediante essa comparação simultânea inferir a 
que familias e géneros de animaes 'pertencerão aquelles fosseis, não 
se desprezará a remessa de esqueletos inteiros, ou pelo menos os 
craneos e algumas outras peças mais importantes para as investiga- 
ções da anatomia comparada. Não carece que os esqueletos completos 
venhão armados, pois deste modo se embaraçaria sem vantagem a 
sua conducção, e até mesmo nunca chegariam perfeitos ; basta arru- 
mar em separado os ossos de cada espécie differente, de maneira 
que não chocalhem dentro das caixas, e se damnifiquem roçando uns 
nos outros: este mal se corrige envolvendo-os em palha, musgo, ser- 
radura de madeira, ou outras substancias idênticas. 

Uma collecção de visceras das mais essenciaes, preservadas em li- 
cores espirituosos, é complemento indispensável e fácil de executar- 
se. Não tanto nas formas exteriores, como na organisação interna, 
se deve procurar os caracteres genéricos e especificos dos animaes, 
segundo ensina o immortal Cuvier. 

XI 

Serão louváveis todas as diligencias afim de que os habitantes do 
paiz apanhem vivos alguns animaes menos communs ou mais curio- 
sos, cujos hábitos convenha indagar, e os remelterá para esta corte 
em gaiolas apropriadas, dando aos seus conductores as instrucções 
competentes: entre estas se recommendará, como muito essencial, 
além das maiores precauções quando os animaes forem ferozes, o 
asseio das gaiolas; que se evite o excesso de alimentos, extremamente 
nocivo a viventes presos e privados de exercicio ; e de maneira ne- 



XXXI[ IXSTRUCÇÕES PA KA A COMMISSÃO SGIENTIFICA 

nhuma se consinta que sejão instigados ou irritados. Quando o go- 
verno imperial não possa ainda realisar a idéa do digno director do 
Jardim Botânico, oEx mo conselheiro Cândido Baptista de Oliveira, de 
crear naquelle estabelecimento um parque de zoologia, á imitação 
dos existentes em outras nações cultas, onde melhor se sorprenda os 
costumes dos irracionaes das nossas florestas, e se faculte occasião de 
comparal-os com outros exóticos, serão esses animaes offerecidos á 
Sociedade imperial zoológica de acclima tacão fundada em Paris, 
ou a algum outro núcleo do mesmo género, lucrando assim a sciencia 
ea humanidade. 

XII 

E' da maior vantagem que o naturalista viajante lance cada noite 
em um livro as notas que houver tomado durante o dia, pois estas em 
papeis avulsos facilmente se podem extraviar. Além dos seus próprios 
apontamentos, transcreverá no referido jornal as informações que lhe 
ministrarem os habitantes do paiz, aos quaes consultará, segundo 
o conceito de veracidade que lhe merecerem. De continuo com a 
natureza diante, dos olhos, elles tem occasião de observar os animaes 
em seu dominio, e por isso forneceráõ a respeito noticias apreciáveis. 
Nadaomittirá de consignar por escripto, que de muito lhe servirão 
para o futuro as suas notas: são tantos os objectos de que vai ficando 
sobrecarregada a memoria de um viajante observador, que não deve 
contar sempre com ella, por mais feliz que a tenha. 

Secção astronómica e geographica. 

i 

Art. 1.° A secção da commissão exploradora, incumbida especial- 
mente dos trabalhos astronómicos e geographicos, os dividirá em duas 
classes distinctas; a saber : 

I a classe. Esta classe comprehenderá as observações astronómicas 



INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA XXXIII 

e operações topographicas concernentes á determinação da posição 
geographica dos pontos mais importantes do território explorado : e 
também quaesquer exames e averiguações que se fizerem sobre ob- 
jectos, cujo conhecimento possa interessar directamente ágeographia. 
2 a classe. Nesta classe entrarão os trabalhos de mera investiga- 
ção, que interessarem immediatamente á physica geral do globo; e 
bem assim os que tiverem por objecto a suggestão de importantes me- 
melhoramentos materiaes, de que careçãoas provindas visitadas pela 
commissão exploradora, uma vez que tenhão elles alguma connexão 
com a natureza dos trabalhos incumbidos á referida secção. 

II 

-Especificação dos trabalhos da I a classe. 

Art. 2.° Sendo que a commissão exploradora, no seu trajecto por 
mar, toque algumas provincias do Império, dirigindo-se áquella em 
que tem de encetar os seus trabalhos, convirá que a secção astro- 
nómica aproveite essa opportunidade para determinar a posição 
geographica das cidades adjacentes aos referidos portos, se fôr isso 
praticável durante os dias que ahi tiver de demorar-se a expedição 
scientiíica. 

• Art. 3.° Nas observações concernentes á determinação da latitude 
convirá que, além da altura meridiana, outra se observe em qualquer 
posição da mesma estrella, antes ou depois da sua passagem pelo 
meridiano do lugar, e ao mesmo tempo o correspondente azimuth. 

A observação da altura meridiana basta por si só para determinar 
a latitude do lugar pelo methodo geralmente praticado, mediante o 
conhecimento da declinação da estrella observada. 

Recommenda-se porém a observação da outra altura, tomada fora 
do meridiano, com a do azimuth correspondente, para o fim de che- 
gar á determinação da mesma latitude, empregando os três ângulos 
dados pela observação, segundo a nova formula de C. Baptista, a qual 
dispensa o conhecimento da declinação da estrella. 

c. s, 5 



XXXIV INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA 

Este duplicado trabalho tem por objecto não somente submetter 
a mencionada formula ás provas praticas, como também apreciar 
(pelas differenças que possão apresentar os resultados comparados de 
um ede outro processo) os effeitos da refracção astronómica, a qual de- 
verá affectar diversamente os elementos empregados nos dous diffe- 
rentes modos de operar, e talvez mesmo corrigir, em alguns casos, 
declinações pouco exactas, dadas pelas ephemerides astronómicas. 

Art. 4.° Para a determinação da longitude geodésica se fará uso 
dos chronometros, e das distancias lunares ao mesmo tempo, todas 
as vezes que estas possão ser observadas. 

As longitudes assim determinadas serão referidas ao meridiano 
que passa pelo ponto culminante da rocha, que assignala a entrada 
do porto do Rio de Janeiro, denominada Pão de Assucar. 

A peculiar situação desse gigantesco monolitho , e mais ainda a 
circumstancia de achar-se elle descripto nos annaes maritimos de 
todas as nações, o fazem singularmente azado para indicar, por modo 
perdurável, a posição do nosso primeiro meridiano. 

Art. 5.° Afim de fixar a posição do ponto da observação, a que fo- 
rem reportadas a latitude e longitude determinadas, convirá oriental-o 
em relação a dous outros pontos notáveis, que se descubrão distinc- 
tamente no horizonte do lugar, pelos seus azimuths observados com 
o theodolito; ou, o que é a mesma cousa, pelos rumos a que de- 
morão aquelles dous pontos, em relação ao meridiano astronómico 
do lugar. 

Na falta dessas duas balisas naturaes, se fincaráõ na vizinhança do 
referido ponto da observação três marcos de pedra tosca, de modo 
que apresentem a menor face rente com o chão, e sejão collocados 
em três pontos quaesquer da circumferencia do circulo, cujo centro 
é o ponto da observação. 

Na direcção da vertical que passa por esse ponto, e na profundidade 
de cinco palmos pelos menos, se enterrará uma garrafa de vidro 
commum, fechada hermeticamente ao maçarico, depois de ser nella 
depositada uma nota escripta, contendo a expressão numérica da la- 
titude e longitude observadas, a variação local da agulha magnética 



INSTRUGÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA XXXV 

de declinação, a temperatura e pressão barométrica médias do dia 
da observação. Esta nota será assignada pelo chefe da secção as- 
tronómica. 

Art. 6.° Uma vez chegada acommissão exploradora á provincia 
em que deverá encetar os seus trabalhos regulares, começará a secção 
astronómica por determinar, com a possivel exactidão, a posição geo- 
graphica da capital da mesma provincia, procedendo do modo acima 
descripto. 

Em todos os pontos da provincia onde houver de fixar-se tempora- 
riamente a commissão exploradora, a secção astronómica fará a deter- 
minação da posição geographicas dos lugares que o mereção na opinião 
delia ; com attenção a que taes determinações possão aproveitar para 
o futuro á construcção da carta geral do Império, ou venhão a servir 
de base ás operações topographicas, que forem executadas em obser- 
vância da lei que decretou o tombamento das terras nacionaes. 

Art. 7.° Na escolha dos lugares, cuja posição geographica convirá 
determinar, a secção astronómica dará preferencia aos pontos situa- 
dos nas margens dos lagos e dos rios, sem nunca preterir os que se 
referem á embocadura destes no Oceano , ou ás coníluencias dos 
mesmos no interior do território. 

Estes trabalhos deveráõ marchar de par com as averiguações rela- 
tivas á natureza do leito de cada um dos rios, ao volume das suas 
aguas, e á velocidade da sua corrente; ás condições da navegabili- 
dade, ou ao regimen do seu curso ; e bem assim pelo que respeita ás 
particularidades próprias dos lagos. 

A configuração das montanhas notáveis, ou das serranias do interior 
da provincia, assim como o accurado exame dos portos, bahias ou 
angras do seu littoral, serão objectos comprehendidos no desenvol- 
vimento dos trabalhos regulares da secção astronómica. 

Art. 8.° Os trabalhos precedentemente especificados serão com- 
muns ás demais províncias, que forem visitadas successivamente 
pela commissão exploradora. 

Entre as observações meteorológicas, conducentes a caracterisar o 
clima das diversas provindas exploradas, deverá merecer particular 



XXXVI INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SC1ENTIF1CA 

attenção á secção astronómica a apreciação da temperatura média e 
máxima local, em cada um dos mezes de regular observação. 

Para esse fim bastará observar o thermometro ás 9 horas da raa- 
nhãa, e ás 3 horas da tarde, em cada dia : visto que a média das 
indicações thermometricas, tomadas naquella primeira hora do dia, 
representa com approximação satisfactoria a temperatura média de 
cada mez; resultando d'ahi que a média dos dozes mezes é, sem 
erro apreciável, a temperatura média annual do lugar. 

As indicações thermometricas tomadas ás 3 horas da tarde farão 
conhecer semelhantemente a máxima temperatura approximada de 
cada dia, a de cada mez, e a de todo o anno. 

O chefe da secção astronómica encarregará um dos seus adjuntos 
de descrever, em um livro apropriado para servir de jornal das ope- 
rações a seu cargo, cada um dos trabalhos executados, com a devida 
regularidade, e distincção das provincias a que dizem respeito, au- 
thenticando-os com a sua assignatura e a do referido adjunto. 

III 

Trabalhos de investigação. 

Art. 9.° A secção astronómica, todas as vezes que julgar opportuno, 
fará uma serie de observações de alturas meridianas de um mesmo 
astro, em dias successivos ou interpolados, calculando a latitude geo- 
désica relativa a cada uma das alturas observadas por dous modos 
differentes; a saber: I o corrigindo a altura observada do effeito da 
refracção modificada pelas differenças de temperatura e pressão ba- 
rométrica daoccasião, em relação á temperatura e pressão conside- 
radas constantes na construcção da taboa de refracções astronómicas; 
e igualmente da parallaxe, se fôr necessário, afim de deduzir desse 
elemento assim corrigido a latitude do lugar : 2 o fazendo a deduc- 
ção dessa mesma latitude, sem a correcção devida ás indicações do 
thermometro e do barómetro. 

A média das latitudes assim calculadas, em uma e outra hypo- 



INSTRUCÇOES PARA A GOMM1SSAO SCIENTIFICA XXXVII 

these, fará conhecer até que ponto as variações da temperatura e da 
pressão barométrica poderáõ influir nos resultados obtidos nas cir- 
cumstancias suppostas acima. 

Uma investigação semelhante poderá ter lugar relativamente a 
duas observações de alturas meridianas do mesmo astro, feitas em 
dous estados hygrometricos diíFerentes da atmosphera, conservando- 
se proximamente constantes a temperatura e a pressão barométrica: 
o que fará conhecer, pelos resultados comparados, a connexão que 
possão ter as indicações hygrometricas com os effeitos da refracção 
astronómica; se todavia a atmosphera mais ou menos impregnada 
de vapores exerce diversa influencia sobre o phenomeno da refracção, 
o que é contestado por experiências physicas, que tem em seu favor 
a autoridade de homens competentes. 

Art. 10. A secção astronómica deverá também proceder a exames 
comparativos dos effeitos da refracção astronómica sobre as obser- 
vações de alturas meridianas, feitas na summidade accessivel de 
alguma montanha ou serra, e na planície adjacente. E bem assim a 
respeito da lei do decrescimento da temperatura, em camadas diffe- 
rentes da atmosphera, a par do decrescimento da pressão baromé- 
trica, com o fim especial de verificar se em algumas circumstancias 
accidentaes tem lugar o facto observado por homens da sciencia, os 
quaes asseverão que a variação da temperatura nas camadas superio- 
res da atmosphera, para uma altura vertical dada, segue em alguns 
casos a marcha inversa da variação da pressão barométrica; isto é, 
aquella crescente, quando esta decresce. 

Convirá por esta occasião comparar as differenças de nivel, dadas 
pela formula barométrica de Laplace, em differentes dias de obser- 
vação, com os resultados de operações hygrometricas feitas para esse 
fim: para assim determinar praticamente as condições em que a 
referida formula pode ser applicada com proveito, ou sem erro at- 
tendivel; o que não tem geralmente lugar quando é essa formula 
empregada para determinar differenças de nivel comparativamente 
pequenas. 

extenso e accessivel plateau que coroa o cimo da serra do Ara- 



XXX VIU INSTRICÇÕES PARA A C0MM1SSÃO SCIENTIFICA 

ripe. na provincia do Ceará, no termo da comarca do Crato, offere- 
cerá á secção astronómica as mais favoráveis condições talvez para 
levar a effeito os estudos comparativos acima indicados. 

Art. 11°. A secção astronómica fará observações regulares e accu- 
radas sobre as variações locaes da agulha magnética, tanto pelo que 
respeita á agulha de declinação, em relação ao meridiano astronó- 
mico, como á agulha de inclinação, em relação ao plano horizontal do 
lugar: determinando a grandeza média de cada um desses elemen- 
tos, os quaes. com a intensidade da força magnética, deduzida das 
osciilações observadas, farão conhecer as condições magnéticas do 
território explorado, e servirão para verificar por outra parte os re- 
sultados da theoria physico-mathematica do magnetismo terrestre. 
em relação aos lugares da observação. 

Semelhantemente determinará a mesma secção o comprimento do 
pêndulo simples que bate segundos sexagesimaes. nas differentes la- 
titudes em que possa ter lugar essa operação até o equador. Os re- 
sultados assim obtidos darão a intensidade da força da gravidade em 
cada uma daquellas latitudes, e farão igualmente conhecer a curva- 
tura do arco do meridiano, comprehendido entre o equador e o 
parallelo mais remoto em que se executou a referida determinação. 

Art. 12°. Achando-se a commissão exploradora na provincia do 
Ceará, a qual soffre periodicamente o flagello de sèccas devastadoras. 
convirá que a secção astronómica, de accordo com a secção geoló- 
gica, faca alli os precisos exames de sondagem, afim de descobrir 
os indicios que possão servir de guia para tentar-se opportunamente 
a abertura de um poço artesiano, o qual (no caso de surtir effeito 
essa primeira tentativa) possa ser considerado como norma para a 
abertura de outros poços, de que careção diversas localidades da 
provincia. 

Ha dous exemplos recentes de poços artesianos abertos em terre- 
nos apparentemente análogos aos do Ceará, os quaes autorisão, pelos 
resultados obtidos, a que se proceda nesta provincia a tentativas desse 
género : a saber, um no Eaypto e outro no deserto Sahara na .Ar- 
gélia. Este ultimo, que tora aberto até a pequena profundidade de 



INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA XXXIX 

cerca de 30 braças, fornece diariamente aos habitantes do lugar dous 
milhões de canadas de agua potável, ou 10,000 pipas de 200 ca- 
nadas . 

Art. 13.° A secção astronómica fará finalmente, quando tiver 
opportunidade, um estudo accurado : I o sobre a conveniência e pra- 
ticabilidade da abertura de communicações fáceis entre os centros de 
producção do interior da província do Ceará e os seus portos ; 2 o 
sobre os melhoramentos de que carecem estes portos, para que sejão 
accessiveis ás embarcações que fazem o commercio directo com os 
paizes estrangeiros ; devendo merecer-lhe particular attenção as pe- 
culiares condições que ofFerece a angra denominada « Porto de 
Jericoacoára » situada cerca de 30 léguas a O-N-0 da cidade da 
Fortaleza. 



Secção ethnographica e narrativa da viagem. 

i 

Os principaes elementos que servem para distinguir as raças hu- 
manas são: a organisação physica, o caracter intellectual e mo- 
ral, as línguas e as tradições históricas. Estes elementos diversos 
não tem ainda sido estudados, sobretudo relativamente aos indigenas 
do Brasil, de maneira a assentar em suas verdadeiras bases a scien- 
cia da ethnologia. Como é provável que d'aqui a duzentos annos 
poucos selvagens existão no seu estado primitivo, torna-se muito pre- 
ciso que desde já se comece a recolher a respeito delles tudo quanto 
for possível : até hoje isto se tem feito superficialmente. Além de que, 
o homem genuíno americano pode ser chamado a compartilhar os 
bens da civilisação, e voluntariamente prestar-se ácommunhão bra- 
sileira, se empregarmos os meios consentâneos com a sua Índole e 
constituição physiologica nos primeiros tempos. Não é necessário 
dizer mais para demonstrar quantas vantagens resultarão para nós 
do conhecimento perfeito dos autochthones do Brasil. 



XL IXSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SC1ENTIFICA 

II 

Sendo o ponto mais importante da ethnologia, para o estudo do 
homem physico, o conhecimento do typo, só se poderá adquirir no- 
ções sufficientes por meio de desenhos fidelissimos do todo, princi. 
palmente da cabeça, os quaes deveráõ ser tirados de face e de perfil. 
e mesmo de outras posições favoráveis á demonstração de certos ca- 
racteres próprios a distinguir um typo particular, tanto no homem 

como na mulher. 

Ill 

Além destes estudos parciaes, importa fazer muitos e variados 
grupos, porque nelles melhor se compararão as formas e suas varie- 
dades, as attitudes, as physionomias e as proporções geraes do corpo; 
e para mais segurança haverá o cuidado de medir grande numero 
de indivíduos adultos, assim como os seus ângulos faciaes, procu- 
rando por essa occasião verificar se a maior abertura do angulo attesta 
maior intelligencia, como affirma Camper, e se a orelha inclinada 
para a parte posterior dá o mesmo indicio, como querem muitos 

physionomistas. 

IV 

Convém igualmente colligir craneos de todas as raças dos naturaes 
do paiz, e moldar no vivo algumas cabeças, para á vista de certos 
dados moraes poder verificar conjunctamente o que ha de mais posi- 
tivo no systema de Gall : se ha verdade nesta doutrina, a craneos- 
copia deverá encontrar notáveis modificações entre as diversas pro- 
tuberâncias do craneo do índio selvagem e as do índio civilisado ou 
do mestiço, conforme a raça predominante. 



Ao tomar a medida da altura do corpo, será bom avaliar sua força 
por meio do dynamometro, ou de qualquer outra maneira approxi- 
mativa, se não houver este instrumento. A attitude e a mimica do 
homem são indispensáveis, porque numa e n outra se revelam os 



INSTfUICÇÕES PARA A C0MM1SSÃ0 SGIENTIFICA XLI 

hábitos sociaes e o temperamento individual. A posição da cabeça, 
dos braços e das pernas, seja no repouso, na locomoção ou no traba- 
lho, é muito significativa para um observador, porque por ella, pelos 
seus movimentos, pelo seu assento sobre o pescoço se conhece o 
individuo, assim como pelo modo com que move os braços, pelo que 
pende as mãos, e pela maneira e situação dos pés no caminhar : o 
ocioso tem attitudes bem differentes do trabalhador. A forma da 
mão e dos pés é também de muito proveito no estudo das raças, 
e portanto deve-se moldar também em gesso muitos indivíduos, 
para mais placidamente estudar a differença que ha entre as for- 
mas dos dedos primeiro e quinto, do calcanhar, do peito e arcada 
plantar, etc. 

VI 

Particularmente ás mulheres, não se olvidará apanhar a forma 
geral e constante dos músculos externos que revestem o sacro e a 
bacia, porque na forma dos glúteos ha diíferenças notáveis nas raças, 
assim como na dos seios e sua collocação mais ou menos approximada 
ao sterno, e mais ou menos vizinha das claviculas : cumpre estudar 
as mudanças destes órgãos, que tem tão intima relação com todos 
os phenomenos da sua vida physica. 



VII 



Para alcançar os desenhos exactos acima recommendados, ha o 
excellente recurso da heliographia, que á sua presteza e fidelidade 
reúne a vantagem de não ter prevenções favoráveis ou desfavoráveis, 
pois os seus resultados estão livres de toda a influencia de escola 
ou de maneira artistica : o instrumento produz tal e qual, e em seus 
desenhos se pode bem comparar as formas de ambos os sexos, as 
suas modificações nos differentes periodos da vida, nos diversos exer- 
cidos, e no aspecto geral da cabeça e das extremidanes, onde reside 
quasi sempre o typo de uma raça. 

c. s. 6 



XL1I INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SC1ENT1FICA 

VIII 

O estudo da lingua é um complemento necessário ao estudo dos 
caracteres physicos. As grammaticas e diccionarios que possuímos de 
algumas línguas dos indígenas, assim como vários vocabulários, ser- 
viráõ de base nestas investigações de linguistica ; e no caso de se 
encontrar alguma lingua nova ou dialecto extremamente pronunciado, 
se diligenciará esboçar uma grammatica respectiva, tratando primei- 
ramente do verbo nos seus três tempos fundamentaes, presente, 
passado e futuro, com as modificações das pessoas e do numero; de- 
pois do substantivo, com as variações de caso e numero, fazendo 
conhecer a concordância do adjectivo com elle; os pronomes, as 
preposições com um ou mais regimens, e os advérbios com o verbo. 
Passar-se-ha após a indagar a filiação dessa lingua com outras, esta- 
belecendo tabeliãs comparativas quanto aos sons de todas as palavras 
que representão as primeiras necessidades da vida, o nome de todas 
as partes do corpo, o nome dos parentes, os que explicam os mais 
salientes objectos da natureza, e também os nomes dos números e 
a maneira de contar ; convindo exprimir os sons por não haver ortho- 
graphia. Por esta confrontação de vocábulos, que representão idéas 
communs á espécie humana, se chegará a obter alguns resultados. 
Muitas de nossas tribus, como por exemplo a dos Botocudos, tem 
uma lingua muito pobre, .que contrasta com a riqueza da Guarany, 
possuidora de locuções para ambos os sexos 

IX 

Depois dos caracteres physicos e da linguistica se tratará dos cos- 
tumes relativos ao individuo e á familia em geral, estudando-o desde 
o seu nascimento até a sua morte: nas differentes phases da vida 
do homem selvagem se conhece a marcha de sua educação e o que 
elle é. No seu nascimento assistimos ás ceremonias familiares; 
na sua infância aos seus deleites e educação ; na puberdade 
aos seus ensaios e inclinações; na virilidade ao seu consorcio, á 



. INSTRUCÇOES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA XLIII 

sua vida interna e externa ; e na velhice aos seus conselhos, repouso 
e funeral. E' mister apanhal-o em todos os seus passos, vel-o nos 
festins, na caça, na pesca, na guerra, na lavoura, e nos seus traba- 
lhos industriaes; assim como possuir seus cantos, suas nenias e 
epinicios ; a forma de todos os seus artefactos ; a maneira de fer- 
rar-se e pintar-se ; o caracter de seus debuxos ; a forma dos seus 
moveis, dos seus ornatos festivos, e qualidade dos seus arrebiques. 

9 

X 

Não se esquecerá recolher quanto se puder acerca de seus conhe- 
cimentos estratégicos, de fortificação, de medicina, de cirurgia, e 
de meteorologia ; nem os hábitos feminis em toda esta successão 
de cousas : são factos que ainda não forão methodica e satisfato- 
riamente consignados. Procurar-se-ha igualmente o termo médio da 
vida do individuo de ambos os sexos, e se nos seus funeraes e inhu- 
mações ha diíferença entre o homem e a mulher. No estudo do indi- 
viduo está uma parte da vida social, mas esta necessita de um estudo 
mais amplo e desenvolvido : a planta e forma de suas habitações 
particulares e dos seus aldeamentos; o arranjo de suas fortificações, 
o seu systema de segurança mutua, o seu commercio, os meios de 
que se servem para contar o tempo, e os que empregam em suas 
marchas para reconhecerem o caminho na volta, ou para orientar-se 
nas grandes emigrações. Tratar-se-ha de conhecer a extensão de 
sua agricultura, o modo por que a fazem, e as plantas mais usuaes 
de sua nutrição ; as farinhas e bebidas que delias tiram, a qualidade 
destas bebidas, segundo as estações e as festas em que são usadas ; 
os meios que empregão na criação dos quadrúpedes e aves, que os 
seguem por toda a parte: a este respeito ha cousas muito curiosas. 

XI 

Será curiosa a organisação de um codigozinho de todos os actos dos 
indigenas que se assemelhem a uma espécie de direito publico ou 
internacional, para destacal-o do corpo de suas leis de relação domes- 



XL IV INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIE.NTIFICA 

ticaou social: nos povos analphabetos prevalece o direito consuetu- 
dinário. Occupando-se da parte respectiva ao commercio, cumpre 
avaliar pelas suas permutações qual o género que serve de moeda ou 
unidade de um valor: neste ponto muito convirá saber o gráo da sua 
probidade commercial, porque desta se pôde avaliar o seu estado 

moral. 

XII 

Será registrado tudo quanto se;; conhecer a respeito de sua religião, 
crenças e superstições, procurando saber-se por que tramites passa o 
índio que chega a ser Page, e se esta espécie de sacerdócio é adquirida 
por alguma formalidade ou eventos da vida, ou se é transmittida como 
sciencia exotérica ou hereditária. Outrosim interessa muito apanhar 
seus contos, lendas e allocuções diversas: talvez que a archeologia 
por meio das appli cações de Viço e seus meios ordinários possa desco- 
brir alguma cousa a respeito de sua origem, ou pelo menos de sua 
historia particular. 

E' igualmente de grande utilidade indagar qual a opinião em que 
elles nos tem, quaes suas queixas de receios fundamentaes, para 
estudar os meios de remover este obstáculo com o fim de chamar á 
industria tantos braços perdidos, e diminuir o numero de inimigos 
internos. 

XIII 

Além das descripções e desenhos, far-se-ha collecções de todos os 
enfeites, utensílios, instrumentos de musica, armas, de tudo, emfim, 
quanto possa servir de prova da industria, usos e costumes dos indí- 
genas, inclusive suas múmias e sepulturas, reparando-se. entre outras 
circumstancias dignas de nota, na posição que ellas occupavam em 
relação aos pontos cardeaes. 

XIV 

Quanto á parte narrativa da viagem, fará um diário circumstanciado 
e com toda a fidelidade, descrevendo tudo o que vir de curioso e 



INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA XLV 

merecedor de memoria, durante o trajecto da commissão scientifica. 
No mesmo jornal irá também notando diariamente tudo quanto oc- 
correr de notável relativo á expedição em geral, e mesmo a cada 
membro em particular. 

XV 

Em todas as cidades, villas ou povoações onde a commissão esta- 
cionar, diligenciará obter copias authenticas de documentos interes- 
santes á historia e geographia do Brasil, assim como extractos de 
noticias compiladas das secretarias, archivos e cartórios, tanto civis, 
como ecclesiasticos ; e também copias de manuscriptos importantes 
sobre o mesmo objecto pertencentes a particulares, no caso de lhe não 
serem cedidos os próprios originaes. 

XVI 

A tudo acima recommendado ajuntará, finalmente, o conhecimento 
do commercio interno e externo da província, de todos os dados 
estatisticos que puder, da fundação, prosperidade ou decadência das 
povoações, procurando avaliar a superfície dos terrenos cultivados e 
incultos, e o valor das áreas occupadas ainda por florestas virgens, 
por capoeiras, pântanos, etc. ; assim como chegar a uma probabilidade 
do numero de selvagens que habitam essas florestas. 

Palácio do Rio de Janeiro, em 8 de Abril de 1857. 



Luiz Pedreira do Couto Ferraz. 



XLVI INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA 

A estas instrucções para direcção de cada uma das secções juntou 
o governo imperial as seguintes, que servissem de regimento á corn- 
missão durante sua excursão. 



Instrucções geraes para a commissão «cientifica encarre- 
gada de explorar o interior de algumas províncias do 
Império menos conhecidas. 

I 

A commissão scientiíica seguirá desta corte no vapor Tocantins, 
fretado pelo governo imperial para a conduzir até a provincia do Ceará, 
onde começaráõ regularmente os seus trabalhos; e como a demora nos 
portos intermédios traz augmento de despeza, é muito recommendada 
a sua abreviação. 

11 

Na capital do Geará serão, segundo as ordens dadas ao presidente 
da provincia, facilitados á commissão os meios indispensáveis para 
ella preparar-se a seguir nas suas explorações pelo interior da provin- 
cia. No mesmo sentido serão dadas pelo presidente da provincia 
ordens ás principaes autoridades dos lugares por onde tiver de passar 
a mesma commissão. 

III 

O presidente da commissão requisitará do da provincia as sommas 
necessárias : 

I o . Para acquisição das cavalgaduras e animaes de carga indis- 
pensáveis ao transporte dos membros da commissão, das pessoas que 
os acompanham, e das caixas de instrumentos e bagagens, que deve 
comsigo levar: 

2 o . Para os alimentos e comedorias de todo o pessoal, comprehen- 
dendo não só as provisões que fôr indispensável levar comsigo, mas a 
que tiver de despender nos lugares por onde passar ou estacionar. 



INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIEiNTlFIGA XLVI1 

IV 

A conta das despezas realmente feitas com essas sommas será dada 
directamente ao thesouro nacional, acompanhada de todos os docu- 
mentos e dados que a justifiquem. 

V 

Aos chefes das secções compete escolher, por maioria de votos, não 
só os lugares que de preferencia a commissão deverá visitar, mas 
aquelles a que se deve dirigir junta, ou separadas as secções, segundo 
o género de explorações a fazer nelles. 

VI 

E' muito recommendada na provincia do Ceará a exploração mi- 
nuciosa de suas principaes serras, e sobretudo das extensas serranias 
da Hybiapaba e do Araripe, onde a tradição colloca ricas minas de 
metaes, e são fecundissimas nos reinos vegetal e animal. 

VII 

Da provincia do Ceará a commissão poderá atravessar, segundo for 
concordado, para quaesquer outras províncias limitrophes, cuja 
exploração lhe pareça mais conveniente, e para isso se expedirão as 
precisas ordens aos presidentes das provincias do Piauhy, de Pernam- 
buco, do Maranhão, da Parahyba, do Rio-Grande do Norte, de Goyaz, 
do Pará e do Amazonas, prevenindo-se deste modo o caso de a com- 
missão se dirigir a algumas delias. 

VIII 

Na occurrencia de circumstancias extraordinárias, não especifica- 
das nestas instrueções geraes, o presidente da commissão reunirá em 
conselho, ou ouvirá por escripto, se estiverem dispersos e isso parecer 
sufficiente, os chefes das secções para emittirem a sua opinião, 
podendo todavia, depois de ouvil-os, resolver como melhor lhe aprou- 
ver, sob sua responsabilidade. 



XLV1II 1NSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SC1ENT1FICA 

IX 

As differentes secções, podendo trabalhar independentes umas das 
outras, ficaráõ comtudo sempre subordinados, quanto for possível. 
os seus trabalhos á marcha geral da commissão pelo interior, e 
seguirão as inslrucções do presidente da commissão, tanto nos tra- 
balhos a executar, como na direcção que devem tomar nas explorações 
e pontos em que se devem reunir, datas dessas reuniões, e quanto 
seja possível, o tempo a empregar em cada género de exploração. 

X 

O presidente da commissão officiará mensalmente ao governo 
imperial, em dia certo do mez, marcado de combinação com a sahida 
do paquete, dando conta do que occorrer de interesse. 

Nenhum dos chefes das secções poderá officiar ao governo, nem 
fazer qualquer reclamação sobre objectos relativos á commissão, sem 
ser por intermédio do respectivo presidente, salvo caso extrordinario. 

XI 

No caso de impedimento por qualquer motivo ou retirada do 
presidente da commissão, passará a fazer as suas vezes o chefe de 
secção mais idoso, quando ella estiver reunida, podendo este, no 
caso de se afastar do ponto marcado de reunião geral, delegar os seus 
poderes durante a ausência ao chefe que estiver mais perto do 
sobredito ponto. 

XII 

Quando algum dos chefes se veja na necessidade de retirar-se 
provisoriamente, delegará os seus poderes a outro chefe para conti- 
nuar os trabalhos da secção ; e no caso de retirada definitiva, a 
commissão proporá ao governo o que julgar mais acertado a bem do 
serviço. 



IBfSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÂO SCIENTIFIGA XLIX 

XIII 

Nenhum membro da commissão poderá ausentar-se sem licença 
do presidente da mesma, o qual só a concederá no caso de moléstia 
grave; ese de seu livre arbitrio o fizer, incorrerá nas penas de de- 
sobediência á autoridade. O presidente da commissão necessita tam- 
bém da permissão do governo imperial para retirar-se. 

XIV 

Com quanto a commissão scientifica se ache dividida em cinco 
secções, cada uma incumbida de trabalhos especiaes, fica porém enten- 
dido que todos os membros se deveráõ coadjuvar mutuamente naquillo 
que estiver ao seu alcance, e circumstancias particulares o requi- 
sitarem . 

XV 

Os adjuntos ás secções tem a restricta obrigação de se emprega- 
rem exclusivamente nos trabalhos que lhes forem designados pelos 
seus respectivos chefes, que são os responsáveis pelos bons resultados 
da secção. 

XVI 

Se nos pontos por onde passar a commissão apparecerem algu- 
mas pessoas estudiosas, que queirão acompanhal-a, poderá ella an- 
nuir a esse desejo, quando entender poder fazer sem prejuizo dos 
trabalhos, e uma vez que com taes companheiros nada tenha a des- 
pender o thesouro nacional. 

XVII 

A commissão poderá conservar em seu poder, até que regresse, 
osproductos colligidos durante a viagem, ou remettel-os immedia- 
tamentepara esta corte, se o julgar mais acertado. Isto se entende 



c. s. 



L LNSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA 

porém somente a respeito daquelles objectos, cujo conhecimento não 
interesse ser logo conhecido do governo ou do publico. 

XVIII 

Sendo um dos principaes fins da commissão scientifica examinar 
todos os recursos naturaes dos lugares por onde atravessar, quer per- 
tenção ao estado, quer a particulares, a commissão se esforçará por 
conseguir que os particulares lhe não ponhão estorvos, antes con- 
sinlão nos exames necessários em suas propriedades. Sendo porém 
estes do governo ou terrenos devolutos, nenhuma autoridade ou 
empregado do mesmo governo porá estorvos ás suas investigações, 
como se ordena na portaria annexa a estas instrucções. 

XIX 

Poderá a commissão obsequiar aos proprietários de qualquer terreno 
explorado, fornecendo-lhes o resultado de seus exames respectivos, 
quando não haja algum inconveniente que aconselhe o contrario, do 
que dará parte ao governo imperial. 

XX 

Se por ventura a commissão descobrir alguma mina, cuja explo- 
ração seja vantajosa ao estado, com o maior segredo, sendo possível, 
expedirá logo para esta corte um portador seguro, dando conta da 
descoberta, acompanhada de todas as informações que julgar ne- 
cessárias, e fará também ao presidente da província as participações 
convenientes a tal respeito. 

XXI 

Na triste hypothese de apparecer com intensidade o cholera, a 
febre amarella ou outra qualquer epidemia, em algum lugar onde esti- 
ver a commissão, ou mesmo em outro ponto da província em que haja 
falta de soccorros, cumpre que os médicos empregados na commis- 
são prestem todo o auxilio, não só com os seus conselhos, mas até 



INSTRUCÇÕES PARA A COMMISSÃO SCIENTIFICA LI 

fornecendo gratuitamente aos indigentes os necessários medicamentos 
que possão ter á sua disposição, e deveráõ occupar-se dos enfermos, 
suspendendo todas as suas outras obrigações, se for preciso. 

XXII 

O presidente da commissão dará por findos os trabalhos da mesma 
quando consultando os chefes de secção, por maioria de votos elles 
concordarem. 

O prazo porém de dous annos, que o governo imperial marca, 
poderá ser prorogado se a commissão, por intermédio do seu presi- 
dente, representar a necessidade dessa prorogação. 

XX11I 

O presidente da commissão avisará com a precisa antecedência ao 
presidente da provincia, donde tencione regressar á esta corte, assim 
como ao governo imperial, afim de que se possa providenciar para a 
sua conducção por mar, bem como das cargas que a acompanharem. 

XXIV 

No regresso da commissão, o chefe da secção astronómica poderá 
separar-se delia, e vir tocando em diversos pontos, afim de cumprir 
o determinado nas suas instrucções especiaes ; e qualquer dos chefes 
das outras secções poderá também tomar igual arbítrio para fazer 
algumas averiguações e colheitas relativas a seus estudos. 

XXV 

Não aconselhando as circumstancias a medida do artigo antece- 
dente, o vapor que trouxer a commissão poderá demorar-se nos portos 
intermédios os dias indispensáveis á secção astronómica para con- 
cluir as suas observações ; e seguirá viagem logo que o presidente 
da commissão se entender com o commandante, e neste sentido 
serão dadas as competentes ordens. 



m PARTE HISTÓRICA 

XXVI 

E' finalmente desnecessário recommendar aos membros da com- 
missão scientifica que empreguem quanto estiver ao seu alcance para 
manter a disciplina entre as pessoas, que como artífices, trabalha- 
dores, arrieiros, tropeiros ou camaradas, levão em sua companhia, e 
assim evitar qualquer motivo de desgosto, por mais leve que seja, dos 
habitantes dos lugares por onde transitarem. 

Palácio do Rio de Janeiro, em 25 de Janeiro de 1859. 

Sérgio Teixeira de Macedo. 



Não bastava haver-se creado a commissão . 

Os seus preparativos, com que desde o principio se occupavão as 
pessoas que delia já fazião parte, era assumpto de séria consideração, 
tanto porque o excesso seria um embaraço de mais em uma viagem 
por terra, como porque a falta poderia ser daquellas que não terião re- 
médio nos sertões do Brasil. O Sr. Lagos na corte se encarregara de 
comprar o que fosse de necessidade para o transporte da commissão, 
ficando o capitão-tenente Gabaglia e Gonçalves Dias incumbidos do 
mais que devesse ser preparado na Europa, onde ambos por então 
se achavão. 

Cabe aqui mencionar não só actividade desenvolvida pelo Sr. Lagos 
com aacquisicãoe acondicionamento dos objectos de seu encargo, mas 
principalmente o zelo, a intelligencia e o cuidado minucioso e previ- 
dente do capitão-tenente Gabaglia com a compra e verificação dos 
delicados instrumentos geodésicos e astronómicos, que já hoje estão 
servindo em outras commissões, ou vão ser depositados nos estabeleci- 
mentos nacionaes, a que se podia confiar a sua guarda e conservação. 



PARTE HISTÓRICA L11I 

O capitão-tenente Gabaglia, já conhecido e apreciado por algumas 
pessoas da Europa, dessas que fazem vulto na sciencia, obteve por essa 
occasião louvores, que lhe serão sobremodo lisongeiros pela compe- 
tência das pessoas que lh'os dirigirão ; louvores que não forão inú- 
teis na Europa para ò credito da commissão brasileira, porque assim 
deu ellauma idéa vantajosa do bern que comprehendia o desempenho 
de suas obrigações. * 

Isto foi negocio de tempo, e não era possivel abrevial-o sem incon- 
veniente. 

Preparado emfim tudo para o embarque, houve a idéa de que uma 
das canhoneiras da nossa marinha fosse posta á disposição da com- 
missão scientifica para o seu transporte ; porém surgirão difliculdades, 
ante as quaes foi preciso dar-se de mão a esse projecto, e adoptar novo 
conselho. 

O vapor Tocantins, da Companhia brasileira de navegação, expres- 
samente fretado para conducção do pessoal e transporte da bagagem 
da commissão scientifica, largou desta corte no dia 26 de Janeiro de 
1859, e com prospera e rápida viagem, demorando-se apenas nos 
portos intermédios da Bahia e Pernambuco o tempo necessário para 
o embarque do carvão, fundeou em frente da cidade da Fortaleza a 4 
do mez seguinte. 

Todo o pessoal da commissão se mostrava cheio de enthusiasmo 
com a idéa de que ião prestar um serviço relevante ao seu paiz, al- 



* Para não citarmos muitos exemplos : Baeyer, o distincto companheiro de Bessel em trabalhos 
importantes de geodesia e astronomia, e que naquella primeira sciencia pousão justamente, se não 
como creadores delia, ao menos como autoridades de muito peso ; Baeyer, dizemos, dirigindo-se ao 
capitão-tenente Gabaglia a 28 de Junho de 1858, rematava a sua carta : 

« Le zele louable que vous éprouvez, Monsieur, pour les sciences, notamment pour la géodesie, 
et les études profondes dont vous m'avez donné des preuves dans nos conversations, m'ont fait 
si grand plaisir, que je suis bien faché de n'avoir pas eu 1'honneur de faire votre connaissance 
plustôt ; voila pourquoi je me sens obligé de vous exprimer mon gi and désir de rester avec vous en 
communication scientifique. Si vous vouliez de temps en temps me donner des nouvelles sur les 
opérations géodesiques de votre pays, vous me feriez grand plaisir, et si je pourrai à présent ou à 
1'avenir vous être utile dans vos travaux, vous me trouverez toujours prêt à vous servir de grand 
cceur et avec infiniment de plaisir. 

« J'ai 1'honneur etc. — Baeyer. — Berlin, ce 28 Juin 1858. » 



LIV PARTE HISTÓRICA 

mejavão com veras o momento de entrar em exercício, e confiavão 
não tanto em um possível lance da fortuna que os illustrasse, como 
no zelo, na boa vontade, no amor pátrio de queseachavão animados. 

Todavia essas esperanças e projectos se anuviavão com as noticias 
que grassavão no Rio, á partida da commissão, de que a província do 
Ceará eslava nesse anno ameaçada da sêcca — noticias que se corro- 
borarão em Pernambuco. 

Fallava-se alli da intractabilidade dos caminhos por falta de aguas 
e de pastos, da carestia dos géneros de primeira necessidade, e 
de animaes de carga, pela magreza e peste do gado, e outras desagra- 
dáveis circumstancias, que- a se realizarem, porião a commissão em 
sérias difficuldades para dar começo e proseguir na sua espinhosa 
tarefa. Por fortuna se forão desvanecendo aquelles receios : a chuva, 
que é o principal elemento da prosperidade da provincia do Ceará, 
começou a cahir apenas o vapor Tocantins chegava á altura do Assú, 
e continuou dahi por diante, regular e abundante, como nos melhores 
invernos. 

Com mais felizes auspicios não podia a commissão entrar na pro- 
vincia. EraDeos e o governo de Sua Magestade que se amerceiavão 
daquelle abençoado torrão ! 

Não convinha de nenhum modo demorar o vapor para não sobre- 
carregar os cofres públicos com mais essa despeza, quando por amor 
da economia não tinhão a secção astronómica e outras podido levar 
a execução á parte das suas instrucções relativa aos portos a que tocas- 
sem por escala. Apezardo máo tempo, nesse mesmo dia e nos dous 
seguintes se effectuou o desembarque do trem e bagagem transpor- 
tada pelo vapor, a qual se depositou em um dos armazéns da praia, 
em quanto não era possível transferil-a para a parte devoluta do edi- 
fício do « Lycêo Cearense » onde havia local conveniente, espaço e 
commodos bastantes para os trabalhos das differentes secções. 

Activou-se a descarga dia e noite, e tudo se achava concluído em 

três dias. 

Esse desembarque, que em quaesquer outras circumstancias não 
deixaria de infundir receios ás pessoas conhecedoras e praticas do porto 



PARTE HISTÓRICA LV 

da Fortaleza, tornava-se agora muito mais perigoso com a continuação 
das chuvas e ventanias, principalmente no dia 5, em que veio para 
terra a parte da carga mais melindrosa e de mais preço, que erão 
os instrumentos da secção astronómica. O próprio administrador da 
província tomou espontaneamente parte nesse afan, acudindo com 
a sua pessoa ao lugar do desembarque, dando as mais enérgicas pro- 
videncias, quaes cabião nos acanhados recursos da terra, e desvelan- 
do-se para que este tentamen, começado com tão felizes auspicios, não 
viesse a naufragar sem resultados, de modo tão deplorável. Decerto que 
a commissão se dissolveria com o aniquilamento da sua bagagem, 
por não ser de presumir que o governo imperial se animasse a ordenar 
de novo tantos dispêndios. 

Era então presidente do Ceará o Sr.Dr. João Silveira de Souza, cujo 
nome, por muitos titulos distincto, folgamos de mencionar nesta abre- 
viada relação. Homem de uma bella intelligencia, de estudos varia- 
dos, e, em objectos que próxima ou remotamente tocão á prosperidade 
do seu paiz, de uma boa vontade que não carece de ser esporeada, 
o Sr. Silveira de Souza despiu-se do seu caracter official, como quem 
não precisava delle para as attenções que lhe erão devidas, e recebeu 
a commissão scientifica como bom amigo e companheiro — de braços 
abertos, offerecendo a sua mesa a todos por alguns dias, e franca hos- 
pitalidade ao infeliz Gayoso, que tendo-se embarcado doente no Rio, 
chegara ao Ceará ainda mal convalescente. 

Effectuado o transporte do trem da commissão — do armazém da 
praia, onde havia sido depositado, para a ala direita, então devoluta, 
do Lycêo Cearense, restava verificar se apezar das muitas cautelas 
tomadas na Europa e no Rio de Janeiro para o bom acondicionamento 
desses objectos, muitos delles frágeis e delicados, não haveria uma 
ou muitas perdas irreparáveis a lamentar. Procedeu-se logo no Lycêo 
á abertura dos fardos e desencaixotamento dos eífeitos que continhão, 
os quaes forão sendo distribuídos e inventariados nas secções a que 
pertencião. D'ahi resultou a certeza de se não haverem inutilisado 
senão vidros de pouco valor e alguns instrumentos meteorológicos. 

Este mesmo transtorno, porém, era pouco sensível á secção astro- 



LVI PARTE HISTÓRICA 

nomica, incumbida de taes observações: porque o seu chefe trou- 
xera de prevenção sobresalentes em numero suficiente para ir sup- 
prindo as perdas que se darião de necessidade em longas viagens por 

terra. 

O pessoal da comrnissão scientifica, que desembarcou no Ceará a 
4 de Fevereiro de 1859, se achava assim distribuído : 

Secção botânica, dirigida pelo presidente de toda a comrnissão, o 
Sr. conselheiro Francisco Freire Allemão, tendo por adjunto o Dr. 
Manoel Freire Allemão. 

Secção zoológica, a cargo do Sr. commendador Manoel Ferreira La- 
gos, tendo por ajudantes os naturalistas preparadores João Pedro 
Villa-Real e Lucas António Villa-Real, além de poucos outros em : 
pregados de categoria inferior, como fossem caçadores, etc. 

Secção geológica, a cargo do Dr. Guilherme Schúch de Capanema, 
sendo seu adjunto o capitão João Martins da Silva Coutinho. 

Secção astronómica e geographica, tendo por chefe o capitão-tenente 
Giacomo Raja Gabaglia, e por adjuntos os primeiros tenentes darmada 
João Soares Pinto, Rasilio de Siqueira Rarbedo, e de engenheiros Cae- 
tano de Rrito de Souza Gayoso e Dr. Agostinho Victor de Rorja 

Cíistro 
" Secção ethnographica e narrativa da viagem confiada a António 

Gonçalves Dias. 

E além desses, o professor de desenho na escola de marinha, o 
tenente José dos Reis Carvalho, que acompanhou as secções zoológica 

e botânica nas suas excursões. 

Um artifice trabalhador de metaes, em vez do concertador de ins- 
trumentos que o chefe da secção astronómica e geographica requisi- 

E por fim, seis praças do corpo de artífices, exercendo diversas 

profissões mecânicas. 

O pessoal da comrnissão scientifica se completou posteriormente 
com a vinda de mais dous adjuntos para a secção astronómica, os 
Srs capitão António Alvares dos Santos Souza e I o tenente ^enge- 
nheiros Francisco Carlos Lassance Cunha, com a do Sr. Dr. Francisco 



PARTE HISTÓRICA LVÍI 

de Assis Azevedo Guimarães, encarregado de trabalhos especiaes e 
adjunto á secção ethnographica, e por fim com a chegada do chefe da 
secção geológica Dr Guilherme Schúch de Capanema, a 3 de Junho 
de 1859, nas proximidades da partida dacommissão para o interior 
da provincia. t 

Quanto a estes dous adjuntos que accrescerão á secção astronómica, 
cabe ponderar que o Sr. capitão-tenente Gabaglia, ao receber a sua 
nomeação para dirigir aquella secção, e sendo-lhe perguntado na 
mesma occasião o de que carecia para a cabal execução de suas instruc- 
cões, pediu terminantementeoitoadjuntoseuma canhoneira. Chegando 
ao Rio, foi-lhe ponderada a necessidade de resumir o pessoal de 
sua secção, e elle mesmo se convenceu da difficuldade de os obter no 
numero e nas condições em que os desejava. Contentou-se pois com 
os quatro, que embarcarão no Tocantins, pedindo mais dous somente, 
e insistindo pela remessa da canhoneira, como por vezes lhe aconte- 
ceu, depois disso, e ainda do Geará em data de 12 de Março de 1859. 

Copiamos o trecho do officio do chefe da secção astronómica, acer- 
ca de tal assumpto. « Cabendo-me o dever de salvar no futuro minha 
responsabilidade perante o sábio e elevado conceito do governo impe- 
rial, venho reiterar as requisições supra designadas (dos adjuntos e 
canhoneira), cumprindo-me ponderar que quanto maior fora dilação 
na remessa delias, não só mais demorados e dispendiosos serão os re- 
sultados colhidos pela secção astronómica e geographica, como também 
provavelmente elles terão de passar por modificações prejudiciaes. 

« Solicito como é o illustrado governo de Sua Magestade em favo- 
recer o desenvolvimento de toda a idéa útil ao paiz , ouso esperar que 
se darão promptas ordens para fazer effectivas as concessões feitas , 
as quaes tenderão principalmente a tornar exequível a obtenção dos 
dados indispensáveis ao estudo da hydrographia destas províncias, 
assumpto que envolve a discussão de questões essenciaes para sua de- 
vida prosperidade commercial, e para seu progresso industrial. » 

O que neste officio respeitosamente allegava o chefe da secção 
astronómica era de toda a exactidão : as reclamações que nelle se 
mencionavão, erão concessões já feitas ; mas, se nunca se realizou a 
c. s. 8. 



LVIU PARTE HISTÓRICA 

remessa da canhoneira. * ao menos aquelles dous adjuntos já havião 
sido nomeados por decreto de 13 de Janeiro de 1859. O capitão 
Santos Souza, demorado na Bahia por motivos de moléstia, só pôde 
seguir para o seu destino no ultimo paquete de Abril, e pouco mais 
tarde o 1° tenente Lassance. 

O íallecido Dr. Francisco de Assis Azevedo Guimarães aportou ao 
Ceará em Junho requisitado pelo Sr. Gonçalves Dias). Este senhor. 
incumbido de urna das secções dacommissão scientifica. teve como os 
outros seus collegas insinuação do governo imperial para indicar o 
de que precisasse, pessoal ou material, em ordem ao bom desempenho 
da sua tarefa. Na sua volta da Europa, e já de partida para o Ceará, 
levou elle ao conhecimento do governo que. não desejando de modo 
al°Tim o auarniento do pessoal da commissão. sem ser a isso levado 
pelos mais justos motivos, se abstinha por emtanto de fazer o pe- 
dido de um adjunto. Accrescentava porém que . se no começo de 
seus trabalhos se visse embaraçado por semelhante falta : se a experiên- 
cia lhe demonstrasse a indeclinável necessidade de um adjunto, pedia 



* As duas instrueções, remettidas da Secretaria do Império a 10 de Maio mediante pedido dos 
membros da commissão, dizião assim: 

« 4* secção.— Rio de Janeiro.— Ministério dos negoeios do Império, em 11 de Maio de 1859.— Em 
additamento ao meu Aviso de 2 de Abril próximo passado, communico a V. S. que se está apromp- 
tando a canhoneira Iiahy destinada ao serviço dos trabalhos hydrographicos da commissão 
scientifica de exploração, e que logo que estiver prompta seguirá para essa província. 

« Deos ffuarde a V. S. — Sérgio Teixeira de Macedo. — Sr. presidente da commissão scientifica de 
exploração. » 

« 4* Secção. — Rio de Janeiro. Ministério dos negócios do Império. — Communieando a 
Vm. que Sua Magestade o Imperador foi servido nomeal-o adjunto á secção ethnographica 
e narrativa da viagem da commissão scientifica de exploração, tenho de declarar-lhe, para 
sua intelligencia e execução, que o masmo Augusto Senhor ha por bem que nas occasiões. 
em que não estiver occupado de trabalhos de sua secção, que lhe forem incumbidos por 
seu chefe, e sempre que lh*o for possivel, Vm. sob a immediata direcção do presidente da dita com- 
missão, se empregue em fazer preparações de anatomia comparada e em estudar as epizootias 
dos animaes domésticos, que durante sua excursão tiver occasião de observar, das quaes apre- 
sentará ao governo imperial, por intermédio do referido presidente, um relatório minucioso 
sobre as circumstancias geraes e especiaes em que ellas se tiverem desenvolvido, sobre os 
symptomas mais característicos das enfermidades, sobre os meios therapeutieos mais geral- 
mente usados e que a experiência houver sanccionado, descrevendo com a maior exactidão as 
plantas indígenas não conhecidas na matéria medica da veterinária, que forem empregadas com 
mais vantagem para debellal-as. Deos guarde a Vm. — Sérgio Teixeira de Macedo. — Sr. Dr. Fran- 
cisco de Assis Azevedo Guimarães. (Copia conferida a 10 de Maio de 1859). • 



PARTE HISTÓRICA LIX 

a permissão de apresentar então esse pedido a' consideração do gover- 
no imperial. 

Realizada a hypothese apenas instaurados os trabalhos da commissão 
scientifica, porque nesses primeiros tempos todo o seu expediente 
recahiu sobre o chefe da secção ethnographica, requisitou elle um 
adjunto , em officio de 23 de Fevereiro dirigido ao presidente da 
commissão, lembrando para esse lugar o nome do Dr. Assis. 

Foi transmittida essa requisição ao Sr. ministro do Império, e S. Ex. 
acquiesceu ao pedido ; mas lembrando que o adjunto nomeado, aliás 
pedido por indeclinável necessidade do serviço, teria muitos momen- 
tos de folga, encarregou-o conjunctamente de trabalhos especiaes, sob 
a inspecção im mediata do presidente da commissão. 

Deste modo se ampliou a idéa do Instituto com a creação de mais 
uma quasi secção, incumbida de trabalhos que naturalmente pertence- 
rião ás outras já creadas. A pessoa encarregada deste serviço se achava 
também em uma posição , que se não era falsa, não tinha sido bem 
definida. Sujeito á direcção do presidente da commissão para o seu 
encargo especial, adjunto á secção ethnographica, e tendo posterior- 
mente de acompanhar a pedido do respectivo chefe em suas excursões 
a secção astronómica, á qual faltava um medico , o Dr. Assis , apezar 
do seu grande zelo e actividade, de que deu boas provas nos poucos 
mezes que lhe sobrarão de vida, ou faria muito pouco para o que 
tinha a fazer, ou havia de fazer tudo muito mal. 

Posto que o pessoal da commissão scientifica se completasse com a 
chegada do chefe da secção geológica e dos três adjuntos, de que acima 
falíamos, teve comtudo de soffrer tal qual corte em empregados de 
categoria inferior, que com ella se tinhão embarcado no Rio. 

A' sua partida, requisitara a commissão alguns artífices do arsenal 
de guerra, attenta a necessidade que haveria de seus serviços em uma 
viagem pelo sertão, e contando ao mesmo tempo com o respeito que 
a farda imporia nesses centros, onde, considerados como estrangei- 
ros, seriamos, como fomos, encarados com olhos desconfiados e sus- 
peitosos. O Ex m0 Sr. ministro da guerra cedera á commissão seis artí- 
fices mecânicos, dos officios de que mais utilidade se poderia espe- 



LX PARTE HISTÓRICA 

rar; e estes homens embarcarão a bordo do Tocantins, seguindo a 
commissão para o Ceará. Apenas chegados, porém, um delles com- 
metteu um furto, e verificou- se por essa occasião que elle era usei- 
ro de taes manhas. Foi pois recambiado , e pouco tempo depois , por 
descomedimento, os cinco restantes, de modo que se ficou na privação 
destes auxiliares , que ao principio se nos antolhara como utilíssi- 
mos, se não indispensáveis. 

Ha uma apparente contradicção entre a requisição e renuncia feitas 
pela commissão : mas este ultimo passo foi motivado , com o recambio 
do primeiro , pela necessidade de evitar extravios , que provavelmente 
terião lugar á sombra de um que ficasse sendo considerado o autor 
de todos os que se dessem ; e no dos outros, pelos desgostos que o seu 
comportamento menos regular nos poderia suscitar para com os ha- 
bitantes dos lugares por onde transitássemos ou pessoas que nos aco- 
lhessem. 

Livres destes empecilhos, que menos nos servirião de auxilio , do 
que serião occasiões de mortificações e vexames, não tratou a commis- 
são de se pôr logo em marcha para o interior , nem isso seria por 
então realizável. As pessoas praticas do sertão , os vaqueanos como 
se diz na provincia, aconselhavão que se deferisse a jornada para mais 
tarde. Não era possivel também haver de prompto todas as cavalga- 
duras de que se necessitavão , motivo pelo qual o Ex m0 presidente da 
provincia, contratando com os Srs. tenente-coronel Roberto Corrêa 
de Almeida e Silva e Manoel Joaquim Cavalcanti a compra de cem 
quartões de carga , marcou , de accordo com os fornecedores , todo 
o mez de Junho desse anno como prazo improrogavel para a sua 

entrega. 

Este prazo foi estabelecido, não pela conveniência de sahir a com- 
missão da capital do Ceará depois do mez de Julho, o que ia acontecer ; 
mas porque os fornecedores declararão, com alguma razão, ser-lhes 
de toda a impossibilidade apresentar animaes em termos de seguir via- 
gem antes do tempo que pedião. Para a commissão pelo contrario, 
para o bom desempenho de seus encargos, conviria partir antes, se hou- 
vesse meio de transportar-se sem arriscar demasiado , porque de Maio 



PARTE HISTÓRICA LXI 

em diante nos annos regulares é o tempo mais próprio de alli se em- 
prehenderem viagens demoradas pelo sertão. 

Era preciso não só comprar a cavalhada, mas dar tempo a que el- 
la se pudesse refazer. Uma sêcca de mais de cinco mezes trazia em 
sustos os habitantes da província, pois que o inverno do anno ante- 
rior tinha sido escasso , e as fracas chuvas do mez de Agosto havião 
sido insuficientes para a criação de forragens. Em Janeiro, também 
costumão a dar alli chuvas, que os homens do campo chamão de rama,, 
ás quaes succede um pequeno intervallo de suspensão de aguas, mas 
que todavia bastão para fazer reverdecer os prados e cobril-os de rama 
para pascigo do gado, até que entrem as verdadeiras chuvas do in- 
verno , que são de Fevereiro e Março em diante. Estas então formão 
pastos de immensa extensão e hervaçaes, que constituem e segurãopo r 
todo o resto do anno o sustento do gado Ora, se naquelle anno de 1 858 
as chuvas de Agosto tinhão sido raras, as de Janeiro seguinte forão 
nullas : os pastos estavão em misero estado , ou autes não os havia 
senão em algum recanto privilegiado da provincia, onde mal se sentem 
os effeitos da sêcca. , 

Comtudo a demora forçada que tiverão os membros da commissão 
scientifica na capital do Ceará não foi infructifera. Deu-se logo prin- 
cipio aos trabalhos, se não com toda a amplitude e desenvolvimento de 
que erão susceptíveis, ao menos de modo incessante, apezar das pri- 
meiras e enfadonhas dificuldades de installação e organisação do 
trabalho e aprestos de viagem, para a qual as secções se começarão 
desde então a preparar com excursões ás localidades mais próximas 
da capital, e que promettião estudos mais interessantes. 

A secção botânica entrara em exercício logo nos primeiros dias 
da chegada da commissão ao Ceará : a quadra era favorável aos seus 
estudos, porque assim pôde assistir ao magnifico espectáculo da trans. 
formação dos campos e do aspecto da natureza na provincia, quando 
depois de aturada sècca sobrevêm as primeiras aguas. Ao terreno 
solto, desolado e no parecer infructifero, dos arredores da Fortaleza, 
succedeu em poucos dias, e como por encanto , uma vegetação vi- 
rente e luxuriante. Os arbustos , queimados pela estação calmosa , 



LXI1 PARTE HISTÓRICA 

garranchosos, tristes, quasi mortos, rebentão em viço e vigor de modo 
admirável, e se cobrem de abundantes e variadas flores. A colheita 
botânica foi considerável ; porque em menos de oito dias , em her- 
borisações que não passarão de um quarto de légua em differentes 
raios da cidade, e apezar de ainda então não serem bem apreciá- 
veis os effeitos da chuva do principio daquelle mez, colligirão-se 
as amostras de cento e dez espécies — herbáceas, sub-arbustivas e 
arbustivas, porém arbóreas só duas. 

Mencionamos o facto para dar uma idéa do rápido desenvolvimento 
da vegetação no Ceará : a sua distribuição não deixa de ser curiosa. 

A vegetação que cobre as arêas da Fortaleza é toda arbustiva, e o 
matagal , cerrado em alguns pontos , noutros se abre em rateiros. 
Encontra-se em certa extensão de terreno grande numero de indi- 
viduos de uma só espécie , logo adiante substituidos por outros de 
espécie diversa. Esses arbustos , chamados de mato carrasquenho. 
e cuja elevação ordinária é apenas de dous metros . são aparrados 
e de forma garranchosa, e ou se enterrão, deitão-se e alastrão pela 
arêa, ou se erguem frondosos e se subdividem em muitos ramos consti- 
tuindo cada arbusto uma semelhança de touceira, forma que toma- 
rão talvez pelos cortes successivos, mas que em muitos delles é na- 
tural. 

A' medida porém que o inverno se foi adiantando pullulárão as pro- 
ducções, que ao principio parecerão representadas por poucos indivi- 
duos, taes como os da familia immensa das gramineas, ou apparecerão 
novas, quando a secção foi dilatando o circulo de suas excursões para o 
sul até Mucuripe, onde está assentado o único pharol desta costa . para 
o norte até Villa Velha, na foz do rio Cearei, hoje quasi obstruida . e 
para o centro até Pacatuba, nas faldas da serra da Aratanha. cinco 
legoas distante da capital. 

A vegetação dessa faxa ou zona de arêa, que cobre o litoral da 
provincia, perdura quando se caminha para o interior, até que a consti- 
tuição do terreno, modificando-se gradualmente, passa de arenosa 
a argilacea. Aqui mostrão-se já em maior abundância as espécies ar- 
bóreas, os cajueiros, genipapeiros, oitiseiros, as perobas, que á seme- 



PARTE HISTÓRICA LXI1I 

lhança dos ipés desfolhão pela sêcca para depois se cobrirem de 
flores, emfim, as mimosas, acácias e arvores de capoeira, que parecem 
substituir a mata virgem primitiva. 

Ao chegar ao alto da serra da Aratanha a vegetação muda com- 
pletamente de aspecto com o apparecimento das piperaceas, rae- 
lastomaceas, laurineas, fetos, heliconeas, bromeliaceas e outras. 

O chefe da secção astronómica, além do encargo da sua secção, 
tomou sobre si a penosa e enfadonha tarefa da promptificação do ma- 
terial preciso para o transporte da commissão. Teve com isso não pou- 
cas importunações, lutando com a falta dos mais simples recursos, 
como em terras pequenas acontece, e com a novidade do trabalho, 
que por desusado perturbava os operários, rotineiros, como todos os 
nossos, e de um vagar e lentidão desesperadoras. 

Occupava-se com afan destas cousas, emquanto aguardava a che- 
gada dos dous adjuntos, que ainda lhe faltavão, e da canhoneira que 
lhe havia sido promettida, e pela qual insistia cada vez com mais ins- 
tancia ao passo que via decorrer o tempo se não inutilmente, ao me- 
nos não tão bem aproveitado, como desejava. Com tudo os afazeres 
da sua importante secção estavão longe de serem olvidados ou prete- 
ridos. Os seus adjuntos andavão destacados por differentes pontos 
occupados com trabalhos topographicos, os quaes, sem o brilho das 
altas operações geodésicas, offerecerião no seu complexo, e quando 
terminados, mais utilidade pratica. 

Quanto porém ás observações astronómicas e meteorológicas, o 
capitão-tenente Gabaglia considerou que essas para serem regulares 
e exactas, e poderem servir de base segura a estudos ulteriores, re- 
clamavão que se preparasse em local conveniente uma construcção 
especial, bem que ligeira, transportável e pouco dispendiosa. 

Resolveu pois a construcção de uma barraca de madeira, que ser- 
visse de observatório, e depois de ter examinado os lugares mais ade- 
quados para uma primeira estação astronómica, fixou a sua escolha 
no morro denominado « Garauatá. » Este chamado morro é um cô- 
moro de arêa revestido de escassa vegetação, o qual fica a um lado 
da cidade, e delle melhor que de qualquer outro ponto se descortina 



LXIV PARTE HISTÓRICA 

amplo horisonte sobre o mar, ao mesmo tempo que delle se avislão 
todos os cumes das serras visíveis da cidade da Fortaleza. Estas serras, 
em maior e menor afastamento da costa, como que cingem e con- 
tornão a cidade, bem que entre ellas medeiem larguíssimos inter- 
vallos. 

Concluiu-se a obra do observatório, e chegarão os adjuntos; mas 
na impossibilidade de executar quaesquer trabalhos hydrographicos, 
o capitão-tenente Gabaglia teve de modificar os seus planos, cir- 
cumscrevendo-os aos limites do possivel. 

O chefe da secção zoológica percorreu toda a província do Ceará, 
empregando-se não só em formar collecções de toda a qualidade de 
animaes, na conformidade das instruccões especiaes que lhe forão 
dadas pelo governo imperial, mas ainda em observar e reunir infor- 
mações de pessoas fidedignas acerca da Fauna da província. Seus es- 
forços forão coroados de successo, pois além de varias espécies de 
mammiferos , avultou a collecção ornithologica , cujo numero de 
exemplares excedeu a quatro mil, vindo todos empalhados, e al- 
guns mesmo já montados com perfeição, primando muito neste tra- 
balho com a sua costumada perícia o naturalista-preparador João 
Pedro Villa-Real. 

Das espécies de aves obtidas algumas são raras, e quasi a metade 
não se encontravão no nosso museu nacional. 

A icthyologia, tão fecunda em resultados interessantes, mereceu 
também particular attenção do chefe da secção zoológica, bem con- 
vencido do quanto o Brasil pode cooperar para o progresso deste ramo 
da sciencia; e por isso, entretendo relações com os pescadores, 
alcançou preciosos dados relativamente aos peixes daquella costa e 
maneira empregada para obtel-os. Aos modelos das jangadas, de 
que usao nas pescarias, juntou os dos arrastões, redes, e outras ar- 
madilhas de que alli se servem. 

Quanto á erpetologia, transportou a secção mais de 80 espécies de 
reptis, bem conservados a sêcco, ou em álcool, e alguns bastante 
curiosos. 

Na vastíssima divisão dos invertebrados conseguiu reunir mais 



PARTE HISTÓRICA LX y 

de 12,000 insectos coleopteros, orthopteros, lepidopteros, hymenopte- 
teros, hemipteros, dipteros, etc, muitos de espécies novas ou mal 
descriptas, obtidos pela mor parte nos Carirís, no Araripe e Hi- 
biapaba. Na classe dos hymenopteros convém fazer menção da va- 
liosa collecção de abelhas da provincia, em numero de 26 espécies, 
das quaes não só colherão-se amostras dos individuos conservados 
para estudo, como do seu mel e ceras. 

Dos animaes obtidos tenciona o chefe da secção zoológica fazer a 
respectiva descripção, acompanhada de desenhos e das suas ob- 
servações : trabalho longo, que com o tempo irá successivamente dando 
á luz. 

O capitão João Martins da Silva Coutinho, na ausência do chefe da 
secção geológica, o Dr. Guilherme Schúch de Capanema, fez com a 
mesma fortuna grande numero de excursões pelas circúm vizinhanças, 
colligindo variadas amostras geognosticas, estudando a natureza e 
idade do terreno, e tomando informações de minas, de cuja existên- 
cia se suspeitava na provincia ; viu-se porém obrigado a interromper 
os seus trabalhos durante dous mezesem que esteve doente. 

O chefe desta secção porém, o D r. Capanema, até então demorado 
na corte por motivos ponderosos , de entre os quaes sobresahião as 
suas muitas e graves occupações publicas e privadas , desembarcou 
no Ceara' no dia 3 de Junho de 1859. A sua viagem foi rápida, como 
de quem tinha pressa de chegar, e sabia que era anciosamente es- 
perado pelos seus companheiros : todavia demorou-se alguns dias 
na Bahia, fazendo rápidas excursões ás villas mais próximas daquella 
capital, como a Itaparica, Santo Amaro e Nazareth. Nesta sua demora 
e excursões pela provincia da Bahia, além de observações de grande 
alcance geológico , convenceu-se de que "poderia bem não ser in- 
teiramente fabulada aquella tradição de ricas minas de prata an- 
nunciadas ao rei de Hespanha e Portugal pelo mineiro Roberto Dias, 
e ás quaes com quanto nunca fossem exploradas, nem averiguadas, 
deveu o marquez das Minas o seu titulo, e além disso o Dr. Capa- 
nema reconheceu que se alteava o litoral do Brasil, o que influe 
seriamente sobre a questão dos portos. Na Parahyba e dentro da 

C. S. Q 



LXVI PARTE HISTÓRICA 

cidade achou calcários com fosseis, que desconfiava ser a continua- 
ção da formação que Gardner descobriu no Crato em 1841, o que 
elle pôde verificar nas próprias localidades , alguns mezes depois. 
Encontrou emfim outras curiosidades, fez observações de grande valor 
scientifico, como em tempo se verá do seu relatório. 

Ao Ceará chegava o Dr. Capanema com os melhores auspicios , 
trazendo comsigo e distribuindo pelos lavradores da provincia alguns 
centenares de pés de cafeseiros de Bourbon e muitas mudas de can- 
nas das ilhas Mauricias. Por outro lado os trabalhos da sua secção 
promettião ser os mais importantes naquella provincia, onde o povo 
crê descobrir vestígios de minas em cada montanha, vê ouro em 
qualquer montão de tauá amarello, ouve roncos nas serras em certas 
estações do anno, e logo após observa os cimos que se inílammão, 
derramando ao longe um cheiro bem caracterisado de enxofre. Con- 
vinha ao paiz saber o que entrava de verdade nesses dizeres do povo, 
convinha-o sobretudo ao povo para se não deixar illudir com tanta faci- 
lidade, como ainda ha dous annos no Acarape, e para se convencer 
de uma vez que a sua inesgotável Califórnia são aquellas terras, cuja 
simples inspecção denuncia immensa productibilidade sob aapparen- 
cia de completamente estéreis. Que essas arêas e terras contenhão 
ouro, como em Baturité e em outros lugares, é isso de muito pouca 
vantagem onde se sente tanta carência de agua; mas que contenhão tan- 
tos principios fertilisadores, que nellas dominem em tão justas propor- 
ções a argilla, a arêa, partículas mineraes e detritos vegetaes, é isso 
o que constitue a felicidade da provincia : é por isso que os seus filhos 
devem render graças á providencia. 

Nestes trabalhos se occupava a commissão ensaiando-se e pre- 
parando-se ao mesmo tempo para a sua viagem do interior. Nesse 
intervallo houve apenas a distracção do adjunto da secção botânica 
o Dr. Manoel Freire Allemão, que, á reclamação do presidente 
da provincia o Ex. Sr. Dr. João Silveira de Souza foi, como me- 
dico , visitar a povoação do Acarape , então flagellada pela epi- 
demia das bexigas. O Dr. Freire cumpriu esta commissão com o 
zelo e pontualidade que costuma a desenvolver em objectos de ser- 



PARTE HISTÓRICA LXVI1 

viço : foi e voltou em poucos dias, apresentando um relatório cir- 
cunstanciado do estado sanitário da povoação, dos meios por elle 
aconselhados para debellar o mal, e dos que no seu entender e em 
relação á epidemia cumpria que o governo fizesse em tal con- 
junctura. 

Salva esta excepção, que aliás plenamente se justifica por uma 
causa urgentíssima e de alta utilidade publica, todos os outros mem- 
bros da commissão scientifica se conservavão no seu posto e anciosos 
por ouvir toar a hora da partida, que infelizmente já se ia demorando. 

Receberão-se as cavalgaduras em fins de Junho, e as secções mu- 
nirão-se de fundos para a sua despeza durante um semestre , tempo 
que duraria a sua excursão, segundo o acordo tomado a tal respeito 
e os orçamentos apresentados pelos respectivos chefes. 

Esse acordo, communicado ao governo imperial, foi por elle 
approvado , bem que em parte se afastasse das instrucções : versava 
sobre a conveniência de .marchar a commissão scientifica, não unida 
com toda a sua bagagem e pessoal , mas dividida em três turmas 
differentes , marchando cada qual em sua direcção, afim de se en- 
contrarem depois em lugar e tempo determinado. Para esta resolu- 
ção attendeu-se á impossibilidade quasi absoluta de marchar conjunc- 
tamente tão numeroso pessoal , com tantas cargas , pelo centro de 
um paiz árido, em tempo de sêcca, tendo de atravessar lugares des- 
providos de todos os recursos, e, por via de regra, até de agua es- 
cassos. Por outro lado a diversidade dos estudos de que se tinhão 
de occupar as differentes secções da commissão scientifica acon- 
selhava a adopção do mesmo arbitrio. Os melhores pontos para 
observações astronómicas e trabalhos geodésicos não serião sempre 
os mais próprios para os encargos das outras secções. A secção geo- 
lógica estava nas mesmas circumstancias. As três ultimas é que bem 
se poderião combinar para progredir simultaneamente , se não hou- 
vesse vantagem em que as turmas não fossem por demais numerosas. 

Achou-se pois conveniente que a commissão scientifica marchasse 
para o interior, dividida em três turmas principaes, em direcção 
ao lcó, Crato, e Serra Grande nos confins da província. 



LXVIII PARTE HISTÓRICA 

A primeira, composta das secções botânica e zoológica, seguiria 
pelas margens do Jaguaribe. 

A segunda, das secções geológica e ethnographica, se internaria 
seguindo o caminho de Baturité e Quixeramobim. 

A terceira, por ser a mais numerosa, proseguiria só, e além disso, 
para dar mais desenvolvimento aos seus trabalhos, se subdividiria 
em turmas de adjuntos, as quaes progredirião em diversas direcções. 
O Dr. Assis acompanharia esta terceira turma, que não tinha facul- 
tativo, e contando numeroso pessoal, poderia de outra sorte achar-se 
no caso de lamentar a falta de um medico. 

Assim ordenadas as cousas, partirão primeiro do Ceará as turmas 
das secções botânica e zoológica no dia 16 de Agosto, caminho do 
Aracaty, demorando-se apenas nos povoados intermédios os dias ne- 
cessários para as suas colheitas e estudos. As secções geológica e 
ethnographica seguirão logo no dia seguinte, ficando ainda no Ceará 
a secção astronómica , cujo chefe , depois de providenciar acerca 
das turmas de seus adjuntos, sahiu pouco depois da capital , na di- 
recção da Serra Grande, acompanhado dos primeiros-tenentes Soares 
Pinto e Barbedo. 

Todavia já nesse tempo (em Setembro de 1859) o pessoal daquel- 
la secção tinha soffrido um corte. O primeiro tenente Gayoso , sen- 
tindo-se cada vez mais enfermo , regressara de Mecejana, onde des- 
empenhava trabalhos topographicos com o levantamento da planta 
da povoação e seus arrabaldes, e pediu permissão de se retirar para a 
corte, afim de solicitar exoneração do cargo, que se achava impos- 
sibilitado de continuar a servir. Embarcando-se no Ceará no dia 20 
de Julho de 1859, obteve a sua demissão do governo imperial a 20 
de Agosto, e no dia 3 de Setembro seguinte tinha deixado de existir. 

Não entraremos em minuciosidades, tratando desta primeira ex- 
cursão da commissão scientifica , porque nos seus relatórios apresenta 
cada um dos chefes o resumo do seu itinerário com o summario dos 
trabalhos executados por cada um na sua respectiva secção. Diremos 
aqui somente quanto fôr bastante para se ter uma idéa da marcha geral 
da commissão, e dos lugares que ella percorreu. 



PARTE HISTÓRICA LX1X 

A primeira destas turmas, depois de algum tempo de demora no 
Aracaty, seguiu Jaguaribe acima, visitando os povoados da margem 
deste rio, e demorando-se onde se lhe offerecia ensejo de colheita. 
Da ribeira de Jaguaribe tomou para o Icó, cidade importante do centro 
da província, entrou nos Garirís em viagem para o Crato, onde chegou 
em Dezembro de 1859. 

Estudadas as producções daquelles lugares, o conselheiro Francisco 
Freire Allemão e o Sr. Manoel Ferreira Lagos atravessarão o Ara- 
ripe, chegarão até o Exú em Pernambuco, donde regressarão para a 
amena villa do Jardim. Aqui se demorou o chefe da secção zoológica, 
em quanto o da botânica voltou pela villa da Barbalha para o Crato. 
Já então começava elle a sentir as consequências destas fadigosas ex- 
cursões, e como os seus incommodos fossem em augmento, entregou 
a secção ao seu adjunto, e apezar de ser no rigor do inverno, partiu 
do Crato pelo caminho mais curto para a Fortaleza , onde chegou em 
dias do mez de Abril. Dous mezes de licença (Julho e Agosto de 1860) 
permittirão-lhe vir á corte tratar de seus negócios, até que se incor- 
porou de novo á sua secção, a qual, na- sua volta, se achava em 
Baturité. 

Durante a sua ausência, o seu adjunto o Dr. Manoel Freire Allemão, 
acompanhando a secção zoológica, entrou pelos sertões dos Carirís até 
Assaré, cujas serras percorreu. Do Assaré cortou pelo valle dos Bas- 
tiões, sertão e villa do Saboeiro , donde passou á villa de Tauá ou 
Príncipe Imperial, enriquecendo o seu herbario com as producções 
desta parte da Serra Grande. De volta do Tauá, separando-se do pes- 
soal da secção zoológica, o Dr. Manoel Freire Allemão desceu pelos 
sertões de Mombaça até Baturité, retirando-se em Agosto para a ci- 
dade da Fortaleza, depois de uma larga e proveitosa excursão. 

As secções zoológica e ethnographica que compunhão, como disse- 
mos, a segunda turma, seguirão pelo centro da província caminho 
de Pacatuba e Acarape, onde tiverão uma demora forçada de alguns 
dias por incommodos que sobrevierão ao Dr. Capanema: percorre- 
rão em todos os sentidos a serra da Aratanha, e visitarão os ser- 
rotes do Jatobá e outros. No Acarape a secção geológica examinou 

c s. ^ 10) 



LXX PAKTE HISTÓRICA 



as suas bellas serras de granito em decomposição, as caieiras, e as 
grutas calcareas da Igreja, o sino do Frade, e rochedos curiosos pela 
natureza da sua formação toda eruptiva. Em Baturité demorárão-e 
mais tempo com o exame da serra do mesmo nome. hoje de al- 
guma importância pela cultura do café e canna de assucar, que alli 
se vão introduzindo: forão á Serra Aguda, á Serra Azul e ao sertão 
das Itans, e descambando para o outro lado da serra de Baturité vi- 
sitarão Canindé e as minas de ferro de Cangatí , já mencionadas 
pelo naturalista Feijó, posto que até o presente desaproveitadas. 

Regressarão de novo a Baturité, tomarão o comboi e proseguirão 
na sua jornada por Quixadá e Quixeramobim, onde tiverão demora 
de alguns dias pelas excursões que fizerão ás serras. Em Lavras exami- 
narão a gruta thermal do Boqueirão, lugar notável porque foi rom- 
pida a serra para dar passagem ao rio. Do Icó o Dr. Capanema e 
G. Dias seguirão até as proximidades da villa da Telha, em quanto 
o adjunto o Sr. Dr. Coutinho chegava até a serra do Pereiro. 
Do Icó, depois de ter dado descanso aos animaes , e reduzindo 
" o seu comboi, porque muitos desses animaes não estavão em estado 
de seguir viagem por magros e cansados, seguirão as duas secções 
pela povoação da Cachoeira para o Crato, onde chegarão em Janeiro 
e se encontrarão com a primeira turma da commissão. Do Crato 
sahirão a visitar o Araripe, Brejinho, digno de estudo pelos seus cal- 
cários fosseis, e subdividindo-se neste mesmo lugar, o Dr. Capa- 
nema com o seu adjunto se dirigirão para o Exú na província de 
Pernambuco, em quanto nesse intervallo Gonçalves Dias retrocedia 
sobre o Crato afim de compulsar o seu archivo municipal, já estu- 
dado pelo Sr. João Brigido dos Santos, autor dos apontamentos para 
a historia dos Carirís , e o ecclesiastico de Missão-velha . onde 
Bernardino Gomes de Araújo tinha restolhado algumas noticias para 
sua chronica. 

Estávamos então na entrada do anno de 1860 , e achavão-se 
reunidas no Crato quatro das secções da commissão scientifica, fal- 
tando somente a astronómica, que , pela natureza de seus trabalhos, 
não podia com vantagem executar tão rápidas viagens. 



PARTE HISTÓRICA LXXL 

Não erão animadoras as noticias que delia recebêramos . Quanto ao 
andamento dos trabalhos, o capitão-tenente Gabaglia lhe tinha dado 
todo o possivel desenvolvimento. Borja Castro caminhava na direcção 
da villa da Imperatriz, Santos Souza seguia pelo centro da província, 
Lassance, pelo sul delia, acompanhava o Jaguaribe na direcção da 
villa de Russas. O capitão-tenente Gabaglia e dous de seus adjuntos, 
os primeiros tenentes da armada Soares Pinto e Barbedo, procuravão a 
Serra-Grande, donde passarão á villa do Principe Imperial, na pro- 
víncia do Piauh\ , na qual, cumpre não esquecel-o, se havião no- 
meado em diversos lugares eommissões encarregadas de prestar todo 
o auxilio de que pudesse ter necessidade a commissão scientifica 
quando ahi chegasse. 

As noticias pouco animadoras que recebemos desta turma não se 
referião pois á marcha de seus trabalhos, porém a outras circum- 
stancias que a todos os mais dizião respeito, e os pozerão de sobre- 
aviso. 

O capitão-tenente Gabaglia, como todos os chefes das outras turmas, < 
tinha recebido fundos bastantes para a projectada e já quasi concluida 
excursão de seis mezes ; mas não se queria arriscar ao transporte 
e perda de grandes quantias, nem mesmo o podia fazer, porque 
tendo os seus adjuntos espalhados por lugares distantes, carecia de 
determinar um centro a que elles podessem recorrer, quando care- 
cessem de dinheiro para pagamento de seus serventes e cargueiros. 
Deixou pois essas quantias depositadas na thesouraria da província, 
entendendo-se com o inspector delia , e declarando-lhe que elle 
dessa verba iria reclamando por partes segundo as necessidades do 
serviço. 

Apenas porém tinha partido da capital do Ceará , quando come- 
çarão a surgir difíiculdades para a entrega das quantias, que o seu 
procurador, empregado da commissão, requisitava. Em Outubro o 
capitão-tenente Gabaglia, que se achava então na Serra-Grande, fez ao 
governo da provincia as mais justas e instantes reclamações; mas 
a thesouraria respondeu a 16 de Dezembro que essas quantias, dis- 



LXXII PARTE HISTÓRICA 

trihuidas em Julho desse mesmo anno, tinhão cahido em exercícios 
findos! 

Era evidente que o chefe da secção astronómica lutara com em- 
baraços pecuniários para occorrer ás despezas da sua secção . se.m 
interromper os seus trabalhos nos quatro mezes decorridos desde a 
sua primeira reclamação até a época em que o presidente da com- 
missão teve noticias suas. 

O que devia fazer a commissão em tal conjunctura? Era de toda 
a conveniência descansar no Crato o tempo das grandes chuvas , 
dar folga aos animaes, rever as suas collecções , coordenar no que 
podessem os seus apontamentos e notas , e d'alli mesmo proseguir 
na estação favorável , visitando o centro de outras provindas, como 
lhes era recommendado. A conveniência do serviço teve neste caso 
de ceder o lugar aos conselhos da prudência. 

Já em Novembro de 1859 o conselheiro Freire Allemão havia 
requisitado do presidente da provincia a quantia de 2:000#000 para 
despezas da commissão. A thesouraria da fazenda informou, como já 
havia feito a propósito da reclamação do capitão-tenente Gabaglia, 
que com a cessação do exercicio tinha caducado o credito concedido 
para taes despezas , e que assim não podião estas ser pagas sem con- 
signação de novos fundos. O presidente da provincia, não querendo 
tomar a responsabilidade da satisfação deste pedido , consultou 
o governo imperial , e recebeu essa autorisacão por aviso de 2 de 
Janeiro de 1860. 

O conselheiro Freire Allemão, sem ter conhecimento dos emba- 
raços que apparecèrão para a entrega daquella quantia , porque , 
em contínuas viagens, era-lhe diíficil sustentar uma correspondên- 
cia regular e seguida com a capital, requisitou novamente a 26 de 
Dezembro do presidente da provincia a entrega de pouco mais de 
6:000$000 para as despezas da secção zoológica e botânica no tri- 
mestre de Fevereiro a Abril de 1860, afim de poderem proseguir 
nas suas excursões. 

O presidente da provincia respondeu a 25 de Janeiro como já o 
fizera anteriormente, que não tomando sobre si essa responsabilidade 



parti: histórica lxxiii 

ia dirigir-se nessa data ao governo imperial afim de lhe pedir as 
suas determinações. 

Agora reunidas no Crato quatro das secções da commissão scienti- 
tifica, sem conhecimento de que ainda não estivessem removidos os 
embaraços pecuniários, que tinhão surgido em relação á commissão, 
forão todos os seus membros de parecer que, a ser possível, se apro- 
veitasse o caminho já feito, pois que, tendo sido marcados dous annos 
para a existência da commissão, era de necessidade empregar-se o 
tempo do melhor modo. Por isso se officiou ao presidente da pro- 
vinda, pedindo-se-lhe mandasse abonar ás secções as quantias suffi- 
cientes para as suas despezas ao menos durante seis mezes, se para 
mais houvesse diííiculdade. Esse officio datado de 17 de Janeiro teve 
resposta negativa a 9 de Fevereiro seguinte. 

Nesse intervallo porém foi necessário que a commissão tomasse uma 
resolução, porque só tinha coms-igo quanto lhe bastava para o seu 
costeio até o fim de Janeiro. A decisão da presidência não era de 
presumir que fosse favorável, depois da recusa da entrega dos 2:000$ 
pedidos pelo conselheiro Freire Allemão, e das complicações e em- 
baraços sobrevindos á terceira turma da secção astronómica, de que 
tivéramos conhecimento no Crato. 

Reconsideradas pois as circumstancias , resolverão voltar quanto 
antes á capital da provincia, aproveitando o tempo no seu regresso 
como melhor pudessem. O chefe da secção botânica tinha concluido 
os seus estudos por aquellas cercanias, e retirava-se enfermo , dei- 
xando a secção a cargo do seu adjunto. 

A secção zoológica voltou pelo centro da provincia , depois da 
estada de alguns dias na villa do Príncipe Imperial; progredindo 
lentamente, como quem hesitava na esperança de uma decisão do 
governo, que lhe permittisse retroceder. 

Na segunda turma, Gonçalves Dias entregava o comboi ao Dr. Ca- 
panema por não poder, nem querer contrahir compromissos para 
occorer ás despezas da turma. O Dr. Capanema era de igual parecer. 
As suas cargas deverião pois partir do Crato sob as vistas do adjunto 



LXXIV PARTE HISTÓRICA 

da secção geológica, o capitão Coutinho, tomar as collecções deposi- 
tadas no ícó, e descer pela ribeira do Jaguaribe até o Limoeiro, onde 
seria esperado. 

Entretanto aquellesdous, viajandoescoteiros,dirigirão-seaoJardim, 
a Milagres, ao lugar chamado « Cachorra morta » onde existia e acaso 
existirá ainda um resto de tribu indigena, e passando por Souza e Páo 
dos Ferros, nas provincias da Parahyba e Rio-Grande do Norte, vierão 
sahir no Figueiredo, onde este rio faz a sua juncção com o Jagua- 
ribe, no lugar por isso chamado a a Barra. » Do Figueiredo descerão 
pela estrada que ladeia o Jaguaribe até o Limoeiro, e aqui souberão, 
com a chegada de suas cargas, que o capitão Coutinho por doente ficara 
no Crato em tratamento. Proseguirão depois por meio dos extensos e 
formosos carnaúbaes do valle do Jaguaribe até o Aracaty, e perto da 
foz do mesmo rio e d 'aqui pela estrada do litoral se dirigirão á For- 
taleza, onde chegarão a 10 de Março de 1860. 

Esta excursão da segunda turma foi larga no gyro, incommoda 
pela estação, pois não tinhão ainda começado a cahir as chuvas e 
faltava o pasto aos animaes, e de certo teria sido muito mais provei- 
tosa a não ter sido feito tanto ás pressas. 

O valle de Souza, a mina de ferro de Cangatí, e sobre tudo com 
a probabilidade de carvão de pedra na vizinhança, os fosseis calca- 
reos do Brejinho merecião um estudo muito mais demorado, e exca- 
vações que não era possivel realizar senão com tempo e dispêndio ; 
mas as difficuldades pecuniárias com que se achavão a braços as 
secções zoológica e botânica no Crato, aquellas com que desde Outu- 
bro de 1859 lutava o chefe da secção astronómica na Serra-Grande, 
e os próprios recursos desta segunda turma, que se tornavão escassos 
desde Janeiro, não animavão a contrahir-se empenho de natureza al- 
guma para demorar essa excursão, com quanto, como ponderámos, 
fosse isso sobre maneira conveniente. 

Chegadas estas secções á capital do Ceará, onde erão por dias espe- 
radas as outras, souberão que por aviso de 17 de Fevereiro havia o go- 
verno imperial providenciado acerca de fundos para as despezas da 
commissão scientifica, não só dentro da provincia, como em outras 



PARTE HISTÓRICA LXXV 

por onde houvesse de transitar, declarando ao mesmo tempo ao pre- 
sidente que não elevasse a despeza acima das quantias votadas. 
Pouco depois chegarão mais dous chefes de secção, o conselheiro 
Freire Allemão. que precisava vir á corte tratar de seus negócios, e o 
capitão-tenente Gabaglia, que vinha de Sobral a vêr o que se podia 
deliberar acerca do novo itinerário da commissão, aproveitando o 
ensejo para entender-se com os adjuntos destacados da sua secção, e 
providenciar acerca do andamento dos trabalhos de que estavão in- 
cumbidos, e para que na sua ausência pudessem marchar sem tro- 
peços. 

Ao chegar ao Ceara', o capitão-tenente Gabaglia communicava á 
commissão o estado de seus trabalhos astronómicos, meteorológicos e 
topographicos, e o resumo do seu itinerário durante esta excursão. 

Dividira em grupos o pessoal de que podia dispor, e encarregara ao 
I o tenente Lassance Cunha de avançar na direcção do Àracaty, pas- 
sando pela estrada que vai do Aquiraz áquella cidade. O I o tenente 
Lassance, segundo as ultimas noticias, se achava em S. Bernardo das 
Russas impedido pelas chuvas, que já erão frequentes e copiosas, e pelas 
enchentes dos rios, de proseguir na sua viagem pelo Jaguaribe acima. 

Ao I o tenente Borja Castro, já então enfermo e com permissão de 
se retirar para a corte, de seguir até Sobral, passando pela villa da 
Imperatriz ; o que elle fez, não indo além pelos motivos que o for- 
çarão a retirar-se da commissão. 

Ao capitão Santos Souza de proseguir na direcção de Maranguape, 
e d'alli por diante; mas depois da retirada do I o tenente Borja Castro, 
parecia melhor que elle se transportasse ao Acaracú, e ligasse os seus 
estudos com os que já estavão feitos até Sobral. 

A natureza dos trabalhos de toda a commissão, mas principalmente 
os da secção astronómica e geographica, assim como asdifficuldades 
do transito e transporte de material delicado, erão obstáculos a mo- 
vimentos muito accelerados, a jornadas extraordinárias, que, segundo 
elle ponderava, poderião talvez infundir admiração, mas não trarião 
nenhuma utilidade real. 

Ainda assim, elle com a sua turma tinha podido effectuar uma 



LXXV1 PARTE HISTÓRICA 

excursão relativamente extensa, pois que nesse "período percorrera por- 
ventura mais de duzentas léguas entre diversos povoados. 

Sahindo da capital, acompanhado pelos seus adjuntos os primeiros- 
tenentes Soares Pinto e Barbedo , com todos os instrumentos da sua 
secção de possível transporte, dirigiu-se á Itapipóca, povoação que 
se acha na raiz da serra da Uruburetama, e daqui estendendo as suas 
excursões aos pontos dominantes das serras vizinhas, determinou as 
posições das villas da Imperatriz e S. Francisco, assim corno dos po- 
voados de Santa-Cruz, Arraial e outros de menor importância. Pro- 
seguindo depois na sua marcha para Sobral, passou por SantAnna 
e S. Bento , e buscou a villa do Ipú , situada ao pé da serra da 
Ibiapaba. 

Na villa do Ipú dirigiu-se ao Campo-Grande edahi viajando pela 
parte superior da Ibiapaba foi a S. Gonçalo, donde desceu para reco- 
nhecer as baixadas e o sopé da serra na altura do rio Poty, e cortando 
ao través do sertão, alcançou a villa do Príncipe Imperial no Piauhy, 
mais conhecida sob a denominação de « Piranhas. » 

Os temores de falta de recursos, e oaccordo tomado pelos membros 
da commissão de se reunirem para tratar do seu novo itinerário , 
o forçarão a descer a serra, e vir á Fortaleza em Maio de 1860. 

Por esse tempo o pessoal da commissão soffrêra novo corte. O Dr. 
Assis, que deveria ter acompanhado alguma das turmas da secção as- 
tronómica, ás quaes como medico podia ser útil. ao passo que se 
iria occupando dos trabalhos da secção de que era adjunto, e daquel- 
les que o governo particularmente lhe recommendára, começou a 
soffrer em sua saúde ; e como não se poupasse a incommodos nem a 
fadigas, foi indo sempre a peior até que no 28 de Janeiro dava a alma 
ao Creador, na povoação da Pacaluba, assistido nos seus últimos 
momentos pela estimável familiadoSr. Costa, daAratanha. Moco es- 
tudioso e trabalhador, com conhecimentos não vulgares na sua pro- 
fissão, morreu medicando e esmolando aos pobres com um desinte- 
resse, abnegação e philantropia dignas de todo o encómio. A herança 
que legou á sua pobre mãi, moradora na villa do Penedo, a quem 
Deos parece que concedera vêr seu filho doutorado para tornar mais 



PAUTE HISTÓRICA LXXVII 

dolorosa asua perda, foi uma divida de Rs. 147#, proveniente de me- 
dicamentos na sua enfermidade e gastos de enterramento. 

Outra perda, também sensível, posto que não funesta, teve a eom- 
missão com a retirada do I o tenente Agostinho Victor de Borja Castro , 
então enfermo. Este senhor retirou-se do Ceará a 24 de Abril desse 
anno para na corte solicitar a sua exoneração , que lhe foi dada a 29 
de .Maio seguinte. Com estas perdas, a secção astronómica achou-se 
reduzida justamente á metade dos adjuntos que ella julgara indis- 
pensáveis á execução de suas instrucções. 

Tomadas as providencias pelo supracitado aviso de 17 de Fevereiro 
acerca das quantias necessárias para as despezas da commissão, restava 
saber a quanto montava essa verba; porque só com essa informação 
se podia calcular o tempo para a nova excursão e determinar o itine- 
rário das turmas. Uma nota extra-official do inspector do thesouro, 
transmittida camarariamente pelo presidente da provincia ao conse. 
lheiro Freire Allemão, declarava haver ainda da verba consignada 
para taes despezas um saldo de 60 contos de réis, quantia mais que 
sufficiente para uma nova excursão de seis mezes. 

A commissão , tendo seis mezes diante de si , tomou uma resolu- 
ção prompta, porque a maior parte das secções continuavão em 
exercicio , e não podião prescindir por largo espaço da presença e 
direcção dos respectivos chefes. Sem duvida era vantajoso fazer-se 
um gyro muito mais largo do que o anterior , de forma que se não 
perdesse tempo em hesitações e incertezas , com idas e voltas , e á 
espera de providencias para proseguir na sua tarefa; mas para isso 
seria preciso ultrapassar o periodo de dous annos, marcado á com- 
missão, para um pedido de fundos mais avultado, representação para 
prorogar-se aquelle prazo, no que um ou outro poderia não concor- 
dar, e emfim a acquiescencia do governo de Sua Magestade. 

Fez portanto a commissão o que devia tomando a resolução mais 
prompta com attenção aos motivos referidos , e communicou ao 
governo em data de 15 de Maio que, salvo ordem em contrario, a 
provincia do Ceará ficaria nominalmente considerada como centro 

e deposito do seu material disponivel, que a excursão que de novo 

c ». (11) 



LXXVIÍI PARTE HISTÓRICA 

ia emprehender duraria pelo menos até o fim de Dezembro, con- 
forme o pedido de fundos anteriormente transmittido ao governo 
imperial, e que as secções da commissão se poderião conservar den- 
tro da provincia, entrar ou internar-se pelas limitrophes como lhes 
permiltissem o tempo e os recursos á sua disposição. 

No entanto o Dr. Capanema , mal convalescido de umas tercãas 
fortes que o accommettêrão na sua volta, reclamava fundos para as 
despezas da sua secção durante o espaço de dez mezes, tempo máximo 
que se podia gastar até que a má estação lhe impossibilitasse o trabalho. 

Motivando o seu pedido, escrevia elle ao presidente da commissão em 
officio que, em data de 29 de Abril, se transmittiu ao governo imperial : 

« Esta medida é aconselhada pela experiência passada. No Crato 
e na provincia da Parahyba deparei com lugares que exigião minu- 
cioso exame, e que pelas apparencias promettião resultados impor- 
tantes : mas tendo-se reclamado dinheiro, não se obteve em tempo, 
e a incerteza em tão grande distancia forçou-me a regressar com a 
maior rapidez. 

« A natureza dos trabalhos a meu cargo torna inteiramente impos- 
sível dizer de antemão qual a direcção que devo seguir : posso ver- 
me obrigado apenetrar muito mais para o interior do que pretendo. 
A experiência adquirida nas serras de Maranguape, Aratanha, Batu- 
rité e Quixeramobim , ensinou-me que me não posso fiar em infor- 
mações da gente da terra : por isso só me devo guiar pela natureza das 
formações geológicas que encontrar no meu itinerário. » 

Comtudo, apezar da resolução tomada, era bem de prever que as 
turmas da commissão scientifica não se verião nunca em circum- 
stancias de sahir da provincia, senão accidentalmente. O chefe da 
secção ethnographica , enfermo também como os seus companheiros 
de jornada ; porque mesmo o capitão Coutinho chegara doente do 
Crato, escrevia no seu relatório de 17 de Março , ao chegar do interior : 

« O estudo dos nossos indigenas é o que mais avulta nas minhas 
instrucções/demais curiosidade para os outros paizes pelo que nesse 
estudo pôde haver de scientifico , e de mais vantagem para o Brasil 
pelo que pode resultar do seu aldeamento , catechese e civilisação. 



PARTE HISTÓRICA LXX1X 

« A tal respeito porém lamento que os trabalhos muito mais 
importantes das outras secções lhes não tenhão permittido até agora 
sahir do Ceará, procurando as províncias do interior, nas quaes 
somente se poderá fazer esse estudo com algum proveito. Receio 
mesmo que ao sahir d'aqui tenhamos de proseguir na nossa excursão 
com tal rapidez , que esse exame não possa ser feito senão de modo 
excessivamente superficial ; porque, baseando-se essencialmente no 
conhecimento das linguas indígenas , esse , apezar da melhor boa 
vontade e aptidão, só com o tempo se adquire. 

« Sendo isto assim , e visto ter de reunir-se dentro em pouco 
a commissão para assentar no seu futuro itinerário, lembro-me de 
a preceder neste caminho , e de a esperar em algum ponto conve- 
niente aos trabalhos da minha secção , por onde mais tarde tenha de 
passar a commissão, em ordem a poder dar conta da honrosa tarefa de 
que fui incumbido. Á commissão caberá informara V. Ex. do que a 
tal respeito resolver. » 

Urgia o tempo, tanto mais quanto a estação ia adiantada, e a 
commissão não podia dispor de meios para uma excursão tão larga 
quanto era desejável, o conselheiro Freire Allemão retirava-se para a 
corte, e convinha que as secções estivessem munidas de fundos para 
proseguirem durante a sua ausência. Distribuirão-se as quotas pe- 
las secções astronómica, zoológica, geológica e botânica, ficando, ou 
suppondo-se que na thesouraria ficava a que deveria caber á secção 
ethnographica, e uma sobra para as despezas eventuaes da com- 
missão. 

Quando porém se requisitou a somma restante , a thesouraria 
declarou officialmente, em data de 27 de Abril de 1860, que a verba 
destinada para estas despezas não tinha de saldo mais do que cin- 
coenta contos, quando na sua informação extra-official, sobre a qual 
a commissão baseara a sua deliberação, havia dado a existência de um 
saldo de sessenta contos e tanto. 

A secção ethnographica, vendo-se por esta forma sem recursos, 
aceitou o offerecimento de um conto de réis, que lhe fez graciosamente 
cada uma das duas secções botânica e astronómica, para pagar despe- 



LXXX PARTE HISTÓRICA 

zasjá feitas e transportar-se para fora da província, como havia sido 
communicado ao governo de S. M. I. 

Resolvido o novo itinerário da commissão, não segundo seria mais 
vantajoso, mas como era possível nas circumstancias em que se acha- 
vão os seus membros, aconteceu nesse entretanto aggravar-se a enfer- 
midade do adjunto dasecção geológica, o capitão Coutinho. A ausência 
do presidente da commissão, já por esse tempo no Rio, não permittia 
tomar-se resolução alguma, e não era bem que se desprezasse toda a 
contemplação para com quem, no seu estado de saúde, nunca se furta- 
ra a privações e a incommodos, tratando-se de objecto de ser- 
viço. 

Só depois da volta do conselheiro Freire Allemãoé que o chefe da 
secção geológica pôde tomar uma deliberação a este respeito. Offi- 
ciou em meiadosde Setembro ao presidente da commissão que o seu 
adjunto se achava enfermo, declarando formalmente o seu medico as- 
sistente que elle devia abster-se, pelo menos durante três mezes, de 
toda a fadiga de corpo e de espirito. Não era possivel contemporisar 
por tanto tempo, nem por outro lado o chefe da secção geológica 
podia partir sem um adjunto, porque muitos dos seus trabalhos o não 
dispensa vão. 

Requisital-o do Rio, era nova e talvez maior perda de tempo ; por- 
que podia muito bem dar-se a eventualidade, que era mais provável, 
de não se encontrar pessoa que pudesse ou quizesse servir aquelle 
lugar. 

Para cortar delongas, o Dr. Capanema contractou um moço do Cea- 
rá, Numa Pompilio de Loyola e Sá, que embora não tivesse feito estu- 
dos alguns podia ajudal-o muito na parte material do serviço, por ser 
sujeito de habilidade para todos os officios mecânicos, e ter tal qual 
pratica e aptidão para concertos de instrumentos mathematicos. 

Apezar da urgência das circumstancias e do útil soccorro, então 
ainda muito mais precioso do que lhe foi o supradito contracta- 
do, nem por isso o Dr. Capanema o equiparou em vencimentos 
com os adjuntos, que pelos seus conhecimentos tinhão outra esphera 
de acção. 



PARTE HISTÓRICA LXXXI 



Dous dias depois, a 18 do mesmo mez, foi que o Dr. Capanema teve 
conhecimento da ordem do presidente da commissão para que no fim 
daquelle anno se reunissem os chefes de secções em ordem a delibe- 
rarem acerca do regresso da commissão para o Rio, ou da conveniên- 
cia de continuar alguma ou algumas de suas secções para concluir 
trabalhos começados. 

A isto observava o Dr. Capanema que a sua derrota seria de todo in- 
certa, por depender o seu itinerário da natureza das formações geoló- 
gicas, da sua direcção, extensão e transformações, e que portanto par- 
tindo, como pretendia, da Serra Grande, era provável que tivesse de 
seguir até o centro ou extremos da província do Piauhy . 

Aventava também, por essa occasião, a idéa de ligar o estudo das 
formações do Geará ás do Rio de Janeiro, e reservando-se realizar esse 
projecto se os seus animaes de sella e de carga estivessem em estado de 
supportar essa jornada, ese a estação não corresse por demais desfavo- 
rável para isso, pedia permissão de regressar á corte, embarcando-se 
no porto que lhe ficasse mais próximo, ou dando alguma volta por lu- 
gares que offerecessem interesse scientifico. 

Neste propósito partiu o Dr. Capanema, tendo antes disso a 8 de 
Outubro de 1860 solicitado do presidente da provincia ordem para 
o embarque do seu adjunto, o capitão Coutinho, quando elle o requi- 
sitasse e o seu estado de saúde lhe permittisse seguir viagem para a 
corte, o que só teve lugar em fins de Dezembro desse anno. 

Achava-se a commissão scientifica espalhada por todo o norte da 
provincia, occupada com a conclusão da sua tarefa ou proseguindo no 
plano adoptado, quando pela secretaria de estado dos negócios do Im- 
pério se expediu o aviso de 1 de Outubro de 1 860, o qual acompanha- 
va uma cópia da tabeliã dos vencimentos que os membros e mais em- 
pregados da commissão scientifica devião perceber desde o principio 
daquelle mesmo mez, datada promulgação da lei de orçamento n.° 
114, de 27 de Setembro do mesmo anno. Era bem de vêr que além 
da reducção nos seus vencimentos ou honorários, ficavão supprimidos 
todos aquelles lugares que a tabeliã não mencionava, e ainda os pró- 
prios garantidos por contracto. 



LXXXII PARTE HISTÓRICA 



Esta communicação porém, demorada em Sobral pela incerteza do 
lugar em que se acharia o presidente da commissão, só lhe chegou ás 
mãos a 9 de Janeiro do anno seguinte, quando deveria estar em vigor 
antes mesmo de transmittida ofticialmente á commissão. 

O conselheiro Freire Allemão representou immediatamente, a 10 
do mesmo mez, que as despezas estavão feitas até essa data, que os 
chefes das secções andavão dispersos pela provincia, que era insufi- 
ciente o pessoal marcado para o serviço da commissão, assim como a 
verba para forragens de animaes, eque, emfim, não se havia attendido 
a engajamentos feitos na corte, e na própria secretaria do Império, de 
indivíduos cujos serviços erão aliás indispensáveis. 

Com quanto o governo imperial, attendendo ás razões expostas, 
mandasse posteriormente, em data de 19 de Fevereiro de 1861, que 
a referida tabeliã só começasse a vigorar de Fevereiro em diante, o 
serviço das secções se transformou, e em grande parte se interrompeu. 
Com o torpor da marcha regular dos trabalhos da commissão todas as 
secções soffrèrão, mas o transtorno foi incomparavelmente maior para 
a de astronomia e geographia. 

Em primeiro lugar, reduzida á metade do numero de adjuntos que 
seu chefe requisitara desde o principio para desempenho das suas in- 
strucções, quando estas lhe forãotransmittidas, era manifesto que uma 
parle e não pequena do serviço, como elle o havia ideado, devera ter- 
se resentido deste desfalque de pessoal. 

A parte hydrographica, importante para o commercio e navegação, 
foi quasi completamente abandonada por falta de uma canhoneira, e 
por não haver na provincia navio mercante que aceitasse fretamento 
para o serviço da secção, ou que estivesse em condições de ser para isso 
fretado. 

Com isto teve também o capitão-tenente Gabaglia de deixar de parte 
o estudo minucioso dos rios, estudo que deveria reunir o complexo de 
elementos necessários para se resolver a questão das sêccas, o que no 
futuro pouparia não pequenas sommas ao Estado. 

Forçado a modificar os seus planos, o chefe da secção astronó- 
mica já no seu relatório apresentado ao governo imperial, em 12 



PARTK HISTÓRICA LXXXIII 

de Fevereiro de 1860, tinha declarado de maneira bem explicita 
que, em consequência das circumstancias da provincia e dos re- 
cursos disponíveis da secção a seu cargo, não podia fazer mais que 
limitar-se a reunir dados para uma carta itinerária da provincia do 
Ceará, e registrar as observações meteorológicas para o estudo do clima 
e resolução de problemas agrícolas. 

A nova tabeliã veio acanhal-o ainda mais, e circumscrever o seu 
plano a limites muito mais estreitos. A' deficiência do pessoal secun- 
dário que se marcara para o serviço da secção, accrescião a incerteza 
da remessa dos fundos necessários em tempo opportuno , distan- 
cias, difficuldades de communicações, e embaraços que surgirão 
de todas as partes com a observância da referida tabeliã, embaraços 
que era preciso remover com frequentes e demoradas correspon- 
dências. 

Em circumstancias quasi semelhantes, posto que soffressem menos, 
se achavão todos os outros membros : faltos de operários, esperan- 
do constantemente fundos, que lhes chegavão tardios e sempre in- 
sufficientes, sem tempo bastante para que a modificação dos trabalhos, 
que era força adoptar, trouxesse ou mostrasse alguma vantagem, a sua 
continuação se tornara impossível. 

A commissão conservava apenas um simulacro de vida, que só 
servia para tornar mais grave perante o governo e perante o paiz 
a responsabilidade daquelles que a representavão, porque se achavão 
á frente de suas secções. 

Entretanto os chefes das secções, não tendo conhecimento da ta- 
beliã, e resolvendo-se a arrostar todas as difficuldades. com tanto 
que bastasse a boa vontade para as superar, se tinhão de novo posto a 
caminho. 

O capitão-tenente Gabaglia continuava com os seus estudos pelo 
norte da provincia , apressando-se para que não ficassem de todo 
incompletos. 

Depois delle, pois que nenhuma demora quasi havia tido na For- 
taleza, a secção botânica, achando-se em circumstancias de empre- 
hender a nova entrada no sertão primeiro que as outras, tomou no 



LXXXIV PARTE HISTÓRICA 

principio a mesma direcção que na sua excursão havia seguido a prin- 
cipal turma da secção astronómica. Sahindo da Fortaleza a 9 de 
Outubro de 1860, passou a serra da Uruburetama, demorou-se nas 
villas de Santa Cruze S. Francisco, e cortando pelo valle do Aracaty- 
Assú, chegou ao Ipú, no sopé da Serra-Grande. 

Deste lugar vingou a serra, correu os povoados de Campo-Grande. 
de S. Benedicto e S. Pedro, descendo delia novamente para visitar 
a gruta do Ubajarra, donde passou á Villa-Viçosa. O inverno, que 
já corria adiantado, não permittia largas excursões. Ainda assim, de 
S. Benedicto passou á fronteira do Piauhy, e voltando á província 
examinou a serra da Meruoca e entrou em Sobral. 

Aqui recebeu as communicações atrazadas do governo , que a 
serem, corno forão, sustentadas no essencial, trazião comsigo a con- 
clusão dos trabalhos da commissão. 

Demorando-se pois o tempo necessário para expedir estas ordens 
ás outras secções, e entender-se com os chefes que por acaso lhe es- 
tavão próximos, permittiu alguma folga aos animaes de carga, e se 
dirigiu a Canindé e Baturité, donde regressou á capital pela estrada 
de Acarape e Pacatuba. 

Chegou á Fortaleza a 3 de Março, depois de percorrido o espaço de 
mais de 160 léguas, e d'aqui continuou nas suas herborisações pelos 
taboleiros, serras de Maranguape e Aratanha, em quanto aguardava 
o regresso das mais secções. 

ODr. Capanema, partindo pouco depois, em Novembro de 1860. 
psrcorreu a Uruburetama, onde cahiu enfermo pela quarta ou quinta 
vez depois da sua chegada ao Ceará, e ainda convalescente visitou 
a lagoa do Ripina, celebre pelos seus fosseis, passou a Mundahú. a 
Sobral, donde foi examinar as aguas thermaes da fonte do Page, e 
por fim a fértil serra da Meruoca. 

Por esse tempo, porém, e já antes disso a sua secção se achava 
sem ajudante, porque por aviso de 13 de Novembro de 1860 o go- 
verno imperial declarara não poder ter lugar o contracto feito com 
Numa Pompilio.de Loyola e Sá, por não haver margem na lei dó 



PARTE HISTÓRICA LXXXV 

orçamento então vigente para despezas extraordinárias. Gomtudo esse 
ajudante não occupava nenhum lugar novamente creado, e bem que 
por falta de conhecimentos não pudesse substituir ao adjunto, o 
Dr. Coutinho, desempenhava um mister indispensável nas circum- 
stancias difficeis em que se via a secção geológica, que achava nelle 
um recurso que poderia ser precioso, e que o remunerava com venci- 
mentos reduzidos. 

O Dr. Gapanema despediu portanto o seu ajudante ; mas isolado 
como se achava, viu-se obrigado a modificar também o seu plano 
de viagem, ecommunicou não poder d'ahi em diante executar tra- 
balho algum de exploração, cifrando-se o que podia fazer a uma 
simples excursão de reconhecimento, e isso o mais rapidamente que 
pudesse , por uma pequena parte da Serra-Grande. Á vista desta 
exposição, o governo imperial, por aviso de 19 de Fevereiro de 1861, 
tomando novo accôrdo, autorisava a contractar Numa Pompilio para 
acompanhar a secção geológica ; esse aviso porém só pôde chegar ás 
mãos do presidente da commissão em Março seguinte, e quando a 
commissão não estava mais nem com animo, nem em condições de 
poder continuar, e quando por outro lado a secção geológica acabava 
de ser victima de outros embaraços, que tornavão inútil este novo e 
agora extemporâneo favor do governo. 

Frustrado o seu plano de exploração na serra da Ibiapaba e via- 
gem que projectara ao Piauhy, vendo-se por falta de ajudante for- 
çado a attender a todos os detalhes do material da secção, sem quasi 
lhe ficar tempo para se occupar de outra cousa, dirigiu-se para a 
Granja. 

Já tinhão por este tempo começado as chuvas, estação em que os 
rios da provincia se transformão em torrentes : e elle, pela expe- 
riência adquirida na sua volta do Crato, não querendo nem que o 
comboi soffresse demora, nem arriscar a sua bagagem e papeis em 
uma viagem enfadonha, e que no inverno não é de todo isenta de 
perigo, resolveu deixal-a entregue a um negociante, incumbindo-o 
de remettel-a com toda a segurança ; o que este fez, mandando-a 
como melhor acondicionada em um hiate que do porto da Granja 

C 9. (12) 



LXXXV1 PARTE HISTÓRICA 

seguia derrota para o da Fortaleza, e no qual, tempos antes, a secção 
astronómica tinha, não sem risco, emprehendido alguns trabalhos. 

Effectuado o embarque de seus effeitos e dos de sua secção , o 
l)r. Capanema, determinado a fazer, como promettêra, uma rápida 
excursão pelaSerra-Grande, seguiu de Sobral em companhia do chefe 
da secção zoológica. Visitarão Iboassú, as minas de cobre do Bary, 
Villa-Viçosa , a gruta do Ubajarra , e passando por S. Benedicto 
e Campo-Grande descerão pelo Ipú , examinando o lugar donde, 
segundo é voz, se havião extrahido galenas argentiferas ; mas o rigor 
do inverno , a rapidez da sua marcha, a estreiteza dos meios da sua 
secção, não lhe permittião nenhuma exploração séria, e, como con- 
vinha, demorada. Além das mencionadas, não pôde também verificar 
as minas de Villa-Nóva de sulphuretos de antimonio e de zinco, de 
molybdato e phosphato de chumbo, as de ouro de Jure e Santa Maria, 
os fosseis da lagoa da Ripina, e tantas outras curiosidades ou precio- 
sidades de que abunda o norte daquella provincia, e de que já havião 
amostras no museu nacional. 

Regressou emfim á capital, e ahi, como se tudo se houvesse cons- 
pirado para lhe sahir ao revez, soube que o hiate Palpite, no qual 
se havia embarcado o seu trem, naufragara, segundo se suppõe, a 
13 de Março, salvando-se apenas a tripolação em uma lancha. As 
providencias tomadas pela presidência da provincia, a pedido da 
commissão, forão infructiferas, restando só a esta lastimar a irrepa- 
rável- perda dos importantes papeis da secção geológica. 

Ill mo e Ex m0 Sr. — Tendo-me chegado a noticia de que se perdera 
no dia 13 do mez passado o hiate Palpite, no qual vinha a maior parte 
da bagagem do chefe da secção mineralógica da commissão scienti- 
fica, Guilherme Schúch de Capanema, que a havia deixado na Granja 
para ser remettida para esta capital, e não constando como, nem onde 
se fez este naufrágio, e nem se se salvou alguma cousa ou se haverá 
possibilidade de salvar-se ; vou rogar a V. Ex. que se sirva dar as 
providencias que julgar necessárias para que as autoridades locaes 
procurem salvar, se fòr possível, essa bagagem, pois nellase achavão 



PARTE HISTÓRICA LXXXVII 

objectos de subido valor para a commissão, como são livros e registros 
das observações feitas no interior da provincia. 

Reitero a V. Ex. os protestos da minha estima e consideração. 

Deos guarde a t. Ex. — Ceará, 4 de Abril de 1861 . 

IU m0 e Ex m0 Sr. António Marcellino Nunes Gonçalves, presidente 
da provincia. 

Francisco Freire Allemão, presidente da commissão. 

N. 4.° Palácio do governo do Ceará, em 6 de Abril de 1861. 
Ill m0 e Ex m0 Sr. — Pelo officio junto por cópia, que me acaba de 
dirigir o capitão do porto, verá V. Ex. as providencias que forão dadas 
com o fim de salvar-se a bagagem do Dr. Guilherme Schúch de 
Capanema, chefe da secção mineralógica, que perdeu-se em o hiate 
Palpite, como V. Ex. reclama em officio de 4 do corrente. 

Reitero a V. Ex. os protestos da minha estima e consideração. 

Deos guarde a V. Ex. 

Ill m0 e Ex m * Sr. conselheiro Francisco Freire Allemão, presidente 
da commissão. 

presidente, António Marcellino Nunes Gonçalves. 
Communicação a que se refere o officio supra. 

lll m0 e Ex m0 Sr. — Em virtude da ordem de V. Ex. em officio de 
hontem, acompanhando o do Sr. presidente da commissão scientifica, 
e que recebi pelas seis horas da tarde, dirigi-me logo á casa commer- 
cial de Pacheco & Mendes, proprietários do hiate Palpite, e ahi fui 
informado que havia noticia, por carta que receberão de um indivi- 
duo da Granja, de ter naufragado aquelle hiate no dia 13 do mez 
passado, e que se tinha salvado a tripolação em uma canoa, aportando 



LXXXVlll PAUTE HISTÓRICA 

allinodiao; não constando como nem onde se fez este naufrágio, 
nem se salvou-se alguma cousa do seu carregamento. 

Dando portanto as providencias por V. Ex. recommendadas, fiz 
immediatamente seguir a jangada do serviço desta capitania, como 
pratico João Gomes Bastos, e quatro praças de sua tripolacão, deter- 
minando-lhe que fosse até o porto da Granja, tocando nos portos in- 
termediários, afim de que, procurando obter noticias onde se deu 
o naufrágio, empregasse a maior diligencia na salvação do mesmo 
hiate e da bagagem do Sr. Dr. Capanema, chefe da secção mi- 
neralógica da commissão scientifica, e mais objectos de subido valor 
pertencentes á mesma commissão, que vinhão a bordo, conforme se vê 
daquelle citado officio. 

E porque semelhante trabalho dependesse da necessária coadju- 
vação, ordenei aos capatazes das respectivas estações que prestassem 
ao referido pratico todo e qualquer auxilio para o melhor desempenho 
do serviço de que o encarreguei. 

Reconhecendo-se quanto são diminutos os vencimentos que per- 
cebem as praças no serviço desta capitania, e por cuja razão vivem na 
maior penúria, tive de fornecer aos cinco individuos, que seguirão 
na jangada, carne sêcca, farinha e dinheiro, perfazendo tudo a quan- 
tia de cincoenta mil réis, a qual rogo a V . Ex. se sirva de dar as suas 
ordens para me ser indemnisada pela repartição competente. 

Deos guarde a V. Ex. Capitania do porto do Ceará, 7 de Abril 
de 1861. 

Ill mo e E m0 Sr. Dr. António Marcellino Nunes Gonçalves, presidente 
da província, 

Rodrigo José Ferreira, 
capitão do porto. 

Conforme. — Senival Odoricn de Moura. 



PARTE HISTÓRICA LXXXIX 



Em meiados de Abril de 1861 achavão-se reunidos na cidade da 
Fortaleza as quatro secções que andavão na província; a deliberação 
não foi longa: a^)mmissão deixara de estar em condições de tra- 
balho. EntendemW porém dever trasladar as communicações officiaes 
entre a commissão e o governo imperial, porque em outras sobre o 
mesmo assumpto, sem duvida por brevidade do expediente, seomittia 
uma circumstancia, que aliás não era indifferente : — o pedido da 
commissão para ser chamada á corte. 

Eis a representação da commissão com o aviso que teve em resposta 
do governo imperial : 

Ill mo e E mo Sr.— E do meu dever participara V. Ex., afim de que 
se digne fazer chegar ao alto conhecimento de Sua Magestade o Impe- 
rador, que só hontem se puderão reunir nesta capital as differentes 
secções da commissão scientifica, que se achavão dispersas pelo inte- 
rior da província; e em virtude do art. 22 das nossas instrucções pas- 
sámos a consultar sobre o destino da commissão, expondo os respecti- 
vos chefes o seguinte : 

As secções botânica e zoológica tem percorrido toda a província 
e feito as suas collecções da melhor maneira que lhes foi possível, 
faltando somente a esta ultima estudar a ichthyologia do íittoral, da 
qual se vai occupar agora, trabalho em que poderá gastar de dous a 
três mezes. 

As secções astronómica e geológica não tem os seus trabalhos 
completos, e para isso necessitão ainda, não só de tempo, mastanv 
bem de reformar o seu pessoal, e entender-se nessa corte com o 
governo imperial sobre os meios mais adequados de levar ao cabo a 
sua tarefa. 

Quanto á secção ethnographica, V. Ex. sabe que o chefe se acha 
actualmente explorando as províncias do Paráe Amazonas, para 
onde seguiu em Agosto do anno próximo findo, visto esta província 
não lhe offerecer a matéria mais importante dos estudos que lhe forão 
encarregados. 

Attento o exposto, se o governo de Sua Magestade o Imperador 



xc PARTE HISTÓRICA 

mandar que a commissão continue, será conveniente que os chefes 
de secção sejão autorisados para irem á corte fazer uma exposição do 
estado de seus trabalhos, e dos meios de que carecem para ultimal-os. 
O governo imperial resolverá como melhor enten^T 

Reitero por esta occasiãoaV. Ex. os protestos da minha perfeita 
estima e subida consideração. 

... Deos guarde a V.Ex. Ceará, 13 de Abril de 1861.— lll m0 eEx m "Sr. 
ministro e secretario de estado dos negócios do Império. —Francisco 
Freire Allemão, presidente da commissão. 

4. a Secção.— Ministério dos negócios do Império.— Rio de Janeiro, 
em 10 de Maio de 1861. 

Communica V. S. em seuofficio de 13 de Abril ultimo, que no 
dia precedente, tendo-se reunido nessa capital as differentes secções 
da commissão scientifica, constou da exposição dos respectivos chefes 
que a secção botânica já tinha feito as suas collecções, que á zoo- 
lógica ainda faltava estudar a ichthyologia do littoral, que a astro- 
nómica e geológica não tinhão ainda completado os seus trabalhos, 
epara isso necessitavão não só de tempo, mas também de reformar 
o seu pessoal; e finalmente que a secção ethnographica estava actual- 
mente explorando as provincias do Pará e Amazonas, onde se achava 
a. matéria mais importante dos estudos que lhe forão incumbidos. 
E attento o exposto, consulta V. S. ao governo imperial se a com- 
missão deve continuar, em cujo caso será conveniente que os chefes 
das secções sejão autorisados para virem á corte fazer uma exposição 
doestado de seus trabalhos, e tratar dos meios de que careção para 
ultimal-os. 

Em resposta tenho de declarar a V. S. que o governo imperial julga 
que nas circumstancias actuaes a commissão não deve continuar; 
porém regressar á jcôrte, onde e depois de se entender ella com o 
mesmo governo se assentará na conveniência de modificar o pessoal 
para completar os seus trabalhos, se fôr julgada necessária a sua con- 
tinuação. 

Cumpre pois que V. S. faça entrega ao presidente dessa provincia 



PARTE HISTÓRICA X CI 

de todo o material do uso da commissão, e se entenda com elle acerca 
dos meios de ficar bem guardado, afim de que, no caso de continuar 
ella mais tarde, Seja aproveitado tudo quanto existe. Previno outro- 
sun a V. S. que nesta data. solicito do ministério de agricultura, com- 
mercio e obras publicas, a expedição das convenientes ordens para que 
se dê passagem de estado com comedorias, ou por conta do governo, 
aos membros da commissão para o seu regresso ao Rio de Janeiro. 

Deos guarde a V.. S:—José António Saraiva.— Sr. presidente da 
commissão scientifica de exploração. 

O presidente do Ceará, baseando-se no aviso que lhe fora dirigido, 
escrevia, como foi publicado no expediente do governo da provincia : 

N. 7.— Palácio do governo do Ceará, em 5 de Junho de 1861. 

IH mo eE mo Sr.— RemettoaV. Ex., para os fins convenientes, o aviso 
do ministério do império de 10 do mez próximo passado, declarando 
que nas actuaescircumstancias a commissão scientifica não deve con- 
tinuar nesta provincia, devendo regressar para a corte. 

Renovo a V. Ex. os protestos de minha estima e distincta consi- 
deração. 

Deos guarde a V. Ex. — Ill m0 e Ex m0 Sr. conselheiro Francisco Freire 
Allemão, presidente da commissão scientifica nesta provincia. — 

Manoel António Duarte de Azevedo. 

O conselheiro Freire Allemão, apenas recebeu esta ordem do go- 
verno imperial, officiou aos chefes de secção que se recolhessem com 
toda a brevidade á capital da provincia, afim de regressarem para a 
corte. Entregou por ordem que para isso teve do presidente da pro- 
víncia, o Sr. Manoel António Duarte de Azevedo, 91 animaes desella 
e carga do serviço da commissão, e aos Srs. engenheiros Berthot e 
José Eduardo Barbosa todo o seu importante material; e no dia 13 
de Julho de 1861 embarcou no paquete da companhia brasileira 
Cruzeiro do Sul, tendo tido pouco mais de dous annos e meio de 
demora na sua exploração. 



RELATÓRIOS DOS MEMBROS Dl COMMISSAO 



LIDOS NO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAPHICO BRASILEIRO 



Secção botânica. 



Senhores. —Tendo eu hoje, na qualidade de chefe da secção 
de botânica da commissão scientifica, de dar conta do como aquella 
se houve no desempenho do seu encargo, desejaria poder fazei -o de 
uma maneira satisfactoria : o estado porém de suas collecções, que 
ainda se não puderão distribuir e classificar até o ponto de saber-se 
que numero de espécies encerrão, nem o que poderão offerecer de 
novo á sciencia, e juntamente o desordenado de suas notas me inhabi- 
lita para isso. Limito-me portanto nesta occasião a uma exposição 
succinta do itinerário da secção, e a fazer algumas considerações 
geraes sobre a vegetação e industria agricola da província. 

Fallando das plantas, abster-me-hei de todo o apparato da nomen- 
clatura scientifica, e me conservarei na altura das generalidades para 
não causar enfado. 

Será pois este meu escripto de minimo interesse, e carecido de 
verdadeiro valor scientifico ; mas ha de servir, creio eu, para mos- 
trar que se não tivermos a fortuna de apresentar resultados, que bem 
correspondão ás vistas do Instituto e do Governo, puzemos ao menos 
diligencia para os conseguir. 

E eu ficarei contente se durante a sua leitura não desmerecer 
vossa attenção e benevolência. 



XC ,V RELATÓRIO 

PRIMEIRA PARTE 
Itinerário. 

Sahindo a commissão deste porto em 26 de Janeiro de 1859 , com 
prospera viagem amanheceu no dia 4 de Fevereiro em frente da 
cidade da Fortaleza. Nesse dia desembarcámos debaixo de repetidas 
pancadas de agua. Erão as primeiras chuvas do anno. E no Ceará, 
como nas outras provincias que estão em idênticas condições, é um 
dia jubiloso o em que voltão as chuvas depois de haverem cessado 
por seis e sete mezes. São a esperança do criador e do lavrador. 

aspecto risonho do paiz nos encheu de contentamento, e admi- 
rados contemplávamos o verdor de sua vegetação , por quanto na 
Bahia e Pernambuco havíamos notado que as plantas se resentião 
bastante da sêcca que reinava por todo o norte . e estava já dando 
sérios cuidados. 

Até Julho, em quanto durava o inverno, e em quanto não chegavão 
do sertão os animaes para transporte da bagagem, nos detivemos na 
capital, empregando o tempo no exame de seus arredores. As secções 
separadas ou unidas, segundo permittia a natureza de seus estudos, 
fizerão excursões pela terra dentro, na distancia de cinco e seis léguas 

da cidade. 

A secção de botânica fez varias subidas á serra da Aratanha, e 
a outras de menor importância. Era tempo da florescência , e pu- 
demos colher bons exemplares de grande numero de espécies , os 
quaes convenientemente preparados forão mettidos em caixas de folha 
de Flandres, soldadas e revestidas de madeira. Deste modo acon- 
dicionados, estes como os mais que se forão colhendo chegarão 
ao Rio de Janeiro em muito bom estado. 

Approximava-se o tempo da entrada no sertão, e, segundo as nossas 
instrucções, a commissão devia andar toda junta pelo interior da 
província. Quando porém fomos informados das circumstancias do 



DA SECÇÃO BOTÂNICA XCV 

paiz, reconhecemos que era isso impraticável, ou ao menos pouco 
prudente, visto principalmente o grande numero de animaes de carga 
e de sella que levávamos, os quaes devião não só entorpecer os 
nossos movimentos, mas até pôr-nos muitas vezes em grandes em- 
baraços pela falta de pastos e de outros meios de alimentação. Demais 
as secções occupadas, cada uma em estudos diversos, ver-se-hião fre- 
quentemente forçadas a seguirem rumos menos convenientes a seu 
melhor aproveitamento , e a perderem tempo esperando umas pelas 
outras. Assim , ponderado o negocio , assentámos em o trazer ao 
conhecimento do governo imperial, que attendendo ás nossas ra- 
zões, permittiu-nos andar separados ou juntos, como mais conviesse. 
Então se concordou em que andassem juntas as secções de zoolo- 
gia e de botânica, as de mineralogia e de ethnographia , e a de 
geographia e astronomia ella só, visto que era em tudo mais nu- 
merosa que as outras. 

Concluídos os aprestos de viagem, em 16 de Agosto sahimos da 
cidade da Fortaleza, as secções de zoologia e de botânica, com des- 
tino á cidade de Aracaty, onde chegámos em 27 do mesmo mez, 
achando já ahi o Dr. Manoel Freire Allemão , adjunto da secção de 
botânica, que com o adjunto da secção de zoologia havia partido 
alguns dias antes de nós, tomando caminhos um pouco diversos. 

Esta viagem avaliada em 30 léguas, feita pelos taboleiros arenosos 
do littoral, offereceu-nos minguada colheita, por ser a sua vegetação 
mui análoga á das vizinhanças da capital. Em Aracaty nos demo- 
rámos vinte e três dias, que forão dados a explorações pelas cercanias, 
merecendo-nos particular attenção os vastos cômoros de arèa á borda 
do mar, que nos apresentavão uma flora variada. 

E o solo em que assenta a cidade de Aracaty formado pelas allu- 
viões da gigantesca torrente denominada Jaguaribe, e tem uma vege- 
tação de transição entre as regiões do littoral e do sertão; alguns 
montes ahi se levantão soltos e raros, que são antes penhascos amon- 
toados e fragosos, e a que a gente do paiz chama — serrotes — , sobre 
os quaes apenas medra uma vegetação escassa e entesada. Aqui 
pois começávamos a familiarisar-nos com a natureza do sertão. 



XGVI RELATÓRIO 

Em meiado de Setembro nos internámos, seguindo as ribeiras do 
Jaguaribe até Icó, e as do Salgado até Missão Velha, donde entrámos 
nos Cariris, fazendo caminho de 80 léguas, pelo computo dos habi- 
tantes. 

Foi esta viagem no rigor da sêcca; os leitos dos rios erão largos 
areaes ; as matas estavão desfolhadas, e os pastos torrados ; mas em 
meio desta paisagem entristecida sobresahião algumas arvores, que 
a Providencia quiz que nunca se despojassem de suas folhas, e que 
fossem abrigo a toda a sorte de viventes. Taes são a oiticica, a 
marizeira, o joazeiro, etc. Mais notáveis se faziao outras que, abra- 
sadas pelos estos de Setembro, ainda sem folhas adornavão-se de 
vistosas flores. Estas erão as caraúbas, os pereiros, os mulungús, etc. 

Emfim são as amplas margens do Jaguaribe, n'um tracto de 25 
léguas mais ou menos, cobertas de verdadeiras florestas de carnaúbas, 
que sempre verdes alegrão aquellas paragens. Em 7 de Outubro 
estávamos no Icó, bonita cidade do sertão. Nella estivemos uns quarenta 
dias, que forão empregados no estudo das plantas sertanejas, que 
aqui, como na villa de Lavras da Mangabeira, onde gastámos doze 
dias, se nos offerecêrão em grande parte floridas. 

Deixámos a villa de Lavras em 3 de Dezembro, e no dia 8 entrámos 
no Crato. Estávamos nos celebres Cariris, verdadeiro oásis em meio 
daquelles desertos , e tínhamos á vista o monte Araripe, de notável 
formação : em cima é uma larga e nivelada planura sêcca, mas to- 
davia revestida de uma vegetação especial , e com pastagens que se 
denominão — agrestes — ; seus flancos sinuosos, corroídos, escarpa- 
dos, são chamados talhados: destes brotão jorros de agua limpida e 
perenne, que refrescão os contornos daquelle monte, impropriamente 
denominado serra. São essas aguas que mantém alli, em uma cinta 
de duas a três léguas de largura, uma vegetação luxuriante, e a 
admirável fertilidade desse abençoado torrão. 

Erão os Cariris, nos tempos primitivos, sombreados de alterosas 
matas, de que hoje alguns restos estão mostrando o que já forão. 

Em quanto o adjunto da secção ia colhendo e estudando as plantas 
do alto do Araripe, de seus talhados, e dos outeiros de roda da cidade, 



DA SECÇÃO BOTÂNICA XCVII 

eu e o chefe da secção de zoologia fizemos, em fins de Janeiro de 
1860, uma excursão ao Exú, através do Araripe. Vista aquella parte 
dos sertões de Pernambuco, seguimos para a vi lia do Jardim, onde 
nos separámos, e eu voltei para o Grato, passando pela villa da Bar- 
balha, tendo feito um gyro de cerca de 40 léguas. 

Era 4 de Fevereiro, havia já começado o tempo chuvoso, prose- 
guiamos no estudo da Flora destes lugares, e uma progressiva flores- 
cência ia enriquecendo o nosso hervario. O clima porém do Crato 
me não convinha, e, sempre mais ou menos adoentado nos tresme- 
zes da minha estada alli, me vi obrigado a deixal-o 

Em 8 de Março, separando-me dos meus companheiros, parti da- 
quella cidade, entregando-me a todas as contingências do inverno, 
em estado de saúde mal seguro. Desci ao Icó, e d'ahi tomando ca- 
minho mais curto, por veredas e travessias, cheguei á capital em 21 
de Abril. Com uma viagem de 70 a 80 léguas, feita a pequenas jor- 
nadas, por péssimos caminhos, passando rios então caudalosos, apa- 
nhando copiosos chuveiros, cheguei todavia quasi restabelecido. Tal 
é a salubridade daquelles sertões! 

Negocio urgente me chamava ao Rio de Janeiro, e obtida uma li- 
cença de dous mezes, sahí do Ceará em fins de Junho, e em prin- 
cípios de Setembro estava alli de volta. O meu adjunto, que eu havia 
deixado no Crato com a secção de zoologia, achava-se nesse tempo 
em Baturité ; e sabendo da minha volta, desceu logo para onde eu 
estava, e apresentou-me a seguinte narração de sua viagem do Crato 
até Baturité: 

« Em 1860, no decurso do mez de Março e da primeira quinzena 
« de Abril, visitei differentes sítios da vasta mata, que cobre a parte 
« central e levemente deprimida da chapada do Araripe. Essas matas 
« são bem inferiores, em vulto e em variedade de componentes, ás que 
« revestem as encostas da serra, de onde nascem os arroios perennes 
« dos Cariris, e que são denominadas matas virgens das nascenças. 

« Nas da chapada eleva-se pouco o arvoredo, e baixa quasi ao porte 
« do das catingas : em geral são os troncos de reduzida grossura, como 
« nas matas de substituição que se chamão caapoêras no sul do Ira- 
c. s. 13 



XCVIII RELATÓRIO 

<( perio ; e a variedade de plantas ésubstituida pela continua repetição 
« de indivíduos das mesmas espécies, predominando as denominadas 
« batingas, uma das quaes fornece excellente material de construcçâo. 
« Esta forma de vegetação é transitiva entre a de catingas e a das matas 
« virgens propriamente ditas, que os autocthones chamavão caa-eté. 

« Encontrão-se sitios botânicos da mesma natureza, fora dacha- 
« pada do Araripe, nos terrenos baixos e arenosos do Cariú, no alto 
« das serras psammiticas do sertão do Assaré, e na segunda zona de ve- 
« getação da Ibiapaba. 

« Depois de completar a collecção botânica dos Carirís com a 
« acquisição de amostras das gramineas do Araripe, e dos ypús ou 
« brejos, pela maior parte então floradas, no meiado de Abril parti da 
« cidade do Crato para o sertão dos Inhamuns. Nesta viagem, em que 
« acompanhei os membros da secção zoológica, atravessei o sertão do 
« Cariú, derivado esse nome do rio que o fertilisa, segundo o costume 
« de repartirem os sertanejos naturalmente a província em tantas 
« ribeiras, quantas são as que percorrem valles mais ou menos bem 
« limitados. 

« Demorámo-nos alguns dias na povoação mais importante do 
« Cariú, a do Assaré, a 20 léguas do Crato : e visitei então as serras 
« próximas do Piripirí, SanfAnna, e Araçás. A citada povoação é sede 
« da matriz de uma freguezia bastante populosa eproductiva. Possue 
« bellos terrenos de cultura e excellenles catingas ou taboleiros pro- 
« prios para criação, pelo modo por que essas industrias se exercem no 
« Brasil. E' cortada por grande numero de rios, cujas margens alar- 
« gão-se em prolongados baixios revestidos de viçoso arvoredo, e cujo 
«chão arenoso, mais ou menos fresco, éprestavel á cultura estival 
« denominada de vasantes. Muitas arvores, que vegetão por essas lezi- 
«rias, dão excellentes productos de forragem, e constituem o único 
« recurso do criador na falta dos pastos naturaes. 

« No começo de Maio sahimos do Assaré,. e depois de atravessarmos 
« o fértil valle dos Bastiões, percorrido pelo rio da mesma denomina- 
« ção que desagua no Cariú, entrámos no sertão do Saboeiro. A villa 
« do Saboeiro, sita á margem esquerda do Jaguaribe, é sede da matriz, 



DA SECÇÃO BOTÂNICA XCIX 

« e cabeça de uma das comarcas mais ricas do Ceará. Havião até então 
o sido tão escassas as chuvas semestraes que o rio não corria. Vestido 
«de catingas em quasi toda a sua extensão, árido e sêcco, o terreno 
« deste sertão está quanto á possibilidade de fácil cultura em condições 
« bem diversas das da ribeira do Cariú, ou sertão do Assaré, em que se 
« encontrão frequentemente fechados baixios. Por isso só é exequível 
« aqui a cultura estival de vasantes nos depósitos frescos de areisco do 
« leito do Jaguaribe. 

« Perto da villa do Saboeiro o leito do rio é profundamente talhado 
« em pedra nua, e ahi se conserva agua por todo o verão. Nesses 
« depósitos, què chamão caldeirões, fazem-se grandes e frequentes 
« pescarias depois que o rio cessa de correr. 

« Do Saboeiro tomámos a estrada que sobe á margem do Jaguaribe 
« até á villa do Tauá. Chegámos a S. João do Principe em meiado de 
« Maio. Estava nos sertões de Inhamuns; e, contra minha expectativa, 
« as formas de vegetação, que já conhecia de observal-as nos sertões 
«delcó, Lavras, etc, não havião mudado: erão alguns taboleiros, 
« poucos baixios, e geralmente catingas em que abundava a estimulosa 
« Favella. 

« A's nascenças do Jucá e Puiú na Serra Grande, achão-se os rae- 
a lhores terrenos aráveis desta parte da provincia, que são de terra 
« alluvial, vestida da vegetação dos cobertos ou baixios. Fora desta 
« zona, que cinge a encosta da serra, só se encontrão catingas. 

« Parti logo de Tauá avisitar o sitio mais próximo da Serra Grande, 
« que limita por aquelle lado a provincia, e dirigí-me ás cabeceiras do 
«Puiú, que distavão da villa 18 léguas. Os talhados psammiticos da 
« serra tem alli pouca altura e são mal guarnecidos de vegetação : o 
« chão da serra é ondulado, com depressões em baixadas, em que 
« vição os batingaes, constituindo a mata de chapadas; e em todos os 
« mais sitios coberto de carrascos, que já se mostravão mais ou menos 
«*resequidos. As terras alli são lavradas exclusivamente para a cultura 
« da maniva, cujo producto é custoso ; pois que a falta de aguas nativas 
« no alto da serra impede que os cultivadores erijão as suas habitações 
« e fabricas nos mesmos sitios em que cultivão. A chapada da serra 



G • RELATÓRIO 

« é pois completamente deshabitada. A pedra, que constitue os ta- 
« lhados da serra, cava-se pela base em lapas onde ha nascença de 
« agua potável, ou em grutas semelhantes ás que forão visitadas pela 
«secção geológica nos Cari ris. Não ha porém arroios perennes nestes 
« sitios. 

« De volta a Tauá parti para Baturité, separando-me então do pes- 
te soai da secção zoológica. Na raia dos Inhamuns desci a serra dos 
« Guaribas, que separa aquelle do sertão de Mombaça, formando ao 
« primeiro uma sorte de socalco natural, do que resulta ser o seu nivel 
« médio mui superior ao do outro. As ricas matas das serras dos 
« Guaribas estão já mui taladas pelos plantadores dos Inhamuns, 
« que constituem a maioria de seus possessores. Nos seus terrenos se 
« fazem as grandes plantações vernaes de legumes, de cujos produetos 
« vêm-se aperceber annualmente todos os criadores daquelle sertão. 
« São ainda mui ricas as matas da serra em bálsamos, copahibas, 
«jatobás, jacarandás ou violetes, etc. 

«A' descida desta serra entrámos no sertão de Mombaça, que é todo 
« revestido dessa forma de vegetação denominada de cobertos, ou matas 
« de cobertos. Estas matas de Mombaça, onde abundão a rabugem, o 
« violete, o páo branco cerneiro, etc, são semelhantes ás que se en- 
« contrão nas proximidades das serras de outras partes da provincia. 
«Todo o terreno, que ellas vestem, é facilmente cultivável. A canna, 
« de introducção recente nos sertões, occupaalli em sua cultura grande 
« numero de braços: é plantada ordinariamente nas revencias dos açu- 
« des, em cujas bordas frescas vegetão larangeiras, coqueiros, bana- 
« neiras, etc. Muito menos coberto que o precedente, raleado por 
« taboleiros, em que se formão todos os annos abundantes prados 
« naturaes, o sertão de Quixeramobim é, como o de Riacho do Sangue, 
« quasi exclusivamente criador. As suas melhores matas guarnecem 
« as bases de serros pouco elevados. Ambos estes sertões pertencem á 
« vasta zona dos Pdos brancos, que abrange mais da metade da 
« provincia. 

«Continuei de Quixeramobim a minha viagem até á serra de Ba- 
« turité, onde cheguei em um dos primeiros dias de Junho. Ahi me 



DA SECÇÃO BOTÂNICA Cl 

« demorei até Agosto empregando esse tempo em visitar as quebradas 
« da serra, e os seus elevados e selvosos cimos, que alimentão hoje 
« uma população laboriosa, e as matas de coberto das suas abas, sitio 
« emque se acha plantada a florescente cidade de Baturité. D'aqui fiz 
« uma viagem de exploração ao sertão de Intans, a 10 léguas mais ou 
« menos, cujo terreno ondulado é de vegetação toda carrasquenha : e 
«uma segunda á Serra Azul, a 18 léguas, na qual tem suas nascenças 
« o rio Pirangí . Como as de Baturité, Uruburetama, Machado eMattas, 
« a Serra Azul é nas partes elevadas coberta de floresta virgem, que 
« reverdece, por brotamento, de Setembro a Outubro, no entanto que 
« as de suas encostas pedregosas e áridas estão resequidas nessa época, 
« como os sitios do sertão. 

€« Em Agosto parti para a Fortaleza. 

« Manoel Freire Allernão, adjunto da secção de botânica. » 

Algumas contrariedades retardavão os preparativos da segunda 
entrada no sertão, em direcção á Serra-Grande 5 e como a secção de 
botânica se achasse primeiro que as outras em circurnstancias de 
emprehender a viagem, sahiu ella só da cidade daFortezela no dia 9 
de Outubro de 1860. Desejando visitar a serra de Uruburetama, para 
alli nos encaminhámos fazendo um pequeno rodeio, e atravessando 
os sertões aridissimos daquella parte da provincia ganhámos as 
alturas da serra desejada, o que nos deu refrigério e descanso. 
Três dias passámos na antiga villa de Santa Cruz , hoje povoação 
decadente, fazendo herborisações. Descemos depois para a villa de 
S. Francisco, situada na fralda da mesma serra, e no dia seguinte 
continuámos nossa viagem através do valle do Aracaty-Assú, sertão 
sècco, quentissimo, e de aguas salobras, e parámos na villa do lpú, 
em baixo da Serra-Grande. 

O que no lpú ha digno de ver-se é a cascata, que alli forma o peque- 
no rio Puçaba, que, lançando-se do tope da serra, quando engrossa- 
do pelas chuvas, dá um panno de agua estreito, mas de 600 palmos 
de altura ; agora porém que o vimos em tempo sêcco, formava apenas 
uma chuva, que o vento dissipava em meio caminho. São as aguas 



Cji RELATÓRIO 

deste ribeiro, sempre constantes, que entretém uma bemíàzeja hu- 
midade nestes sítios, dando-lhes continua verdura e fecundidade 

incansável. 

Seis dias aqui consumimos em herborisacões e outros estudos : e 
em 31 de Outubro subimos a Serra-Grande por urna escabrosa la- 
deira, como são todas as deste lado da serra. 

O nome de Serra-Grcmde havia creado em minha phantasia a ima- 
gem de uma serrania alterosa e revestida de magestosas matas : 
acendia-se-me o desejo de a ver, e para ella caminhava com certa 
sofreguidão ; mas todo esse alvoroço acalmou apenas a avistei de longe 
rasa como o Apodí e Araripe. Seus bosques, de que já não resta senão 
a lembrança, dizem que forão ricos em óptimas madeiras. nosso 
modo bárbaro de cultivar a terra deu cabo de tudo. A temperatura 
subiu, as aguas diminuirão, e os effeitos das sèccas já alli se fazem 

sentir. 

Viajámos por cima da serra, passando pelas povoações de Umpo- 
Grande, S. Benedicto, e S. Pedro, demorando-nos em cada um desses 
lugares o tempo que nos era indispensável para estudar a sua vegeta- 
ção. De S. Pedro descemos ao sertão para vermos a gruta da Ubajarra. 
Em o I o de Dezembro entrámos em Villa-Viçosa, antiga missão da 
lbiapaba, fundada pelos religiosos da Companhia de Jesus. Esta villa. 
que mostra irem caminho de prosperidade, está. lindamente assen- 
tada sobre uma sorte de socalco da serra, que aqui toma um aspecto 
montuoso e severo, e permitte estender os olhos pela amplidão dos 
sertões. Na pintura destes lugares se exerceu também a penna de ouro 
do padre António Vieira. « Da altura destas serras, disse elle, não 
«se pode dizer cousa certa, mais que são altíssimas, e que se sobe, 
« ás que o permittem , com maior trabalho da respiração que dos 
« mesmos pés e mãos, de que é forçoso usar em muitas partes. Mas 
« depois que se chega ao alto delias pagão muito bem o trabalho da 
« subida, mostrando aos olhos um dos mais formosos painéis, que por 
aventura pintou a natureza em outra parte do mundo, variando de 
« montes, valles, rochedos, e picos, bosques e campinas dilatadis- 
« sirnas, e dos longes do mar no extremo dos horizontes. » 



DA SECÇÃO BOTÂNICA C III 

O montuoso da paisagem, a amenidade do clima , as trovoadas 
entrei e 3 horas da tarde, tudo nos lembrava o Rio de Janeiro. 

Estivemos nesta villa quasi lodo o mez de Dezembro, herborisando 
por suas circunvizinhanças e pelos altos da serra : fizemos mesmo 
d'ahi uma excursão até traspassar as fronteiras do Piauhy. 

Em 29 de Dezembro descemos de Villa-Viçosa , dirigindo-nos 
para a serra daMeruoca, que subimos em 2 de Janeiro de 1861. Uma 
grande parte desta serra é admiravelmente apropriada para a plan- 
tação da mandioca, que a faz um celleiro daquelles sertões ; em outra 
cultivão o algodão ; certos lugares produzem o café ; os géneros ali- 
mentícios vem por toda a parte. Suas matas primitivas forão de todo 
destruidas. O clima é assas fresco e salubre. Na pobríssima povoa- 
ção do mesmo nome estivemos seis dias. As chuvas porém, que neste 
anno sorprenderão a lodos por antecipadas, nos incommodavão , e 
embaraçavão os nossos estudos , obrigando-nos a deixar esse lugar, 
que aliás nos ia oíferecendo abundante e variada colheita. 

De Meruoca nos despedimos em 9 de Janeiro, e nesse mesmo dia 
entrámos em Sobral, cidade que se pode chamar a pérola do sertão. 
Doze dias aqui passámos molestados pelos calores e tormentas da 
estação. De Sobral nos partimos em direitura a Baturité, indo em 
nossa companhia até a altura da serra do Page o chefe da secção de 
mineralogia. Andando rodeados de todos os inconvenientes da quadra 
invernosa, em 29 de Janeiro alcançámos Canindé, villasinha de aspecto 
risonho, á beira do rio que lhe deu o nome. Alli tomámos seis dias para 
descanso, principalmente dos cavallos, que tinhão de subir a serra de 
Baturité, cujo vulto grandioso estava á nossa vista. 

Em 5 de Fevereiro puzemo-nos em marcha, e no dia 6 estávamos 
em cima da serra, na insignificante povoação da Conceição. Três 
dias aqui se passarão, e mal aproveitados pela insistência das chuvas. 
Esta serra de Baturité, situada quasi no centro da província, é uma de 
suas preciosidades . Ar benigno, solo fértil e banhado por arroios de 
agua perenne. Soberbas matas formão seu manto de verdura, já hoje 
em grande parte substituídas por lavras de café, que é de excellente 
qualidade. 



CIV RELATÓRIO 

Descemos para a recente cidade de Baturité, antiga villa de Monte- 
Mór Novo, situada na raiz da serra, entre seus contrafortes, e que vai 
florescendo á sua sombra. O estudo da vegetação desses lugares nos 
reteve alli por dez dias. 

No dia 21 estávamos em Acarape, e em 22 em Pacatuba, donde nos 
recolhemos á capital da provincia dez dias depois, fechando um cir- 
culo de 160 léguas. Aqui proseguiamos no estudo das plantas dos ta- 
boleiros, em quanto esperávamos pelo regresso de outras secções, que 
andavão ainda pelo interior da provincia. E fizemos mais uma nova 
excursão pelas serras de Maranguape e Aratanha, donde nos retirámos 
definitivamente no dia 17 de Maio. 

Em 13 de Julho embarcou a commissão para o Rio de Janeiro. 

Antes de deixar esta parte corre-me o dever de manifestar que por 
toda a provincia fomos bem aceitos. Na choupana do pobre tivemos 
abrigo hospitaleiro; na habitação do rico acolhimento franco e cor- 
dial ; e na administração, desde os altos funccionarios até emprega- 
dos subalternos todo o auxilio ofíicial; e particularmente, aqui fallo 
por mim, obséquios e attenções, de que me confesso penhorado. 

SEGUNDA PARTE 



Vegetação 

Póde-se considerar na superfície do Ceará três regiões botânicas bem 
caracter isadas, a do littoral, a das serras, e a do sertão, as quaes com- 
prehendem subregiões, cujo estudo não é para agora. 

As condições que assim limitão e modificão a vegetação, aqui como 
em qualquer parte, são : a composição mineralógica do solo, sua con- 
figuração e relevo, a latitude do lugar, e altura do sitio sobre o nivel 
do mar, a abundância ou escassez das chuvas, etc. 

O Ceará, olhado por alto, offerece uma superficie rasa, largamente 
ondeada, semeada de montes e serrotes. Fecha-o no fundo a vasta 



DA SECÇÃO BOTÂNICA CV 

mole da Serra-Grande, que como um muro o separa do Piauhy e de 
Pernambuco ; e pelos lados da Parahyba e Rio-Grande do Norte limi- 
tão-no as serras do Camará e Apodí . Estas serras repartem entre as 
províncias confinantes as suas aguas, que, engrossadas na proporção 
das chuvas, escasseão e desapparecem quando aquellas faltão. 

Destituido de grandes serranias, que em seu ventre accumulem 
largos depósitos d'agua, o Geará não tem um só rio que valha esse 
nome. Durante a estação das chuvas, copiosas e diárias, borbulhão 
por toda a parte innumeras ribeiras, que juntando-se dão lugar a cau- 
dalosas e medonhas torrentes ; mas estas ao aceno do estio somem-se. 
Só pelas serras permanecem pequenos arroios, que apenas descem ás 
vargens são absorvidos . 

Referirei aqui um phenomeno providencial, que se passa nos gran- 
des rios do Ceará. Quando elles secção, deixão, como se prevê, de es- 
paço a espaço poços de tamanhos variáveis, cujas aguas são um grande 
recurso para o povo. Durão por muito tempo, e mesmo por toda a 
sêcca, se esta não excede os limites ordinários ; e não se corrompem 
por isso que de uns poços para outros inferiores se estabelece uma cor- 
rente occulta, e subarenosa, como já o havia notado o Dr. Pedro Thé- 
berge, distincto medico francez, que reside actualmente no Icó, e a 
quem eu com muni quei esta minha observação. E' esta corrente 
occulta' que dá agua por quasi todo o leito do rio , quando sêcco, 
íazendo-se-lhe pequenas excavações , que se chamão cacimbas. A 
agua destas cacimbas é má logo que se tira ; mas guardada em vaso 
de barro um ou dous dias, torna-se pura, fresca e excellente. Nos 
annos regulares as chuvas deixão as terras bastantemente embebidas, 
para nos seis ou sete mezes de sêcca alimentarem d'agua a todos os 
viventes animaes e vegetaes. 

Farei ainda aqui uma observação. No sertão as arvores largão as 
folhas, secção ; mas não morrem . E' que nesse solo árido e pedregoso 
não vivem senão as plantas, que por sua natureza podem passar > 
parte do anno sem folhas. A larangeira, o mesmo cafezeiro não vivem 
alli. Sem duvida que a nimia seccura do ar do sertão accelera a queda 
das folhas, e retarda o apparecimentode novas; mas quando isso não 

c.s. 14 



CVI RELATÓRIO 

fosse, as arvores que alli vivem não deixarião de despir-se. O phe- 
nomeno é o mesmo que se passa nos paizes frios, e o mesmo que aqui 
tem lugar no nosso inverno legitimo ou astronómico. 

JNos bons annos apparecem algumas chuvas vagas, incertas, nos me- 
zes de Outubro e Novembro, a que chamão chuvas de caju . Mas o ver- 
dadeiro inverno, ou mais propriamente a estação das chuvas, começa 
em fins 'de Janeiro ou principios de Fevereiro, sua força é de Março a 
Abril, e acaba em Junho. Elle consiste em grossos chuveiros, quasi 
diários, ás vezes repetidos, mas deixando sempre parte do dia livre 
para o trabalho : raro é o dia ou noite de chuva constante no Ceara'. 
O céo, de admirável pureza e lucidez no tempo sêcco, vê-se durante 
o das chuvas quasi sempre carregado de grupos de densas nuvens 
dispersos ou condensados, e pejados de electricidade : e as chuvas são 
de ordinário precedidas de com moções eléctricas. 

Ao concurso destas circumstancias, e á composição e configuração 
de seu solo deve a província a sua fertilidade, e a bella vegetação que 
a cobre, ainda que não com igualdade por toda ella, o que depende 
das condições atraz referidas. 

Assim as montanhas granitico-argillosas, humedecidas por fontes 
perennes, como são as de Baturité, Maranguape, Aratanha, etc. estão 
cobertas de uma vegetação pomposa, sempre verde. Suas corpulen- 
tas arvores são em grande parte as mesmas das florestas flumiftenses, 
principalmente nas alturas excedentes de 800 pés sobre a face do mar. 
Suas principaes arvores são : massarandubas, páos d' arco amarellos, 
pirauás, angelins, mamalucos, louros, jatobás, páos d'oleo, bálsa- 
mos, jitós, canafistulas, coração negro, jacarandás, palmeiras, etc. 
Pelas fraldas das serras e lugares circumjacentes, cujo solo formado 
pelos detritos e alluviões, que vem de cima, nutre uma vegetação vi- 
gorosa e sempre verde, a que se dá o nome de matas de pé de serra, 
suas espécies principaes são: cedros, páos d'arco roxos, juremas bran- 
cas, angicos, camusés, pequeás, maniçobas, tatajubas, pajaús, paco- 
tes, páos d'oleo, almecegas, timbaúbas, mutambas, condurús, inha- 
rés, mororós, catandubas, genipapos, pequis, faveiras, visgueiros, 
catolés, etc. 



DA SECÇÃO BOTÂNICA CV« 

São estes bosques das serras, e de seus contornos, cheios de excel- 
lentes madeiras de construcção, os que constituem o que chamo 
região das serras. 

A região do sertão abrange quasi toda a província: seu terreno 
montuoso, pedregoso, árido, é revestido de matas denominadas ca- 
tingas. As arvores de catingas * são geralmente de pequenas di- 
mensões, e largão as tolhas no tempo sêcco. Suas espécies caracte- 
rísticas são: sabiás, juremas, pereiros, imburanas, mufumos, catin- 
gueiras, etc. Estas formão massiços do meio dos quaes se levantão 
sobranceiras e dispersas muitas arvores de boa estatura, e de óptimas 
madeiras, como são as seguintes: aroeira, páo d'arco roxo, angico, 
gonçalo-alves , marfim, cumaru, violete, coração negro, braúna^ 
páo branco, etc, etc. 

Se em certos lugares as condições do terreno empeiorão tornando- 
se elle mais pedregoso, mais árido, e mais sáfio que o das catingas, 
os vegetaes empobrecidos, tolhidos em seu desenvolvimento fazem-se 
anões, aparrados, garranchosos, e se desfolhão na estação sêcca, sendo 
os mais communs os seguintes: umarí-bravo, mufumo de carrasco, 
marmeleiros, ameixeiras, cannelasde veado, etc, etc. 

Esta é a vegetação chamada de carrasco, que com a de catingas cons- 
tituem a região do sertão, na qual se deve também contemplar a ve- 
getação dos cobertos e das ribeiras, onde, como já vimos, ha varias ar- 
vores, que conservão sempre suas folhas. 

Toda a beira-mar da província (ao menos aquella que vi) é rasa, e 
na arrebentação do mar bordada de dunas movediças, para dentro das 
quaes se alargão mais ou menos taboleiros arenosos, e cobertos duma 
vegetação baixa, rala, e sempre frondosa, e constando principalmen- 
te de: cajueiros, cajazeiras, mangabeiras, manapuçás, uvaias, mu- 
ricís, guajerús, cauassús, janagubas, barbatimão, lacre, embiriba, 
batibutá, candêa, jetahi, peroba, páo-ferro, paraíba, sambaíba, etc. 
Sobre ellas se revolve um grande numero de enrediças pertencentes 



* Palavra da língua guarani, e quanto a mim não é composta de caa e tinga mata bran- 
ca, como se diz, mas de caã e tining mata sécca. 



CVIII RELATÓRIO 

ás famílias seguintes : Leguminosas, Convolvulaceas, Deileniaceas, 
Apocyneas, Passofloreas, Bignoniaceas, Trigoniaceas, etc. 

E' esta a cinta de terra que constitue a região do littoral. 

De todas estas plantas e arvores de construcção, e de muitas mais, 
que não forão aqui mencionadas, se colherão ramos com flor e fru- 
ta, e se tirarão amostras da madeira; das mais importantes se fizerão 
desenhos e descripções. 



TERCEIRA PARTE 

Considerações geraes sobre a agricultura e seus productos 

industriaes. 



Não se deve esperar de mim que entre nesta parte em largas 
considerações de technologia agricola, para o que me faltão habi- 
litações em theoria e pratica. Ainda menos me entregarei a la- 
mentações estéreis sobre o passado e presente da nossa lavoura. 
E digo da nossa lavoura, porque quanto eu tivesse de dizer a 
respeito da do Ceará, referir-se-hia á de todo o nosso paiz. Por todo 
elle a cultura é costumaria , e ninguém se arreda da trilha antiga 
sem grandes empuxões. Não ha aqui arguição, é isto da natureza 
das cousas, em toda a parte tem acontecido, e está acontecendo o 
mesmo. O homem, se seu espirito não é cultivado a ponto de servir- 
lhe de guia e abrir-lhe novos caminhos, é por instincto aferrado 
ás noções que desde a infância bebeu pelo exemplo. Ha mesmo 
nesta contumácia um sentimento de amor próprio, que dificilmen- 
te se vence. A grande necessidade é pois illustral-o, abrir-lhe os 
olhos sobre seus interesses, despertal-o de sua indolência, e pôr suas 
forças e intelligencia em actividade útil. Felizmente parece que 
vamos encetando esse caminho, e dado o primeiro impulso, a machina 
rodará por si. 

No Ceará o aproveitamento das terras é de duas sortes, em criação 



DA SECÇÃO BOTÂNICA CIX 

e em lavoura. Quanto á primeira, só me convinha dizer alguma cou- 
sa a respeito dos pastos naturaes; mas reservo-a para quando me oc- 
cupar do estudo das gramíneas. 

A lavoura se emprega no beneficio das plantas de alimentação, e 
das que dão productos industriaes e mercantis. As plantas alimen- 
tícias no nosso caso são: a mandioca, o milho, o arroz e feijão. 

Mandioca. Desta ha no Ceará diversas espécies e variedades. 
Faz-se a sua plantação no principio e no fim das chuvas. Dão-se 
admiravelmente nos tabuleiros arenosos, nas terras de matas fres- 
cas, e nas montanhas, cuja altura em nenhuma das da província 
excede muito a 2,000 pés sobre o nivel do mar. Até mesmo nos 
sertões, melhormente nos rios que dão vasantes, se cultiva a chamada 
sutinga, que está madura em seis mezes. Em geral conservão-se bem 
na terra por muito tempo, em particular a denominada manipeba, 
que dura 12 e 16 annos no chão, e cria raízes enormes. Na capital 
me asseverarão que um pé desta mandioca deu tão grandes raízes, 
que fez a carga duma carroça, e o peso de 14 arrobas ! 

A província pode pois ser abundantíssima deste género, se se 
empregar com mais affinco em sua cultivação. 

Milho. Planta-se uma só vez no anno, em principio das aguas. 
Dá-se bem por toda a parte. Conservão-no perfeitamente na roça du- 
rante toda a sècca, quebrando as hastes de modo a ficarem as es- 
pigas voltadas para baixo ; guardado porém em casa é depressa es- 
tragado pelo gorgulho. 

Arroz. Ha varias qualidades, que se plantão também no tempo 
invernoso, e só uma vez. E' bastante cultivado e productivo em al- 
guns lugares da província. 

Feijão. Cultivão-se por toda a província diversas espécies e va- 
riedades deste legume, com excepção do preto e do branco. É 
costume plantar em commum, ou ao menos misturar as sementes 
dos feijões de varias cores. Raramente se acha a venda feijão que 
seja sem mistura. Me pareceu também que o povo do Ceará não 
preza muito esta sorte de alimento. 

Não precisa dizer-se que o modo de cultivação destas plantas é 



cx RELATÓRIO 



de simplicidade primitiva. Neste caso toda a sciencia agronómica 
dos nossos lavradores cifra-se no conhecimento empírico dos ter- 
renos, onde vem melhor tal ou tal planta, e do tempo apropriado 
á sua semeadura. 

Além das plantas referidas ha muitas outras, que lhes são auxi- 
liares na alimentação popular, e as principaes são: giromuns, ba- 
nanas, mamões, inhames, batatas, cocos, etc. 

Giromuns (abóboras). São geralmente cultivados nas terras fres- 
cas, e nas vasantes pelos sertões, e fructificão abundantemente. 

Bananas. Sua cultura é muito commum nos lugares apropriados. 

São de varias qualidades, e mui boas. 

Mamões. E' uma arvore preciosa, particularmente em alguns lu- 
gares da província, onde o seu fructo faz parte da alimentação do 

povo. 

Inhames (carás) . Dão-se bem nas terras de matas frescas ; mas, 
segundo observei, não cuidão muito na sua cultura, 

Batatas. Sua cultura é também limitada. 

Cuco da praia (coco da Bahia no Rio de Janeiro). Pelos tabo- 
leiros arenosos á beiramar estão estas arvores por todo o anno 
indefectivelmente carregadas de grande quantidade de enormes 
fructos. Delles aproveitão, em quanto verdes, a agua ; seja para be- 
bida, seja para confeição de vários manjares e doces ; e, depois de 
maduros, a substancia como alimento , ou para extracção do seu 
excellente azeite. 

Cultura pomareira. 



Nas serras, nos lugares de matas frescas, e nos terrenos humedeci- 
dos pelos açudes são cultivadas muitas plantas e arvores fructiferas. 
Farei menção só de algumas mais notáveis, como são: mangueiras, 
ateiras, larangeiras, abacateiras, jaqueiras, etc. 

Mangueiras. Estas arvores crescem aqui como em seu paiz natal, 
e dão abundantes frutas; mas em nenhuma outra parte da província 
vi mangas com tanta fartura, tão variadas e tão boas como no Crato . 



BA SECÇÃO BOTÂNICA CXI 

Ateiras. (Fruta de conde no Rio de Janeiro). Dá-se bem esta planta 
nos taboleiros arenosos; sua fruta é grande e de exquisito sabor, 
principalmente a das vizinhanças da capital, onde a planta é muito 
commum, e seus pés adquirem ahi proporções de uma verdadeira 
arvore. 

Larangeiras, limeiras, limoeiros, etc. São cultivadas nas serras e 
lugares de matas, assim corno nos terrenos arenosos do littoral. As la- 
ranjas, de que ha pouca^ variedade, são grandes, succosas e de bom 
sabor quando bem maduras. Passão por melhores as de Jararaú, em 
Maranguape. 

Abacateiras. São estas arvores pouco cultivadas, mas dão bom 
fructo. 

Sapotizeiras. Vi nos jardins da capital algumas destas arvores mui 
bellas, e dando fructos muito superiores aos que se obtém aqui no Rio. 

Jaqueiras e frutas de pão. São pouco cultivadas estas arvores, e 
dão-sebem na terra, principalmente a jaqueira, de que ha mais, e 
seu fructo é estimado. 

Videira. Parece que a cultura desta planta exige muitos cuidados, 
sem o que seria mais commum, pois meaffirmárão quedáalli muito 
boa uvae duas vezes por anno. 

Figueiras. São pouco cultivadas pelo que vi. 

Melões. São plantados nos lugares frescos e arenosos de toda a 
provincia ; mas principalmente nas vasantes dos sertões, onde as 
frutas são abundantes e grandes. 

Melancias. Plantão-nas em circumstancias semelhantes, mas não 
lhes dão o mesmo apreço. 

Abacaxis. Pelas vizinhanças da capital os ha excellentes. 

As frutas que acabámos de mencionar são todas devidas á cultura : 
referiremos agora certo numero das que o paiz produz espontanea- 
mente. 

Cajazeiros (É o cajá-mirim do Rio de Janeiro) : são arvores vulgares 
e corpulentas, que dão fruta em grande quantidade, de bom sabor e 
estimadas para garapas. 

Cajueiros. São arvores de grossos troncos, copa vasta, e mui Ire- 



CXII RELATÓRIO 

quentes nos taboleiros arenosos; do fructo se está hoje fabricando 
uma sorte de vinho, que já tem estimação, e que talvez sendo me- 
lhorado em sua manipulação e confeição, venha a constituir um bom 
ramo de industria na província. 

Genipapeiro. Arvore commurn, cujo fructo é comestível, princi- 
palmente se o ajudao com assucar. Delle se faz uma espécie de be- 
bida com leite, que não é desagradável, e se reputa saudável. Também 
com elle se prepara um licor que denominão vinho de (jenipapo, que 
não é de desprezar-se. 

Pequizeiro. Arvore corpulenta, muito abundante na chapada do 
Araripe ■ seu fructo encerra uma substancia butyrosa e alimenticia, 
e sua madeira é procurada para varias obras. 

Mangabas, maracujás, rmiricw. Sâo frutas abundantes nos 
areaes do littoral. 

Goiabas e araçãs. Estas plantas não me parecem alli espontâ- 
neas, pois só as vi pelos arredores das habitações, e não muito 
vulgares ; seus fructos são muito grandes e muito bons. 

Horticultura . 

Ha grande descuido a este respeito no Ceará : com poucas excep- 
ções, limita-se o geral da gente a plantar no chão ou em qirdos 
cebolas, alhos, tomates, coentros, etc- ; alguma couve, quiabos, 
maxixes e pimentas, eis ahi tudo. Eu creio que com algum tra- 
balho e perseverança podião alli ter hortas abundantes e variadas, 
se não nas vargens, nas alturas das serras ; mas o Cearense, prin- 
cipalmente o do sertão, é essencialmente carnivoro, como são 
todos os povos criadores. Nas melhores mesas do Ceará se vê pou- 
ca hortaliça, e poucos guizados de hervas. 

Floricultura. 

Ha também a mesma negligencia quanto ao cultivo das flores. 
Não é que as senhoras as desprezem ; antes são por ellas apaixona- 
das : mas em um paiz em que seis e sete mezes no anno não chove 



DA SECÇÃO BOTÂNICA CXIII 

o entretenimento de jardins é custoso. Demais a acclimação de certas 
flores acha alli difficuldades, que só com perseverança e paciência 
se hão de vencer. As flores porém que são de natureza mais dóceis, 
como os jasmins, as rosas, os cravos, etc, são bastante communs. 

Cultura das planta» que dão productos industriaes e 

mercantis. 

Canina de assacar. — Esta planta é conhecida e cultivada no Ceará 
desde tempos mui remotos. Barleu, que esteve no Brasil ha mais de 
duzentos annos, escrevendo a respeito do Ceará diz : « Sacchari cannas 
fert; sed molis nullis exequitur. » uso dos molinotes ou torcedores, 
com que expremem o sumo da caima para garapa, aguardente e 
rapaduras, é já bem antigo na provincia; mas o fabrico do assucar é 
moderno, segundo me affirmou gente do paiz; e o viajante Koster, 
que andou pelo Ceará em 1810, diz que ainda alli se não fazia as- 
sucar. Hoje, porém, além de um grande numero de molinotes e de 
engenhocas, muitas delias com moendas de ferro, se está levantando 
muito boas fabricas de assucar. Actualmente o produeto exportável 
deste género chega a muitas mil arrobas. Hoje geralmente cultiva-se 
a canna cayana, que o terreno produz com grande vigor pelos baixios 
do littoral, nos Cari ris, em todas as serras, e mesmo nos sertões onde 
ha represas de agua. 

Algodão. — Esta. planta era seguramente já cultivada pelos Índios 
antes da conquista, para suas grosseiras manufacturas. Foi também o 
vegetal que primeiro entrou a ser cultivado como género de com- 
mercio no Ceará. Segundo um trabalho do instruído e laborioso padre 
Dr. Thomaz Pompêo de Souza Brasil, tomou incremento o cultivo 
do algodão de tempo do governador Luiz Barba Alardo de Menezes 
no principio deste século. Pelos exames que eu fiz nos papeis do 
archivo da camará em Villa-Viçosa, vi que na serra de Ibiapaba no 
tempo dos padres da Companhia se cultivava alli bastante algodão 
para consumo do povo, e que havia na Missão não menos de cincoenta 
teares. algodão é hoje cultivado por toda a província ; mas principal- 

c. s. 15 



CXIV KELAT0FU0 

mente nas serras de Uruburetama, Pereiro. Maranguape, Meruoca, etc. 
Segundo ainda o Dr. Pompêo, no anno de 1814 forão exportadas 
mais de 1,000 arrobas : decresceu depois a sua exportação por 
pausa da baixa do preço no mercado, e pelo apparecirnento de uma 
moléstia que denominão mofo , e que ainda agora persegue o al- 
godoeiro; mas actualmente vai prosperando, de sorte que no anno 
financeiro de 1856 a 1857 se exportarão só pelo porto da capital 
quasi 77,000 arrobas, e pelos de Aracaty, Granja, Acaracú juntos 
deve pelo menos ter sahido outro tanto, isto é, ao todo 151,000 
arrobas. 

A. moléstia, que tanto tem desgostado aos plantadores de algodão, 
deve ser remediada pela substituição da espécie doente, ou dege- 
nerada, por outras vindas de fora, e talvez pela do algodão herbáceo, 
que durando pouco tempo , pode mais facilmente ser reformada em 
pequenos periodos, como é conveniente. 

Café.-- — E tradição que o governador José António de Castro Vianna 
tomara por sesmaria a serra da Aratanha com o intento de cultivar 
alli o café ; que fizera abrir um sitio no alto daquella serra, e man- 
dara buscar sementes de café á Bahia ; mas que fallecendo logo 
depois (1802) parece que nem tivera tempo de começar aquella cul- 
tura. Em 1810 o padre Francisco Gonçalves Martins levou da Bahia 
sementes de café, e as plantou no Crato em seu sitio Cabreiros. Dalli 
forão sementes para Baturité. Não pude saber quem nem quando fez 
aqui a primeira plantação ■ mas não ha duvida que em 1825 o tenente- 
coronel José António da Costa e Silva, fazendeiro da Aratanha, obteve 
sementes ou mudas de um lavrador de Baturité, António Pereira de 
Queiroz, e as plantou no seu sitio da Aratanha, donde bem depressa 
passou para ode Joaquim Lopes de Abreu Lage em Maranguape. 

A cultura do café vai-se hoje estendendo por toda a provi ncia, que 
o produz mui bem, e de excellente qualidade. Nos últimos annos, 
por estimativa do Dr. Pompêo, o café exportado deve ter chegado 
a 200,000 arrobas annuaes. 

Fumo. — Outra planta, que se cultiva com felicidade em vários 
lugares da provincia, especialmente em Acarape, Telha e Lavras. 



DA SECÇÃO BOTAiNICA CXV 

Neste ultimo lugar asseverou-rne pessoa dahi, bem informada, que a 
colheita annual do fumo regula em 8,000 arrobas. 

Além destas, que são produzidas pelos cuidados do lavrador, a 
provincia produz espontaneamente varias plantas preciosas por seus 
productos industriaes, como são : 

Carnaúbas. — São palmeiras preciosíssimas; não ha uma só de 
suas partes ou de seus productos que não seja de utilidade ; mas 
tratarei agora unicamente da sua cera. 

nosso distincto botânico, o Dr. Manoel de Arruda da Camará, 
mandou a outro também nosso e bem conhecido botânico, Frei José 
Marianno da Conceição Velloso, que então se achava em Portugal, 
uma noticia desta palmeira, que foi publicada no Pai 1 adio Portu- 
guez. Nas Transacções Philosophicas de 1811 vem um trabalho do 
Dr. Brande sobre a cera vegetal do Brasil, que foi remcttida do Rio 
de Janeiro a Lord Grenwil pelo conde das Galvêas, que a obteve do 
governador do Rio-Grande do Norte, Francisco de Paula Cavalcanti de 
Albuquerque. * 

Conta-se que no Ceará se começou a tirar cera da carnaúba 
por ensino de um Manoel António de Macedo, que do Rio-Grande 
do Norte viera a Jaguaribe em 1843. 

Parece pois que foi no Rio-Grande do Norte onde primeiro se 
extrahiu a cera da carnaúba. E talvez que d'alli mesmo tivera co- 
nhecimento daquella operação o Dr. Arruda. 

Ha na provincia do Ceará léguas e léguas de terras cobertas 
destas palmeiras-, mas é principalmente no valle do Jaguaribe onde 
se faz colheita de cera para algumas mil arrobas. 

Quando, como devemos esperar, forem continuadas e melhor 
succedidas as analyses começadas pelo Dr. Brande, e a cera da 
carnaúba for melhorada em sua cor e consistência, a provincia do 
Ceará terá mais um manancial de riqueza publica e particular. 

Gomma-elastica. E' um producto fornecido no Ceará pela ina- 
niçoba, arvore do geneYo.fafropha, que vegeta espontaneamente por 

* Veja-se Koster, Viagem ao Brasil: tom. '2° no fim. 



CX»1 HELATORIO 

quasi toda a província, mas particularmente nas matas baixas e hú- 
midas, e cujo leite dá tão bom caoutchouc como o do Pará. A grande 
procura desta substancia na Europa e nos Estados-Unidos. tázendo-a 
subir de valor, causou no Ceará um verdadeiro furor pela sua ex- 
tracção nos annos de 1855 e 1856. As matas forão invadidas, e 
as arvores em grande parte destruidas; mas. peior que tudo, a 
gomma colhida ás pressas, sem cautelas, e cheia de impuridades. 
não sei por que cegueira ou imprevidência dos negociantes era com- 
prada pelo mesmo preço a boa e a má. O resultado foi, como se 
devia antever, a falsificação dolosa e o descrédito do género, o pre- 
juízo dos compradores, e a cessação do commercio. Actualmente 
porém este parece querer reviver. 

E com effeito, se por meio de uma legislação conveniente for 
regulado o modo da extracção da gomma, em seu tempo próprio, 
e sem que cause a morte das arvores (de cujo plantio se deve an- 
tes cuidar), terá o Ceará mais um ramo de industria facílimo e 
rendoso. 

Muitas plantas nativas do Ceará dão princípios corantes, que de- 
vem ser aproveitados. 

Anil. Uma ou duas espécies lndiyofera crescem por toda a pro- 
vinda com muito vigor. Não pude ainda averiguar se são espécies 
espontâneas, como parece, ou se forão importadas. O certo é que 
não consta que em tempo algum se fabricasse anil naquella pro- 
víncia como género de commercio : nem a gente do paiz sabe ou 
quer tirar a tinta dessas plantas. Usão porém das folhas de uma ar- 
voreta do género Eupatorium, a que chamão anil assú ou tassuna, 
para tingirem de azul seus fios e pannos, e por uma preparação 
mui simples. Consta-me que ha alli o anil trepador, que é um 
Gissus, mas também não é usado. 

Ora de todas estas plantas se pode extrahir o Índigo com faci- 
lidade e pouco dispêndio. 

Tatajuba. Esta arvore, que dá um principio corante amarello, já 
em outro tempo forneceu o seu lenho como género de exportação, 
mas talvez pela inferioridade da sua tinta deixou de ser procurado, 



DA SECÇÃO BOTÂNICA CXVII 

e o seu com mercio não continua, ou se acha muito decahido. A 
arvore existe em todas as matas frescas; mas hoje não é já tão 
commum nas proximidades da capital, onde forão destruidas. 

Pereiro de tinta. E' uma Rubiacea que cresce em um lugar cir- 
cumscripto dos ínhamuns, sua tinta é de um carmezim sujo e bas- 
tante fixo. 

Tapiranya. W uma Hujnoniacea, trepadora, que vegeta no alto do 
Araripe e Serra Grande, e por suas encostas, e dá uma tinta en- 
carnada viva. 

Outros vegetaes ministrão óleos de varias qualidades, e que po- 
dem ter préstimos no fabrico do sabão, e em outras industrias ; 
por exemplo : 

A oiticica, que é uma arvore corpulenta, frequente nos sertões, 
dá grande quantidade de fructos oleosos, mas de pouco se ser- 
vem por ter o seu azeite cheiro e sabor desagradável. E' porém 
muito possível que a chimica consiga depural-o. 

A maniçobae outras Euphorbiaceas, que abundão naprovincia, são 
mais ou menos ricas em azeites, que podem ter vários usos. 

batibutá, que é uma arvoreta dos taboleiros , dá fructos 
oleosos. 

Palmeiras. — De muitas delias se pode tirar excellente azeite. 

Emfim o ricino ou carrapateiro é cultivado em toda a parte , e 
dá também muito azeite. 

Não são poucas as plantas que dão tios mais ou menos claros, mais 
ou menos resistentes : apenas mencionarei as Bromeliaceas chamadas 
vulgarmente curods, e algumas palmeiras, como o tucum, a carnaú- 
ba, etc, etc. 

Em madeiras de construcção e de mercadoria é riquissima a pro- 
víncia do Ceará. Entre tantas nomearei : 

angico. — Acha-se por toda a parte pelas matas e pelos sertões. 
São bellas arvores, cujo cerne pode competir com o do mogno. 

Os jacarandás. — Dão excellentes e lindas madeiras ; entre elles so- 
bresahe o molete. 

Basta o que tão incompleta e summariamente acabo de expor para 



CXVIII RELATÓRIO 

ver-se quanto só em vegetaes tem de elementos de prosperidade e 
de riqueza a província do Ceará. Infelizmente alguns obstáculos 
naturaes vem muitas vezes contrariar o seu progressivo desenvolvi- 
mento, entre os quaes figura em primeira ordem a inconstância e 
inclemência das estações, já com grandes e intempestivas chuvas, já 
e muito principalmente com as sèccas, que quasi em períodos certos 
assolão a provincia, e causão-lhe verdadeiras calamidades. 

Em quanto os homens na sua imprevidência olharem só para o céo, 
esperando tudo da misericórdia divina , esses desastres se hão de re- 
petir, mais ou menos intensos. Baixem os olhos para a terra, cubrão 
o paiz de um systema de represas, facilitem o movimento dos géne- 
ros por meio de boas estradas, que Deos abençoará a sua obra. Então 
o Ceará, gozando de um clima saudável , e de um terreno fecundo, 
habitado por um povo vigoroso e intelligente , entrará em compe- 
tência com as suas mais florescentes irmãas. 

Terminarei apresentando o resultado a que por ora se tem chega- 
do na coordenação dos objectos colligidos pela minha secção ; e in- 
dicando como tenciono regular a publicação dos trabalhos da dita 
secção, no caso que isso seja da approvação do governo imperial. 

Pelo balanço que se está dando nas collecções chegou-se ao co- 
nhecimento do numero dos exemplares dos ramos sêccos , os quaes 
excedem de doze mil, faltando-nos uma caixa, que ainda não chegou 
do Ceará, e que deve conter obra de dous mil exemplares. 

Os que já forão contados e separados, achão-se incluidos em 1 10 fa- 
mílias naturaes. Está-se agora cuidando na separação dos géneros e 
espécies. Logo que se houver chegado á conclusão deste trabalho, em- 
prehenderei a composição de um volume, que chamarei : Catalogo 
systematico das plantas colhidas no Ceará pela commtssão scien- 
tifica. 

Nesse catalogo as plantas dispostas segundo as ordens naturaes 
serão designadas simplesmente por seus nomes de género e espécie, 
quando já forem conhecidas ; e as que me parecerem novas ou mal 
estudadas serão também nelle incluidas depois de classificadas e de- 
nominadas, e irão marcadas com um asterisco. 



DA SECÇÃO BOTÂNICA CXIX 

Destas ultimas se fará outro volume, onde ellas serão descri pias por 
extenso, e acompanhadas de desenhos. 

Estes dous volumes escriptos em latim poderão constituir a Flora do 
Ceará, ou ao menos uma relação das plantas daquella província co- 
nhecidas até hoje; porquanto lhe ajuntarei um appendice contendo 
as plantas que eu não pude observar nem o meu adjunto, e que já es- 
tão estudadas e classificadas pelos botânicos. 

Proponho-me também a ir colligindo documentos e materiaes para 
um Estudo de yeographia botânica daquella provincia. 

Quanto ás plantas medicinaes e seus usos therapeuticos, o Dr. Ma- 
noel Freire Allemão toma sobre si o trabalho de as estudar e disser- 
tar sobre ellas; e irá publicando o fructo de seus estudos, á proporção 
que os tenha concluido. 

Em fim está na minha intenção, e na delle, fecharmos os trabalhos 
da secção de botânica por uma narração circumstanciada das nossas 
viagens pelo interior da provincia do Ceará. 

Rio de Janeiro, 4 de Dezembro de 1861 . 



Francisco Freire Allemão. 



Secção geológica. 



Parti para o Ceará em Maio de 1859, quatro mezes depois dos 
outros membros da commissão. Demorei-me durante o intervallo de 
um vapor a outro na Bahia, por me ter ordenado o governo que exa- 
minasse alguns pontos indicados pelo Sr. brigadeiro Frederico Leo- 
poldo César Burlamaque, director do musèo nacional. 

primeiro lugar ao qual me dirigi foi Nazareth, onde o Sr. co- 
ronel Tinta deu-me guia e recommendações, que me facilitarão 
o exame de um deposito de manganez distante seis léguas dessa 
cidade; verifiquei a existência desse mineral formando veios bas- 
tante espessos (de 30 palmos talvez) pelo que pude observar na su- 
perfície, pois para exeavações não me restava tempo, e as chuvas 
repetidas erão obstáculo ainda maior. Segundo informarão os habi- 
tantes do lugar, dahi a nove léguas se encontra ainda continuação do 
vieiro. E' pois de importância para a Bahia a existência deste mi- 
neral á flor da terra, podendo custar a arroba posta na capital 600 rs.: 
e no entretanto em 1855, em quanto lavrava o cholera, pagou-se a 
32$000! 

Regressei á capital, e de caminho observei a formação que em 
vários lugares se apresenta lavada pelas aguas do rio Nazareth. consta 
de largas cintas dioriticas que parecem romper pelo gnais : ellas são 
sulcadas em varias direcções por tenuissimas betas de pyrites e de ga- 
lenas, A mesma rocha encontrei nos Queimados na cidade da Bahia, 
e derão-me algumas pequenas amostras de cobre nativo extrahidas 
ahi mesmo, quando se fizerão as exeavações para assentar as ma- 
chinas que supprem os chafarizes da cidade. 

Vi amostras da Cachoeira e de outros lugares da provincia, todas 
da mesma natureza, donde posso concluir que na Bahia serão ainda 
descobertos preciosos jazigos metalli feros. 



DA SUCÇÃO GEOLÓGICA CXXI 

Minha segunda excursão foi á ilha de ítaparica. Existem no musêo 
nacional pequenas amostras de cobre provenientes de Santo António 
do Catú, para onde tive de navegar uma noite inteira em uma pe- 
quena canoa com vento pela proa, supportando repetidos aguaceiros, 
e de manhãa cavalguei meia légua debaixo de grossa chuva até o lugar 
indicado ; encontrei uma excavação cheia d'agua e mesmo em parte 
entulhada, porém na cascalheira não havia o menor vestígio de cobre, 
e todo o terreno alli é gnais decomposto. 

Examinando a costa oriental da ilha, descubri as mais irrecusáveis 
provas de seu levantamento, importando em nove palmos ; se a costa 
se acha em movimento ainda ascendente ou se mergulha de novo não 
me foi possível verificar. Limito-me em apresentar o facto, que éde 
summa importância. 

No mesmo lugar apresenta-se em camadas cahindo cerca 30° para O . 
um schisto argiloso negro, ao qual dão o nome de tauá; não des- 
cobri fosseis que pudessem indicar a sua posição geológica. Alter- 
nando com essas camadas existem outras de psammito muito duro, 
que encerra pequenos crystaes de pyrites e galena. 

Restava-me ir ao rio Camamú visitar os trabalhos da excavação que 
alli se estavão fazendo com o fim de descobrir carvão de pedra ; ba- 
seavão-se para isto em betume e naphta que exsudava das rochas. 
Outro producto curioso daquelle lugar, e mesmo de alguma impor- 
tância, se existir em grandes quantidades, éumaargilla muito porosa, 
amarellenta, embebida de betume. Não procedi a esse exame por 
falta de transporte na occasião, e á viagem a remo debaixo das chuvas, 
que continuavão, não me quiz aventurar. Aproveitei o tempo para o 
exame da costa perto da barra, onde é batida pelo oceano : nota-se alli 
uma formação de psammito, que ainda progride hoje, a rocha é arêa 
cimentada com calcareo, talvez proveniente das coralleiras, cujas ca- 
beças sãodestruidas á medida que emergem. Esta rocha, que é idên- 
tica á das praias do Peloponeso e das Antilhas, é mais uma prova da 
emersão do nosso littoral, pois sendo ella de formação submarinha, é 
quebrada acima do nivel das marés de lançamento; em vez de docu- 
mentos paleontologicos, ella encerra alguns que attestão a re- 

c s. (16) 



CXX1I RELATÓRIO 



centissima época da consolidação destas arêas: refiro-me a cacos de 
louça. 

Em Pernambuco pouca demora tive ; encontrei em diversos lu- 
gares lavas, que se me disse serem provenientes do lastro de navios que 
voltavãodailhade Fernando de Noronha ; é o único ponto vulcânico do 
Brasil de que ha noticia vaga dada por Darwin, e creio que estão em 
relação com elle os terremotos que se tem manifestado por diversas 
vezes nas costas fronteiras do Rio-Grande do Norte e do Ceará. Os 
vulcões submarinhos ainda mais além mencionados por Ferguson e 
Krusenstern em 1734 e 1806 parecem formar elos de uma cadêa 
ignivoma que dorme, mas que de um dia para o outro nos poderá 
incommodar com inesperados e desagradáveis abalos. 

Eu quiz estudar esta questão com todo o cuidado, e para isso aguar- 
dava a canhoneira que tinha sido promettida á commissão para os 
trabalhos hydrographicos ; eu contava com ella por ter visto a ordem 
em que se a mandava pôr á nossa disposição, porém até hoje ainda 
não tivemos noticia delia, donde resultarão inconvenientes graves. 

As lavas que achei em Pernambuco forão também algumas vezes 
alijadas sobre o Recife : d'ahi provém que observadores com pouca 
sciencia e ainda menos consciência declararão aquella rocha for- 
mação vulcânica! Será conveniente que ninguém se illudacom taes 
informações, mesmo sendo ofíiciaes. 

Na Parahyba aproveitei as poucas horas de demora do vapor para 
vêr as pedreiras das immediações da cidade ; achei alli marna, que 
poderia ser empregada com vantagem para fabrico de cimento hy- 
draulico, que hoje importamos daEuropa; um crinoide pessimamente 
conservado me faz suppôr que aquella rocha pertence á formação 
cretácea, ainda até então desconhecida naquellas paragens. Apezar da 
chuva e do denso nevoeiro de maruhys procurei mais fosseis, porém 
não pude acha-los. 

Em Junho aportei ao Ceará, onde o adjunto á minha secção, o ca- 
pitão João Martins da Silva Coutinho, já tinha procedido a excava- 
cões em diversos lugares para estudar a natureza do solo ; e também 
já tinha f eito excursões ás montanhas próximas á capital : infelizmente 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXXIII 

não pôde desenvolver toda a sua actividade, porque esteve dous mezes 
doente. 

Procedi a alguns estudos nas vizinhanças da capital, inclusive á 
serra da Tacoára, onde se dizia haver uma mina de prata que foi 
lavrada pelos Hollandezes ; a excavação estava cheia d'agua, e creio 
que foi feita para este fim ; as cascalheiras de gnais não mostravão o 
menor indicio de metal algum. Um velho, que nos servira de guia, 
asseverou que havia alli antigos fornos, porém por mais que elle 
e nós procurássemos, não foi possível encontrar nem vestígios se 
quer. 

Com os preparativos de viagem nos demorámos até Agosto ; separá- 
rão-se as secções em três turmas para se internarem , a ethnogra- 
phica e a geológica seguirão juntas. 

A nossa primeira estação foi Pacatuba, onde estudei a Aratanha, 
vasto penedo de granito, elevando-se a cousa de 3,000 palmos, e 
surgindo da planície como ilha coberta de verdura. Suas encostas 
íngremes compoem-se de terra muito misturada de arêa e fragmentos 
de feldspatho, só em poucos lugares ha o barro vermelho tão ca- 
racterístico das decomposições do nosso granito. A terra forma 
camada bastante ténue , em alguns lugares chega até dous a três 
palmos. 

A composição de todos os troncos de serras implantados como 
ilhas no sertão é com poucas variantes a mesma, só differe a grande 
cordilheira da Ibiapaba. 

Na planície fronteira a Aratanha, próximo ao serrote de Itatinga, 
apparece calcareo granular com alguma dolomita, principia igual- 
mente a apparecer alli uma modificação curiosa das rochas graní- 
ticas, que sempre observei nas immediações calcareas : a componente 
micacea desapparece, e em seu lugar vêem-se grossos crystaes de 
turmalina embutidos em quartzo e feldspatho; na Giboia também 
falta este ultimo elemento, e a turmalina já teve alli as honras de 
carvão de pedra. 

Uma erysipela prolongou mais do que eu desejava a estada na 
Pacatuba. 



CXX1V RELATÓRIO 

Seguimos para o Acarape, situado n'um valle em grande parte ni- 
vellado pelas alluviões do rio do mesmo nome, que nasce na serra de 
Baturité, atravessa-a em quasi toda a extensão para se precipitar na 
planície, despenhando-se por cascatas sobre enormes ealháos e ro- 
chedos, cujas arestas já se achão arredondadas pela decomposição. 
Este rio, que no inverno chega a trasbordar e transformar todo o valle 
com seus cannaviaes em um vasto lago, durante o verão desapparece 
completamente menos de uma légua abaixo da povoação. 

Examinei as formações calcareas da vizinhança, sobretudo o Frade 
no Cantagallo : alli achão-se alguns penhascos de alvíssimo mármore 
granular, que se pôde prestar para estatuária e ornatos: não acontece 
isso com toda a massa de rochedos, que são mais ou menos salpi- 
cados de crystaes amarellentos esverdeados de grammatito, o que não 
impede o seu emprego como excellente cal para construccões. N'um 
ramal de montanha próximo ao Acarape, o Riachão, encontrão-se 
provas evidentes da natureza eruptiva deste calcareo. No cimo da 
serra, e na Raposa perto de Baturité elle encerra crystaes de graphito, 
em Sobral este é substituído por chlorilo de modo que o calcareo 
d'alli forma um Cipolino. 

O calcareo do Frade apresenta rochas escarpadas cobertas de uma 
crosta negra; do mesmo modo ainda o vi junto ao serrote do Ripina; 
nesse ultimo em uma caverna achárão-se esqueletos humanos de 
tamanho descommunal arrumados atrás de uma tosca parede. Nos 
outros lugares, como Canindé, S. Bento, Sobral, Santa Quitéria, Quixe- 
ramobim, lcó, etc, a mesma espécie de rocha se encontra enterrada. 

Em Baturité corri todas as immediações; estudei a configuração 
desta serra, cujo cimo mais elevado (no brejo das Pedras) tem cousa 
de 4,000 palmos. A formação é toda granítica, apresentando-se do 
lado do sul quartzitos com bellissima estructura parallela. 

Observei alli no lugar chamado Labyrinto, uma exsudação, quesahia 
de um gnais extremamente micaceo, que ao seccar deixava uma 
efflorescencia de salitre, que os habitantes extrahião ; deparei com 
o mesmo phenomeno na Uruburetama. 

Fizemos uma excursão ao Canindé, e fomos ver os depósitos de 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXXV 

íerro junto á serra das Guaribas nas margens do rio Cangatí, de que 
fallára Feijó em 1814 ; encontrámos realmente esta rica mineira, de 
todo desprezada. Parece que já a Providencia espalhara por aquellas 
paragens em distancias razoáveis este mineral nas condições de ser 
utilisado, pelo povo, com fundentes ao lado, e excellente material 
para combustível, que são os sabiás e as juremas. Vi essa mesma pedra 
de ferro no Jaburu, perto deQuixeramobim, ao pé da serra da Me- 
ruoca, no Patamuté perto do rio do Peixe na Parahyba do Norte ; 
desta provincia obtive amostras da Cachoeira pelo Sr. coronel Beau- 
repaire Rohan, assim como também do presidente da provincia do 
Rio-Grande do Norte. Existe também próximo ao Crato. 

O ferro consumido no interior do Ceará, do Piauhy e de Pernam- 
buco, é todo inglez e muitas vezes de péssima qualidade, transpor- 
tado a duzentas e mais léguas, em costas de animaes ; em conse- 
quência disto propuz ao governo imperial que mandasse ensinar 
áquelle povo o meio de aproveitar a mineira de ferro para obter 
material, ao menos o necessário para as suas ferramentas de la- 
voura: industriosa como é aquella gente não tardaria a construir 
as pequenas forjas catalãs e fabricar o ferro e aço para consumo 
de cada districto. Objecto este de grande utilidade para aquelles 
lugares. 

Perto de Baturité existe um penhasco isolado de gnais denomi- 
nado Serra Aguda, donde as aguas trazem comsigo ao penetrar as 
fendas algum graphito. 

Na viagem para Quixeramobim passámos por grande extensão de 
sertão, terreno todo ligeiramente ondeado, formado por um vasto 
lagedo de gnais cuja decomposição superficial, uma ténue crosta, 
é a terra que produz o pasto; e que por causa de seu leito de 
lages só pôde conservar a humidade emquanto chove ; não tem pois 
a propriedade de manter a vegetação durante os seis mezes em que 
não cahe urna gotta d'agua, não pode promover um resfriamento 
da atmosphera que possa sedimentar orvalho sequer, pelo contra- 
rio á noite a irradiação do calor recebido durante o dia impede que 
alguma nuvem pairando nas alturas desça até o chão. Nesse longo 



CXXVI RELATÓRIO 

intervallo de sêcca toda planta dorme sem folhas, sem um vestígio 
de verdura, toda força vegetativa está na mais perfeita quietação. 
Parece que a este estado desolador em apparencia se deve attribuir 
a prodigiosa fertilidade daquelles terrenos : penetrando os agentes 
atmosphericos por esta terra sêcca e porosa, contribuem podero- 
samente para a decomposição dos seus elementos, que servem de- 
pois de adubo. Em outros lugares com trabalho se revolve aterra, 
arando-a profundamente para expo-la á acção do ar ; aqui a natu- 
reza encarregou-se disso por processo diverso chegando ao mesmo 
fim. As sêccas no Norte são úteis debaixo de todos os pontos de 
vistaj não são ellas a causa das grandes calamidades, mas a im- 
previdência da gente, que não sabe tirar proveito da abundante 
producção de seu solo que as sêccas perpetuão. O paiz em que os 
pássaros vôão assadinhos e temperados pelos ares ainda está por ser 
descoberto. É questão que apresentarei em occas.ião opportuna de- 
vidamente desenvolvida. 

Deixámos a Serra Azul de um lado porque já tinha sido exami- 
nada pelo capitão Coutinho, atravessámos os seccos leitos dos rios 
Choro e Sitia, nos quaes pudemos avaliar a enorme quantidade de 
arêas que elles transportão para o oceano, e destas concluir a massa 
de terra fértil acarretada annualmente, pois entre ambas existe uma 
relação bastante constante. 

No Quixadá o terreno muda de configuração, não se vião mais 
aquellas vastas pyramides graniticas que surgião do sertão. Atrás 
de nós agora deparámos com uma longa fileira de penedos syeniti- 
cos isolados com formas as mais phantasticas, contendo degráos 
colossaes e excavações devidas á erosão das aguas. A' direita in- 
tronca-se a serra do Estevão, á esquerda uma pequena cordilheira 
de granito, a Serra Branca. 

Fomos a uma pedra donde minava estanho todos os annos, se- 
gundo se dizia; ainda na véspera eu tinha recebido do capitão Mi- 
guel Francisco de Queiroz um pedaço desse metal extrahido alli ! 
Suppuz que minaria algum amalgama, porém no lugar não havia 
o menor signal disso. Comtudo em alguns pedaços de rocha havia 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXXVII 

fragmentos que tem aspecto de mineral stannifero ; só a analyse 
poderá solver a duvida. 

Em Quixeramobim o terreno torna a ser todo de gnais ; de- 
balde procurámos chumbo em um lugar onde fora extrahido, e a 
supposição que alli havia da existência desse metal no Banabuyú 
e Riacho do Sangue foi devida á geologia de diccionario pela tra- 
ducção do termo plombagine; ha realmente graphito nestes luga- 
res, e com bastante abundância, porém impuro. 

No trajecto para o Icó o caracter do terreno não apresentou va- 
riação, era o sertão secco que apenas servia para estudo de pas- 
tagens . 

Junto ao Icó passa uma formação de schisto silicoso que se es- 
tende até na Parahyba, e contigua uma outra de schisto argilloso 
perfeitamente estratificado, que apparece perto da vi lia da Telha : 
essas camadas poderião servir de deposito naturaes d'agua, são po- 
rém- muito impinadas, e não permittem por isso accumulações em 
distancia e com pressão para obter alguma fonte artesiana. 

Procurei por toda a parte se haveria possibilidade de furar com 
proveito o terreno para haver agua, porém todos os pontos da pro- 
vincia que visitei se negão a isso. No Araripe as camadas imper- 
meáveis estão horizontaes e tão elevadas que toda a agua de infil- 
tração despeja por cima delias. As camadas da Ibiapaba mergulhão 
para o Piauhy : só lá portanto é que poderá haver alguma proba- 
bilidade de se poder brocar com vantagem algum poço artesiano ; 
depende isso porém ainda de exame do terreno. 

Emquanto eu andava pelo lado da Telha destaquei o capitão Cou- 
tinho para a serra do Pereiro, elle levou comsigo um guia que 
lhe foi indicado, e que o habilitou a explorar uma porção dessa 
cordilheira granitica que separa a provincia do Ceará da do Rio 
Grande do Norte, e que em um dos seus contrafortes do lado 
Oriental apresenta formação aurifera, circumstancia que se repete 
nas divisas de Pernambuco pelas cabeceiras do Piancó. 

Do Icó dirigimo-nos á villa de Lavras de Mangabeira, e demorá- 
mo-nos no Boqueirão, ponto notável por ter alli o rio Salgado so- 



CXXVIIJ RELATÓRIO 

lapado um travessão de rocha silicosa, que corria perpendicular ao 
rio e servia de dique : com o tempo forão desabando aos pouco- 
os fragmentos desaggregados por numerosas fendas perpendiculares 
ao correr, e hoje restão duas faces verticaes com cousa de 120 
palmos de altura; e em meia altura na direcção das camadas desa- 
pegárão-se lascas, que pela decomposição erão esbroadas, e despe- 
adas no rio pelas aguas infiltradas na rocha, do que resultou uma 
caverna que se vai estreitando para dentro com 300 palmos de 
profundidade ; nos dous terços do seu comprimento apagão-se as 
luzes; para poder penetrar até o fundo acendemos uma fogueira 
com capim secco, que o Dr. Gonçalves Dias ia continuadamente 
alimentando, e o clarão me permitirá progredir. Esta gruta em 
qualquer outro lugar teria sido aproveitada para cura de moléstias, 
pois quem penetra nella tem de suar infallivelmente. a tempera- 
tura do ar no seu interior foi 38°. e fora estava abaixo de 30. a 
differença psychrometrica era apenas de I o . Essa temperatura ele- 
vada nada tem que vêr com o calor interno da terra, o qual na- 
quellas paragens não excederia 27°. mas em vários pontos da pro- 
víncia o thermometro collocado sobre as pedras que tinhão sido 
batidas todo o dia pelos raios do sol, mesmo depois delle posto, 
ainda marcava 63°. — Dahi é fácil explicar a alta temperatura da 
agua de infiltração em tão pouca profundidade: e o que não deixara' 
de contribuir para o seu augmento são as myriadas de morcegos que 
formão um tapete fechado nas paredes e nos tectos da gruta, aquelles 
afastados de oito palmos com altura e 12 no lugar mais quente. 

Pouco além da villa de Lavras existem ainda as antigas escava- 
ções donde se tirava ouro. porém em pequena quantidade : poste- 
riormente apparecêrão dous Inglezes que formarão uma companhia 
e começarão a lavrar de novo. mas desapparecêrão repentinamente, 
e a melhor mina que tinhão descoberto forão as algibeiras dos 
accionistas. 

Perto de Lavras se acha amiantho de boa qualidade. 

Na estrada do Crato, no lugar chamado Riacho dos Porcos, a ve- 
getação muda subitamente de aspecto, e o solo deixa de ser grani- 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXX1X 

tico, deparámos pela primeira vez comas rochas arenosas, os psam- 
mitos, que agora só por curtos intervallos perdiamos de vista. Perto 
de Missão Velha, no lugar denominado Cachoeira, elles se apresentão 
muito rijos com fractura conchoide, vermelhos simulando jaspe. 
As aguas, e o material que ellas acarretão, esmerilharão esta rocha 
em todos os sentidos formando panellas , caldeirões, e algumas 
soccavas profundas, que passarão por crateras de vulcões, etc. 

Pouco antes de chegar ao Crato se descortinava adiante de nós a 
serra do Araripe, que já de longe tínhamos avistado como uma extensa 
linha perfeitamente horizontal, que forma a aresta superior de sua 
borda ; agora de perto viamos o extenso plano coroando paredes ver- 
ticaes com ângulos salientes, e concavidades reintrantes quasi semi- 
circulares. E' uma enorme lage de psammito com 200 palmos pouco 
mais ou menos de espessura, com as suas bordas roídas pelas aguas e 
pelo tempo, ella representa uma esponja colossal que as chuvas 
imbebem, e que gotta a gotta despeja para os diversos canaes subterrâ- 
neos que em todo redor aíílorão ao mesmo nivel e donde a aguasahe 
com temperatura de 26° tanto no Crato como em Pernambuco. 

O leito desse tronco de psammito é um calcareo stratificado em 
laminas de um millimetro para cima de espessura, e de parallelismo 
perfeito ; em SanfAnna as camadas são mais grossas e prestão-se para 
pedra lithographica. 

Por baixo deste calcareo se acha uma camada de schisto foliaceo 
muito bitumoso, é uma espécie de turba reduzida a carvão, ella só 
tem algumas pollegadas de grossura, por isso não se presta a ser 
trabalhada. 

Segue-se immediatamente um barro azul, e ás vezes denegrido, en- 
tremeado com estratificações de psammito rijo, cinzento, contendo py- 
ritese galenas, exactamente a mesma pedra que encontrei na ilha de 
Itaparica, com a única differença que lá ella formava camadas inclina- 
das, e aqui perfeitamente horizontaes : para baixo seguem-se outros 
psammilos, nos quaes o Dr. Gonçalves Dias encontrou madeira petri- 
ficada perto de S. Pedro, a duas léguas da villa de Milagres. 

Do Crato fomos ao Brejinho examinar a caverna á que davão sete 

c. s. (17) 



CXXX RELATÓRIO 

léguas de comprimento; não nos foi possível dar com essa extensão, 
fomos para ella por um caminho onde poucos momentos antes 
passara uma onça, cujos rastos estavão muito frescos ; uma grande 
cratera d'abatimento era o primeiro indicio das cavernas, depois roja- 
va-se de gatinhas entre duas pedras, e no fim desse apertado canal 
tivemos de descer por uma corda, cousa de 30 palmos, no espaço 
que se compunha de uma agglomeração de algumas abobadas per- 
feitamente hemisphericas, que todos os invernos descascão, e au- 
gmentão assim de capacidade até que o fecho se torna muito fraco 
e desaba, originando deste modo um funil com um cone de entulho no 
meio. E' este o processo de erosão da serra do Araripe, que annual- 
mente fornece consideráveis quantidades de arêa aos rios de Jagua- 
ribe e de S. Francisco ; deste modo é que se formarão esses saccos ou 
sinuosidades, que por todos os lados limitão aquella grande cha- 
pada. 

No Brejinho encontrei aquelles ichtyolithos que Agassiz classificou, 
pertencentes á formação cretácea ; eu não os vi em parte alguma 
no seu jazigo primitivo, estavão sempre em terras provenientes de 
desmoronamento e entulhos. Não parão só nisso os nossos achados, 
ainda uma porção de coprolithos, ossadas talvez de saurios, dentes 
de peixes, e uma planta de folhas imbricadas athrotaxites , que 
até hoje não se conhecião, tirámos do mesmo lugar; tive noticias de 
conchas e zoophytos fosseis na fronteira do Piauhy. Era pois uma 
rica colheita scientifica que eu tinha adiante de mim, e com prazer 
eu me atiraria a ella, pois creio que bons trabalhos scientificos 
feitos no paiz e por filhos da terra darião credito ao Brasil, manifes- 
tando a sua tendência ao progresso, e um pouco de bom nome com- 
pensaria bem o não se descobrirem minas de ouro e diamantes, que 
além disso no Geará talvez trarião, nas condições actuaes, males em 
vez de beneficio; a provincia não pôde cuidar em mineração emquanto 
deixar perder os seus grandes recursos para alimentação. 

Não me foi possível executar esses trabalhos, que terião segura- 
mente um bello resultado ; mas um concurso de circumstancias 
imprevisto forçou-me a uma retirada a marchas forçadas : Estava- 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXXXI 

mos em Janeiro, e ao partir da capital da província tinhamos levado 
fundos que chegassem até esse tempo, e tinhão ficado nos cofres quan- 
tias suíficientes para as despezasde mais oifomezes: sabiamos que 
existião as ordens para que nos fossem elles fornecidos quando os re- 
quisitássemos, á vista disso contávamos com dinheiro para mais 
três mezes que se tinha mandado requisitar. Infelizmente, attentasas 
grandes distancias, disseminados como estavão os diversos chefes de 
secção pela provi ncia inteira, deu-se desencontro da correspondência 
donde resultarão alguns equívocos, em consequência dos quaes ficou 
a commissão sem dinheiro, e sem poder explicar os motivos desse con- 
tratempo, ainda mais aggravado pela mudança do presidente da provín- 
cia, que ainda não estava em dia com os negócios dacommissão. 
Da corte escrevião-nos além disso que se ia tratar da nossa retirada. 
A' vista de tudo isto suppunhamos que se tratava de um adiamento 
da commissão, e nós teríamos de contrahir empenhos para os quaes 
não estávamos autorisados se quizessemos nos demorar ; como o 
Dr. Gonçalves Dias e eu não nos queríamos arriscar a isso, tratá- 
mos de regressar para a capital da província, com a maior brevi- 
dade, porque as sobras do nosso orçamento não davão margem para 
demoras. 

Por isso na volta do Brejinho demos uma chegada rápida ás 
Tabocas e ao Exú na província de Pernambuco , cortámos a cha- 
pada do Araripe ainda em duas direcções para o Crato e a vi lia 
da Barra do Jardim, examinámos o que Gardner declarara serem 
restos de penedos de greda, no que se enganou , pois não é senão 
tabatinga ou silicato de aluminia. 

Em S. Pedro não tivemos tempo de ir pesquisar o lugar onde se 
encontrara por acaso uma porção de zinco, ao qual se não ligou 
i mportancia por não ser prata ! Também não pudemos ir aos rochedos 
de gesso fibroso, que tem importância scienlifica e pratica, nem tão 
pouco aos lugares onde afflorão saes de soda e caparosa, què os habi- 
tantes empregão para curtir. 

Em Milagres separámo-nos ; o capitão Coutinho voltou para o 



CXXXIl RELATÓRIO 

Crato a seguir com o comboi pelo Icó , onde tínhamos deixado 
collecções, e pelo valle do Jaguaribe ; marcámos dia para nos en- 
contrarmos no Limoeiro. Dr. Dias tinha que ir vêr os restos de uma 
tribu indígena ainda numerosa em 1848 e hoje quintada, que se 
acha na serra do Salgadinho ; para mim foi interessante essa ex- 
cursão, pois lá em cima da cordilheira de granito fui encontrar 
uns restos de psammito igual ao do Araripe , o que denota que 
aquella chapada vinha até aqui, e que o valle de Milagres por onde 
hoje corre o rio dos Porcos, e que tem quasi vinte léguas de largura 
sobre um comprimento de pelo menos doze, e uma altura de mais de 
1,500 palmos, foi todo devido a erosão das aguas, e o seu material 
transportado pelo Salgado e pelo Jaguaribe para o oceano. 

Descemos para a provincia da Parahyba do Norte , de caminho 
para S. José tive de experimentar a rapidez do effeito erosivo das 
aguas ; o rio de Piranhas, que estava quasi sêcco na véspera, tinha 
tomado agua durante a noite e ainda continuava; o lugar da passa- 
gem costumava dar váo, eu dei esporas ao cavallo, e apenas tinha 
dado um passo foi-se com o cavalleiro para o meio de uma corrente 
forte ; o rio tinha cavado novo leito e transformado uma margem em 
ribanceira, mais abaixo o Dr. Dias, do qual eu me tinha desgarrado, 
teve de contramarchar uma légua para passar só meio molhado. 

Continuámos a nossa viagem passando pela Cajazeira, e próximo a 
Patamuté, donde trouxemos requissimas amostras de mineira de 
ferro, o terreno desde o pé da serra até alli era formado dos schistos 
silicosos e argillosos que já tínhamos encontrado no Icó. 

A cidade de Souza está collocada á borda do rio do Peixe na bacia 
psammitica com conglomerados que se assemelhão muito áquel- 
les que costumão cobrir os depósitos de carvão de pedra, existem 
alli também calcareos estratificados, e nos disserão que perto havia 
um monte donde se tirava ouro, etc; isso era por sem duvida ten- 
tador, porém em Milagres só tomámos provisões que chegassem até 
á próxima cidade de Souza, e nosso calculo foi exacto, porém não 
calculámos com o triste desengano que nos aguardava. Na cabeça da 
comarca de Souza os únicos géneros alimenticios que os commissarios 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXXXI1I 

do governo encontrarão á venda forão bacalháo podre, um queijo 
fóssil, e unia lata de sardinhas que nos foi vendida por especial 
favor ! 

Os nossos cavallos também não se achavão melhor, posto que ha- 
bituados a viver de pitadas de capim pulverisado, nem essas achavão 
entre as pedrinhas, a babugem ainda não estava de pegar. Tudo isso 
nos obrigou a ir em busca do Rio-Grande do Norte. As vinte léguas 
que nos separavão da villa do Páo dos Ferros constavão quasi exclusi- 
vamente de estrada naturalmente macadamisada com fragmentos de 
feldspatho duro de arestas muito aguçadas e quartzo da mesma forma, 
víamos o momento em que os cascos das nossas cavalgaduras todas 
desferradas ficassem mutiladas, e nós tivéssemos de medir o espaço a 
pé; o cavallo em que vinha o Dr. Dias já trazia os cascos mettidos 
em botas de sola. Os nossos estômagos ás vezes digerião alguma galli- 
nha, outras dependião do que as espingardas derribavão. 

Chegámos a salvamento em Páos dos Ferros, era tempo de jury e 
havia que comer. Todo o terreno era gnais e por cima delle corria o 
rio do Apodi, cuja agua ao meio-dia marcou 36° de temperatura! 
Viamos a serra do Pereiro de um lado, no outro a do Martins, e no 
centro a do Apodi. 

Quizemos ir a Porto-Alegre e á Maioridade, de lá ao Olho d'Agua do 
Milho, e atravessar a inhospita extremidade da Catinga de Góes para 
o Limoeiro; precisávamos de novas cavalgaduras, as autoridades de- 
claravão-nos que tinhão ordens amplas para nos auxiliar em tudo 
quanto estivesse ao seu alcance, porém nesse ponto estavão impotentes, 
por causa da má estação. 

Mudámos, pois, de intenção, e seguimos pelo valle do rio Figuei- 
redo, levando o ultimo pedaço de carne sêcca que o juiz de direito 
possuia na despensa. - 

Passámos junto ao morro do Cabello-não-tem, onde se costuma 
tirar ouro ; considerações de toda a espécie nos aconselhavão a passar 
de largo, e só começámos a respirar livremente ao transpor a fronteira 
do Ceará ; alli pela primeira vez, depois do Jardim, encontrámos leite 
e queijo na barra do Figueiredo, encontrámos conhecidos, bom aco- 



CXXXIV RELATÓRIO 

lhimento, eoJaguaribe correndo, porém pasto ainda nenhum, era já 
Março ; as chuvas forão escassas ! 

No Limoeiro tivemos ainda de esperar pelo coraboi . que chegou ura 
dia depois do aprazado, as cargas tinhão tomado banho no riacho da 
Cachoeira, que estava de nado, e o capitão Coutinho as não acompa- 
nhou, ficara no Crato de cama ; parte das cargas ficarão no Icó. os 
animaes não podião trazel-as, estavão fracos, faltava pasto, e não se 
encontrava miiho á venda. 

Seguimos para diante, á espera de melhorar de um pouso a outros 
deixei de examinar os calcareos fossiliferos perto do Limoeiro, estu- 
dei apenas a enorme alluvião do Jaguaribe, que depositou por muitas 
léguas os detritos doAraripe, e depois que levantou o terreno consi- 
deravelmente cavou o seu leito na arèa, e em muitos lugares o muda. 
Essa alluvião, as aguas transbordadas a cobrirão de limo, e a planície 
de muitas léguas a perder de vista é revestida de carnaúbas. 

Em Russas e no Aracaty achámos alguns recursos, principalmente 
para as nossas cavalgaduras, e pudemos chegar á Fortaleza, deixando 
apenas três animaes atrás ; fizemos a nossa entrada debaixo de um 
magnifico aguaceiro. Ao mesmo tempo chegava o vapor do sul, 
trazendo ao presidente da provincia ordem para que nos fornecesse os 
fundos que pedi ssemos, dentro dos limites do orçamento, que estava 
em vigor. 

Essa explicação chegou, porém tarde, perdi a occasião de executar 
trabalhos importantes no Carirí, e a minha cavalhada estava exnausta 
e impossibilitada para o serviço nos três mezes próximos. 

Tendo chegado o presidente da commissão e o chefe da secção 
geographica, reunimo-nos e mandámos participar ao governo impe- 
rial quaes os trabalhos que ainda nos restavão, e como deverião ser 
executados, e no caso que fosse approvado o plano, pediamos provi- 
dencias para que não experimentássemos outra contrariedade como a 
do Crato. 

Eu, por essa occasião, declarei que iria ao norte da provincia, 
seguiria a cordilheira da lbiapaba, com excursão a Marvão pelo Cratiús 
e Inhamum até o Carirí, que de lá atravessaria para o Piauhy, Mara- 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXXXV 

nhão, para descer pelo Itapicurú, ou irem busca do Tocantins e sahir 
no Pará. Roteiro certo eu mesmo não podia apresentar com antece- 
dência, pois a minha marcha dependia da natureza das formações 
que eu iria encontrando, e que me desviarião para um lado ou outro. 
Eu pedia fundos até Março seguinte. 

Isto foi em Abril de 1860, esperei poder partir em Julho. 

Emquanto aguardava a respota do governo, occupei-me a estudar 
o movimento das arêas na costa. Elias não contém indicios que provem 
a sua proveniência da costa d'Africa, porém hoje, depois de ter visto 
o Araripe, a sua erosão enorme e as massas de agua que os rios 
trazem em certas épocas, não preciso recorrer a uma origem es- 
tranha. 

Além disso, as arêas que vierão dos Carirís, trouxerâo comsigo as 
sementes das plantas que ellas nutrião e vierão creal-as nos lugares 
onde de novo se fixarão ; este argumento para o Ceará é forte, pois a 
vegetação alli é pouco andeja , ha poucas espécies que requerem 
identidade de clima e de terreno, outras, porém, dadas estas circum- 
stancias, não se movem ; temos, por exemplo, o catolé abundante nas 
serras e sertões do sul da província, falta nos do norte, onde o clima 
e terreno são os mesmos ; da mesma forma a uricana, commum nos 
cimos de Maranguape e da Aratanha, busca-se debalde nos da 
Meruoca e Uruburtama, que são da mesma altura ; o sabiá e o páo 
branco abundão no Ceará , e não penetrão no Rio-Grande , nem 
sobem o Salgado ; naquelle o clima pouco inílue, pois elle vai inva- 
dindo as serras á medida que o machado põe obstáculo ao crescimento 
das arvores primitivas; ainda poderíamos citar outros exemplos, 
porém estes bastão para provar que uma vegetação em massa, trans- 
portada de um lugar para outro, só o poderia ser com o terreno que 
a creou. 

A única differença geológica que se pode admittir em alguns casos, 
pelo aspecto da vegetação, é pela distribuição de arvores que perdem 
as folhas e outras que as conservão, aquellas só buscão decompo- 
sições graníticas , que se reseccão completamente , estas, ou as 
mesmas terras em lugares mais elevados que recebem humidade, ou 



CXXXVI RELATÓRIO 

os baixios areentos, que nunca secção tanto como os barrentos ou 
argillosos. 

A arêas trazidas pelo rios, são transportadas pelas correntes mari- 
nhas e lançadas sobre as praias, onde o vento as vai varrendo e 
accumulando em pequena distancia, com rampa suave do lado donde 
elle sopra e do mar, e escarpada do opposto, assim se amontoão col- 
linas, cuja altura chega ás vezes a 300 palmos. 

A natureza providenciou meios de fixar esses montes de material 
movediço, de dar-lhes consistência e torna-los férteis. O primeiro 
effeito de uma orla pouco levantada é filtrar as aguas que vem de 
terra, reter as matérias solidas que contém, de modo a tornarem-se 
em pouco tempo quasi impermeáveis, desta maneira formão-se lagoas 
muito á beiramar , sendo alimentadas pela resaca das marés : 
altas ahi desenvolve-se uma prodigiosa vegetação immersa, cons- 
tando principalmente de Charas, Naja, e Ruppia, cujos detritos dão 
a primeira camada de terra vegetal, que misturada mais tarde com 
novas arêas, torna-as aptas a alimentar vegetação \ se a duna já é 
maior de modo que a agua salgada não a possa mais transpor, são 
detidas as aguas da chuva com toda argilla que trazem em suspensão 
como finissimo lodo, estabelecem-se lagoas, onde não tardão a vejetar 
Villarsias, Mayaccas, Nitellas e uma variedade extraordinária de espé- 
cies de outras algas. Quando cessão de viver vão engrossar com seus 
elementos o lodo, o qual, sendo especificamente mais leve, penetra 
pelas massas de arêa que vem avançando e a duna impregna-se 
dessas matérias, o effeito da capillaridade contribue igualmente para 
fazel-as subir. 

Algum protoxydo de ferro existe no lodo e na mica trazida pelas 
arêas que vem de regiões graniticas, pelas decomposições passa á 
peróxido e produz cimento, que transforma uma porção da duna em 
psammito duro. 

O levantamento da costa inílue igualmente sobre os depósitos das 
dunas, o primeiro effeito é tornar-se mais larga a praia, ahi se accu- 
mulão. novas arêas, e assim tem-se novas dunas em formação, logo 
que ellas tenhão adquirido algum desenvolvimento, parão as primeiras 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXXXVH 

e a vegetação não tarda a invadil-as, e torna-as collinas cobertas 
de mata, servindo de guarda-vento, que protege o crescimento 
de arvoredo mais alto, e de barreiras que impedem o escoamento 
das aguas infiltradas. 

Uma insignificante alga terrestre do género Scytonema se en- 
carrega de fixar as arêas que o vento levara terra a dentro a dis- 
tancia de uma légua ; ella forma na superfície um denso tecido de 
fios tenuissimos, o qual resiste ao vento e ás chuvas, e ao mesmo 
tempo serve de abrigo, debaixo do qual germinão as sementes de 
vegetaes mais perfeitos, e por fim contribuem para fertilisação das 
arêas. 

As dunas são longitudinaes se a costa corre parallela á direcção 
do vento, são atravessadas logo que esta é batida em cheio, então 
tornão-se ellas verdadeiros contrafortes, qUe impedem a formação 
de cômoros a grandes distancias além. 

O movimento das arêas, combinado com o levantamento do litto- 
ral, tem por consequência immediata a destruição de bons anco- 
radouros, levantar o fundo do mar, ete. ; convém por isso haver 
grande cautela quando se tratar de construcções marítimas, como 
portos, diques, etc. : são obras dispendiosas e podem ficar inutili- 
sadas; é, pois, questão a estudar-se. No Ceará o levantamento foi 
considerável; perto do Aquiraz ha um lugar onde o mar recuou de 
dez braças em 30 annos, ao que os habitantes não podem applicar 
a sua explicação favorita a accumulação de arêas, porque as bali- 
sas não forão cobertas. 

Ha também circumstancias que influem sobre a estabilidade das 
dunas, de modo que são destruidas em um lugar para serem recons- 
truídas mais adiante, estas cobrem matas elevadas, e quando des- 
manchadas deixão os troncos resequidos com a sua superfície coberta 
de lenhito. 

Durante algumas excursões sobre cômoros debaixo de sol ardente, 
fui surprendido por aguaceiros, que tive de supportar por falta de 
abrigo, o que me valeu doença bastante prolongada ; a este tempo 
o capitão Coutinho voltava do Crato ainda não de todo restabele- 

c. s. (18) 



CXXXVII1 RELATÓRIO 

eido ; elle planteou, nivelou e balisou uma porção de dunas para 
se poder avaliar no fim de algum tempo o seu crescimento. 

Após de mim adoeceu meu companheiro de viagem, o Dr. Gon- 
çalves Dias, que depois de restabelecido seguio para o Maranhão em 
busca de indigenas puros, que não encontrava no Ceará. 

Eu preparei-me a seguir para o interior em principio de Agosto, 
emquanto aguardava resposta do governo imperial. 

Mas de uma excursão que fizemos á Pacatuba vollou doente o 
meu adjunto ; esteve de cama um mez, no fim do qual altestou o 
seu medico assistente que ainda devia continuar em tratamento três 
mezes, e que ainda então seria pouco prudente expôr-se ás privações 
de uma longa viagem pelo interior. 

Requisitar outro adjunto era cousa de grande demora: resolvi 
pois tomar um j homem que tinha habilidade manual para concerto 
de instrumentos, esperei podel-o instruir em colleccionar rochas, 
fazer observações meteorológicas e photographar os objectos que eu 
encontrasse notáveis, e principalmente de vigiar o comboi e cuidar 
no tratamento das cavalgaduras, etc. ; pedi autorisação ao governo 
para podel-o engajar, não como adjunto, pois fallavão-lhe todos os 
estudos, mas sim como addido. 

Estávamos em Outubro, e o governo não tendo ainda resolvido 
acerca da viagem que tínhamos a emprehender, o presidente da 
provincia comprehendeu quanto era prejudicial a nossa inacção, to- 
mou sob sua responsabilidade de nos mandar adiantar as quantias 
de que precisávamos para despezas de viagem ; eu parti só em prin- 
cipio de Novembro. 

Segui pelo Curú, onde encontrei um tronco de formação ba- 
sáltica. 

Percorri a Uruburetama em todos os sentidos, e a ascensão de al- 
guns montes, onde cheguei transpirando e sem o menor abrigo, 
derão comigo de cama no mais inhospito lugar que conheço. 

Ainda convalescente, fui á lagoa do Ripina, onde se encontrão 
ossos de animaes enormes; quando lá cheguei cahio uma violenta 
pancada de agua, principiava o inverno, e em poucas horas encheu 



DA SECCAO GEOLÓGICA CXXXIX 



e transbordou um açude que ha quatro annos não tinha sangrado, 
ficou frustrada a minha colheita de ossos, tinhão tirado d'alli um 
esqueleto inteiro e alguns ossos que indicavão existir ainda outro. 
No entretanto não foi baldada a minha viagem, pude verificar 
que ja' no tempo em que vivião aquelles animaes o clima do Ceará 
era o mesmo de hoje, que já havia então sêccas desastrosas. 

Deixei recommendado que se excavasse com cuidado os ossos 
ainda existentes na lagoa do Ripina, assim como os da lagoa de 
Socatinga e da do Limoeiro. Mais tarde retirei essas ordens, por 
não ter autorisação para dispor de fundos que eu tinha em mãos. 

Fiz uma excursão ao Mundahú, onde me informarão haver re- 
sinas em quantidades extraordinárias de uma arvore especial j pelas 
amostras que vi não podia deixar de verificar um facto importante 
para a industria, fui illudido, apenas pude colligir alguma cousa 
.sobre os recifes e as dunas; a resina é a casca de uma Moquilea, 
que enterrada resinifica-se, facto curioso debaixo do ponto de vista 
scientiíico, e talvez venha a ter ainda algum alcance geológico. 

Segui depois para Sobral, em todo caminho, como na mesma 
Urubetama e nas margens do Curú, observei uma curiosa efflorescen- 
cia de sal commum nos gnais, sobretudo naquelles que se approxi- 
mão a micachistos, d'ahi resulta as aguas de muitos riachos, quando 
já correm pouco, tornarem-se salobras. 

Igualmente contém grande quantidade desses saes as aguas ther- 
maes da fonte do Page ou Carnahú-pagé, onde se desprende em borbu- 
lhas continuadas uma corrente de gaz, na maior parte ar atmospheri- 
co. Concentrei 60 litros dessa agua, e colhi com todas as precauções 
uma porção de gaz, para analysar mais tarde. 

Perto de Sobral existe um penhasco de granito isolado e muito 
alto, que passa por vulcânico, houve duas erupções que mettêrão 
medo a muita gente, porém sem terremotos, nem outro apparato, 
que infallivelmente teria precedido qualquer manifestação da parte 
do calor central ; fui examinal-o, e um incêndio de macambiras 
pareceu aos ânimos prevenidos um corrimento de lavas ! 

Visitei a serra da Meruoca, que é outro systema isolado no meio 



CXL RELATÓRIO 

do sertão ; este, porém, differe de todos os mais pela sua compo- 
sição geológica, a rocha crystallina é quasi exclusivamente um 
bello feldspatho côr de rosa, pedra magnifica para obras e bella 
para monumentos. 

Em Sobral demorei-me algum tempo esperando pelo conselheiro 
presidente da commissão, que vinha da lbiapaba ; havia offieios para 
elle, e eu precisava saber que resolução tinha o governo imperial 
tomado a respeito da secção a meu cargo. 

Com effeito se tomarão providencias, que se podião considerar 
resposta á nossa representação de Abril, e erão as seguintes : em 10 
de Outubro se officiou do Rio de Janeiro ao presidente da commis- 
são no Ceará que desde o 1* do dito mez fosse executada uma ta- 
beliã, que acabava de ser votada pelo corpo legislativo no orçamento 
para o anno seguinte ; essa ordem partio d'aqui em 23 de Outu- 
bro, e só pôde alcançar o presidente da commissão, que andava 
era viagem, no mez de Janeiro seguinte : já Unhamos, pois durante 
três mezes, deixado de cumprir a lei, pela difficuldade das commu- 
ni cações. 

Além disso, a tabeliã foi confeccionada sem se attender ás exigên- 
cias do serviço, marcou-se o numero de serventes que deviamos ter, 
era muito insufficiente ; marcárão-se os jornaes que elles devião 
perceber, erao exagerados ; marcou-se quanto os cavallos devião 
gastar diariamente, cousa que variava de um modo extraordinário, 
segundo as localidades. 

Representámos ao governo imperial que a tabeliã era inexequí- 
vel, e resolvemos reuni rmo-nos na capital da provincia em Março. 

Já se vê que a minha exploração da lbiapaba e viagem ao 
Piaufry estava completamente frustrada. De mais a mais se me ti- 
nha negado a autorisação que eu pedia para engajar o addido que 
eu havia proposto; eu estava só, sem adjunto, via-me forçado a 
occupar-me de lodo detalhe o mais material da secção, e não me 
restava tempo para outros trabalhos. 

Isto me não convinha, nem convinha ao paiz. Dirigi-me portanto 
á Granja, e embarquei todas as collecções que tinha com a minha 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXLI 

bagagem para a capital da província, emquanto eu iria para lá por 
terra percorrendo rapidamente a Serra-Grande. 

Eu levava comigo todos os trabalhos e notas de quasi dousannos 
tanto meus como os do capitão Coutinho, e vários documentos im- 
portantes que pude obter, tinha todas as observações astronómicas, 
metereologicas, hypsometricas, todas as medições geológicas, os pontos 
que tomei para organisação do mappa geológico, as notas de uma 
porção de analyses de plantas medicinaes que fiz durante a estada na 
capital, e quatro volumes de photograpiíias de todos os géneros; levei 
tudo isto comigo porque a estação era invernosa, havia toda a certeza 
qué eu me veria obrigado a passar dias encerrado em casa, e essa 
occasião eu queria aproveitar para adiantar o meu trabalho final, 
como realmente o fiz. Voltando por terra para a Fortaleza a toda a 
pressa, previa que teria de passar sete rios talvez cheios sem poder 
esperar alguns dias que elies baixassem ; e ainda tendo bem presente 
o como atravessei o rio das Piranhas, e como vierão minhas collecções 
do Crato, não quiz expor a uma ruina quasi certa tanto trabalho pre- 
cioso, mandei-os de volta com alguns instrumentos, livros e algum 
dinheiro em massos volumosos de notas miúdas. Quando cheguei á 
Fortaleza suppuz já encontral-os, e recebi pouco tempo depois a no- 
ticia que tinhão naufragado : pedi logo providencias, e a presidência 
mandou sem demora uma jangada a ver se podia salvar alguma cousa, 
esta porém também sossobrou, foi preciso ir outra, que nada conseguio, 
segundo parece. 

Para mim foi o mais fatal resultado da referida tabeliã. 

De Sobral eu segui com o Sr. Lagos, o chefe da secção zoológica : 
-da Granja partimos escoteiros para a Serra-Grande , visitámos o 
Iboassú, na raiz havia o completo typo de vegetação do Araripe, e era 
o solo formado de detritos arenosos. 

Visitámos as minas de cobre do Ubary, é um schisto argiloso im- 
pregnado de malachita , contém bastante cobre , porém não em 
(quantidade que valha a pena para se fazer caminhos de ferro e outras 
emp rezas que taes. 

Fomos a Villa-Viçosa, depois a S. Pedro, onde visitamos a afama- 



CXLII RELATÓRIO 

da caverna da Ubajarra : ella se acha em grande penedo de calcareo 
granular, porém cinzento, por fora não apresenta a cor negra do de 
Cantagallo, é de formação mais recente do que o psammito de que se 
compõe a Ibiapaba, o seu solo é uma boa nitreira . Em um dos riachos 
que lhe passão fronteiros achei no meio de fragmentos de psammito 
outros de schisto muito impregnado de pyrites esbranquiçada , o 
que já passou por prata, e em alguns fragmentos se vião vestigios 
de galena. 

Passámos S. Benedicto, Villa-Nova, descemos pelo Ipú; o lugar 
onde se tinha tirado as galenas argentiferas estava cheio dagua. 
não pude arriscar-me ao esgotamento porque a tabeliã não consig- 
nava margem para isso, nem fui estudar as minas de ouro do Jure 
e de Santa Maria pelo mesmo motivo. 

Não longe da Villa-Nova tirou-se sulfureto deantimonio, e amos- 
tras de molybdato de chumbo existentes no musêo vierão daquel- 
las paragens ; também vi amostras de sulfureto de zinco, que dalli 
remettêrão ao Sr. general Bittancourt quando presidente do Ceará. 

A Serra-Grande é composta de camadas de psammito alternando 
com outras de conglomerados, que do lado do Ceará são cortadas 
perpendicularmente, mergulhão com suave inclinação para o Piau- 
Iry; o cimento dessa rocha é argiloso, com algum oxydo de ferro 
na superfície, decompõe-se facilmente, e d'ahi provém a fertilidade 
do terreno que jaz quasi todo desaproveitado a ponto que exceptuando 
Villa-Viçosa, em mais parte alguma achámos milho para as nossas 
cavalgaduras. 

A formação da Ibiapaba parece estender-se para muito longe, o 
Dr. Dias mandou-me amostras importantes do Codó, que coníirmão 
essa opinião. 

Não me foi possivel fazer estudo algum sobre a Ipiapaba, mas pelo 
que vi não posso deixar de recommendar encarecidamente ao Instituto 
Histórico que como iniciador da idéa da creação de uma commis- 
são scientiíica tenha sempre em vista uma exploração minuciosa 
daquella serra, a qual tem de produzir resultados importantes para 
a sciencia, e sobretudo de grande alcance pratico para o desenvolvi- 



DA SECÇÃO GEOLÓGICA CXL1II 

mento do commercio e industria na provincia do Ceará, e crear um 
recurso que possa contribuir poderosamente para annullar os máos 
effeitos das sêccas inevitáveis. 

Para executar essa exploração não ha necessidade de avultado pes- 
soal, pode mesmo ser feito o estudo geológico com os trabalhos topo- 
graphicos que ainda restão por fazer naquella provincia, o chefe da 
secção astronómica é pessoa muito intelligente e activa, que está per- 
feitamente habilitada para isso. Quando mesmo tenha outro indivi- 
duo de completar o serviço dessa secção, podem serene fornecidas 
instrucções detalhadas que facilitem a exploração geológica. 

Voltei para a Fortaleza, e alli chegou-nos nova decisão do governo 
que mandava vigorar o antigo orçamento até Fevereiro, d'ahi em dian- 
te a tabeliã : com isso nada adiantámos, e resolvemos pedir ao governo 
que nos permittisse que viéssemos ao Rio de Janeiro para combinar 
sobre os meios mais próprios para concluir os trabalhos da com- 
missão, eu além disso precisava, de descanso, pois tinha já repeti- 
das vezes soffrido de erysipelas, intermiltentes, e dos olhos, e não 
podia continuar, a ponto que vi-me obrigado a pedir licença para 
me retirar por doente. 

Rio, 4 de Outubro de 1861. 

Guilherme S. de Capanema. 



Secção zoológica. 



Senhor! Obedeço á ordem de Vossa Magestade Imperial, apresen- 
tando desde já um relatório succinto dos trabalhos em que me 
occupei como membro da commissão scientificaencarregadade explo- 
rar o interior de algumas provincias do Império menos conhecidas. 

Nomeado chefe da secção zoológica por decreto de 7 de Marco de 
1857, confiou-me logo depois o Exm. Sr. conselheiro Luiz Pedreira 
do Couto Ferraz, então ministro e secretario de estado dos negócios do 
Império, a tarefa da acquisição dos objetos necessários para a marcha 
da commissão, que se pudessem obter com mais vantagem nesta 
corte, quer em relação á sua melhor qualidade, quer ao seu preço ; 
visto como uma parte dos preparativos, não só para o uso geral, 
mas ainda particular de cada secção, havia sido recommendada aos 
Srs. Drs. Giacomo Raja Gabaglia e António Gonçalves Dias, que 
nesse tempo se achavão na Europa em serviço do governo. 

Desempenhei quanto melhor me foi possivel o honroso encargo, 
como minuciosamente expoz ao Instituto Histórico, na sua sessão 
magna de 15 de Dezembro de 1857, o meu illustrado collega e com- 
panheiro de viagem o Sr. Dr. Guilherme Schúch de Capanema; e por 
isso evito agora a repetição, não desprezando porém o ensejo de 
responder a duas arguições injustas com que se abrio a longa série 
das successivamente feitas depois contra a commissão scientifica. 
movidas quasi todas por paixões particulares, ou por pouco conhe- 
cimento da matéria. 

Versa a primeira dessas arguições, a que me refiro, sobre a vo- 
lumosa bibliotheca mandada vir pela commissão, e o material 
qualificado immenso e desnecessário, que eila também exigira e 
apromptára. 

A respeito dos livros deixemos fallar o Sr. Dr. Capanema : 

« Seu numero é bastante considerável, diz elle, apezar de somen- 
te pedirmos as obras indispensáveis e que se não encontrão nas 



RELATÓRIO DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CXLV 

bibliothecas publicas desta cidade, levando mesmo em conta as pos- 
suídas por particulares, e de que temos conhecimento : por isso dei- 
xámos de pedir as esplendidas publicações de Humboldt e Bompland, de 
Spix e Martius, de Pohl, de Saint-Hilaire e de outros autores, existentes 
na bibliotheca nacional e na do nosso Instituto ;e bem assim as obras de 
Reaumur, Olivier, Schoenherr, Fabricius, Guérin-Méneviile, Meigen, 
Macquart, Déjean, e muitas outras bellas monographias que possue o 
nosso amigo e companheiro de expedição o Sr. Dr. Lagos, em cuja 
excellente bibliotheca se encontrão também as preciosas collecçôes 
completas dos Annaes da Sociedade entomologica de França, das 
Suites a Buffon publicadas por Roret, a Historia natural dos peixes 
por Cuviere Valenciennes, etc, etc. Relativamente a jornaes scien- 
tificos, poucos se pedirão, por ora, para não avultara despeza ; porém 
as series completas de muitos são de absoluta necessidade, poisnellas 
se achão insertas numerosas memorias de importância sobre a 
geographia e historia natural do Brasil, e cumpre que a commis- 
são esteja em dia com esses trabalhos para não dar o triste espectá- 
culo de isolamento scientifico e ignorância do que se tem escripto 
sobre o próprio paiz. » 

Relativamente ao immenso e desnecessário material occorre o se- 
guinte. Ninguém ignora que a commissão scientifica era composta 
de cinco secções, cada uma dedicada a estudos especiaes ; e o trem 
de todas, inclusive as bagagens de uso particular, pouco excedeu a 
duzentas caixas, numero bem diminuto se o compararmos ao volu- 
me acarretado por outras expedições de igual caracter. Sirva de pro- 
va um único e recente exemplo. Lê-se no tom. 9." do Cosmos, pag. 
459- c< O Sr. Piazzi Smyth, astrónomo real da Escossia, embarcou 
no yacht Titania a 20 de Junho de 1856, para a sua expedição 
astronómica ao Pico deTeneriffe, conduzindo setenta caixões cheios 
de apparelhos perfeitamente em estado de servirem. » Ora, os 
trabalhos astronómicos e geographicos ordenados pelas instrucções 
especiaes dadas ao meu distincto collega o Sr. Dr. Giacomo Raja 
Gabaglia, chefe da respectiva secção, erão mais amplos e variados 
do que os requeridos do astrónomo escossez, devião ser executados 

19 
c. s. 



CXLVI RELATÓRIO 



n uma área de centenas de léguas, e não em um ponto limitado ; 
mas apezar disso não avultou mais o numero de caixas conduzidas 
pela secção astronómica da commissão scientifica brasileira, tanto 
assim que o Sr. Dr. Gabaglia se viu varias vezes embaraçado pelo 
desarranjo de alguns instrumentos dos quaes não levara sobresalen- 
tes. Demais, nem todo o trem embarcado tencionava a commissão 
levar comsigo para o interior, que bem previa ser uma dificuldade 
quasi invencível, e que custaria enormes sommas : era sua resolução, 
como effectuou, formar um deposito na cidade da Fortaleza, d*onde 
fosse tirando os objectos á proporção que delles necessitasse nas suas 
digressões pelo centro da provinda. Tanto prova-se ainda não ler 
havido superabundância nos preparativos, que depois de estar no 
Ceará a commissão requisitou da corte vários objectos cuja falta 
reconhecera. 

Refere-se a segunda arguição ao armamento de que foi munida 
a expedição scientifica. 

« Segundo parece (assim se exprimiu facetamente um órgão da 
imprensa do Ceará) , a commissão vem de cangaço : vem armada 
da cabeça até os pés, e com algum piquete de cavallaria andante 
para livral-a dos ataques das feras, das tribus de anthropophagos. e 
de assassinos malvados, e talvez de moinhos de vento. A' vista de 
tal armamento de soldados, suppõe-se que é perigoso passear-se no 
jnterior do Ceará, e receia-se que os nossos pacificos patricios do 
sertão sejão tão selvagens que incommodem os illustres sábios. E' 
um engano completo : os nossos sertanejos são hospitaleiros e paci- 
ficos, recebem os viandantes com agrado, e os obsequião quanto 
podem. A commissão só deve receiar as constipações, quedas e 
mosquitos nas montanhas, e no sertão a falta d'agua. o calor do 
sol, alguma cobrinha cascavel, algum novilho zangado, etc. » 

?sada avançou o susceptivel jorDalista cearense, no seu provin- 
cialismo offendido, que a commissão ignorasse quando d aqui sahiu. 
Resolvida a devassar os nossos sertões, já contava que teria de sup- 
portar muitas privações e passar por muitos perigos, d'entre os quaes 
collocava em ultima classe o encontro de assassinos e de anthropo- 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CXLV1Í 

phagos ; que seria preciso velar quando quizesse dormir ; soífrer 
continua fadiga quando o corpo lhe pedisse repouso; tragar fome 
e sede quando appetecesse comer e beber; estacionar em um ponto, 
desejando estar em outro; que muitas vezes não encontraria onde 
abrigar-se do sol abrazador, do relento, da chuva. Nada disto porém 
lhe quebrou o animo, nem lhe fez abandonar a árdua, mas honrosa 
empreza, que aceitara somente pelo interesse de servir a pátria, 
privando-se de seus commodos, e separando-se de seus parentes e 
amigos, talvez com probabilidade de não tornar a vel-os. Assim re- 
signada, partiu a expedição scientifica com o plano de um itine- 
rário, que a falta de tempo e outros motivos, cuja enumeração será 
feita em lugar competente, lhe inhibirão de realizar. Projectava, 
percorrida toda a província do Ceará, atravessar pela do Piauhy á 
de Goyaz, e alli embarcando-se no Araguaya seguiria até o Ama- 
zonas, descendo por este rio em demanda da capital do Pará, d'onde 
finalmente se recolheria á corte. Desfarte decidida, resalta incon- 
testavelmente que era prudência da commissão prevenir-se contra as 
insidias das hordas barbaras, que por certo teria de encontrar ef- 
fectuando o roteiro concordado ; e só temendo essas se acautelou, e 
não por desconfiar dos sertanejos do Ceará, que é fama serem tão 
hospitaleiros como em geral o são os Brasileiros de todas as pro- 
víncias do Império, virtude apregoada unanimemente pelos viajantes 
estrangeiros que percorrerão o nosso território em varias de suas 
zonas, e até mesmo por aquelles que, desejando ostentar espirito, 
procurarão ridicularizar-nos com o intuito de fazerem rir á nossa 
custa os seus leitores. A commissão já sabia, e agora o certifica 
por experiência própria, que hoje se pôde viajar toda a província do 
Ceará sem receio de ladrões e assassinos. 

Justificada pois a commissão, passo sem mais preambulo a tratar 
do objecto principal deste relatório. 

Imitando o exemplo do meu sábio mestre e amigo o Sr. conse- 
lheiro Dr. Francisco Freire Allemão, presidente da commissão 
scientifica, no seu bem elaborado relatório dos trabalhos da secção 



CXLVHI RELATÓRIO 

botânica, fugirei de tornar-me fastidioso narrando minuciosamente 
a minha viagem, e evitarei também a profusão de nomes scienti- 
ficos, que não terião cabimento em um ligeiro esboço, qual vou 
fazer, dos resultados obtidos pela secção zoológica por mim di- 
rigida. 

Partindo deste porto no dia 26 de Janeiro de 1859, a 4 de Feve- 
reiro seguinte chegámos á cidade da Fortaleza, capital do Ceará, 
nada se tendo podido fazer na Bahia e Pernambuco, onde o vapor 
Tocantins, que nos conduzia, apenas se demorou o tempo neces- 
sário para receber combustivel. Desembarcados e postos em ordem 
os objectos pertencentes á secção a meu cargo, poucos dias depois 
comecei a estudar a Fauna daquella província, não só formando 
collecções zoológicas, na conformidade das ordens especiaes que 
me forão dadas pelo governo imperial, mas ainda observando pes- 
soalmente e reunindo informações de pessoas habilitadas e fide- 
dignas. Em quanto os caçadores e preparadores, que comigo levara, 
se occupavão na caça e conservação dos quadrúpedes, aves, reptis 
e insectos, travava eu relações com os pescadores que habitão nas 
praias próximas da cidade, sobretudo junto da ponta do Mucuripe, 
onde se acha collocado o pharol, guia dos navegantes que demandão 
o porto, e a poucos passos uma pittoresca e aprazivel povoação de 
cento e tantas cabanas, construídas de carnaúba, dispersas com ir- 
regularidade sy métrica pelo longo da praia entre elevadas e graciosas 
palmeiras, e occupadas por indivíduos, a mór parte de raça indí- 
gena, que vivem exclusivamente da pescaria. 

Esta arte preciosa, tão lucrativa para o individuo, e não menos 
para o Estado, limita alli as suas operações ás balizas dos nossos 
mares territoriaes, e assim succede em todo o littoral do Brasil. 
Exporei resumidamente como se fazem as pescarias marítimas no 
Geará. A força delias é em jangadas, género de embarcação incon- 
testavelmente bem próprio para resistir aos mares bravios daquella 
costa, os quaes são muito piscosos. Além da pescaria de linha, que 
é a usual nas jangadas, armão também curraes ou cercadas pelo 
seguimento das praias, e servem-se de varias espécies de redes, 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CXL1X 

algumas differentes das empregadas pelos nossos pescadores, quer no 
feitio, quer na largura das malhas, sobretudo a que chamão de ar- 
rasto, judiciosa e prudentemente prohibida pelas camarás muni- 
cipaes em consequência do damno quecausãoa' criação: as mesmas 
posturas prohibem outrosim as tinguijadas em lagoas e poços de rios 
por serem inteiramente nocivas ao publico, não só por matar a se- 
mente do peixe, como pôr inficionaras aguas; e igualmente pescar-se 
de rede ou tarrafa do mez de Agosto em diante até o principio do 
inverno nas ipoeiras, alagôas ou poços de rios d'agua doce que não 
secção de um a outro anno. Desnecessário julgo dizer que estas 
sabias prevenções não são litteralmente cumpridas, como por des- 
graça também aqui acontece em objecto idêntico. 

As jangadas regulares são fabricadas de seis páos, e raras vezes de 
mais ; seu comprimento regula quarenta e cinco palmos, sobre sete 
a oito de largura : os páos são importados de Pernambuco, onde 
existe grande quantidade das arvores que os fornecem. Todas as 
jangadas tem um mastro, em geral de pequiá ou condurú ; o resto do 
apparelho é de cajueiro em algumas, porém na maior parte delias é 
de cedro, pois vigora uma multa contra quem corta o cajueiro, por 
ser alimento da pobreza, e não só o vulgarmente chamado fructo, 
mas ainda a castanha verde, denominada maturí^ a qual comem 
preparada de diversas maneiras. Os cabos são torcidos de gargaúba, 
de embiratanha, de pacote, de carnaúba, das fibras da mesma jan- 
gadeira, e de outros vegetaes filamentosos, que em abundância cres- 
cem espontaneamente na província, e serião por ventura excellente 
matéria para fabricação de papel : estas cordas s3o tintas com mangue 
de sapateiro ou casca de cajueiro. A fatexa de que se servem para 
fundear vem a ser uma pedra habilmente amarrada, á qual dão o 
nome de tauassú {itáassú ?). Quando os pescadores se aventurão no mar, 
além dos apparelhos do seu ofíicio conduzem dous barris, um com agua 
para beber, outro com sal para conservar o peixe, e mais uma mar- 
mita para cozinhar , e cabaça com farinha calculada segundo o 
tempo que contão demorar-se na sua tarefa. As jangadas afastão-se 
da costa muitas léguas a perdel-a de vista, c ás vezes só regressão no 



GL RELATÓRIO 



fim de uma semana e mais dias. Os jangadeiros, que nem de nome 
conhecem a bússola, guiao-se no alto mar pela direcção do sol, dos 
ventos, das estrellas e da Via láctea, á qual denominão mancha. 
Nestas suas temerárias navegações não è raro serem sorprendidos 
por tempestades medonhas, que elles impavidamente arrostão, e das 
quaes safão-se quasi sempre bem quando não se volta a jangada e 
fica algum pelas custas. Tem-se dado também o caso de desappa- 
recerem jangadas com toda a tripolação sem nunca mais haver no- 
ticia delias; mas elles encarão estes successos com indifferença, e como 
uma cousa natural ligada ao seu orneio, e de que podem ser victi- 
mas qualquer dia, pois ninguém, assim dizem, sabe o género de 
morte que lhe está reservado, e nem pode ir contra a vontade de Deos. 
O que fica dito corrobora a illação do presidente da provincia da 
Bahia, no seu relatório de 1852, onde, quando trata da industria da 
pesca' da garoupa em Porto Seguro, descobre nella — a admirável 
disposição dos povoadores do nosso littoral para serviço da marinha, 
quer mercante, quer de guerra, entregando-se os pescadores em frá- 
geis garoupeiras por vinte dias a um mez ás ondas e aos ventos sem 
instrumento algum de navegação, cercados de abrolhos e perigos, 
e reduzidos á nutrição a mais mesquinha e insalubre. 

As pescarias são com effeito a escola onde se formão os mais hábeis 
marinheiros, e segundo Necker é uma oceupação preciosa, que deve 
ser animada como a agricultura por augmentar muito os meios da 
nossa subsistência-, e como objecto particular de politica porque, 
amestrando marinheiros durante a paz, torna-se um meio de força 

durante a guerra. 

Seja-nos permittido traduzir aqui as palavras com que o celebre 
autor da Historia dos peixes, o conde de Lacépède, descreveu com 
a sua habitual eloquência as vantagens e os recursos da pesca. « A 
pesca precedeu a cultura dos campos, é contemporânea da caça ; 
mas existe uma differença entre a caça e a pesca, a saber, que esta 
ultima convém aos povos civilisados, e longe de oppor-se aos pro- 
gressos da agricultura, do commercio e da industria, ella pelo con- 
trario multiplica seus felizes resultados. -Se, na infância dassocie- 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CLI 

dades, a pesca fornece a homens ainda meio selvagens um alimento 
sufficiente e salubre, se os habitua a não temer a inconstância das 
ondas, se os faz navegantes ; ella oíferece aos povos civilisados abun- 
dantes messes para as urgências do pobre, tributos variados para 
o luxo do rico, preparações procuradas para o commercio longín- 
quo, estrumes fecundantes para as terras pouco férteis : ella obriga 
a atravessar os mares, aaffrontar os gelos do polo, a supportar os fogos 
do equador, a lutar contra a tempestade ; ella espalha sobre o Oceano 
florestas de mastros, prepara os marinheiros experientes, os com- 
merciantes audazes, os guerreiros intrépidos. — Mãi da navegação, 
vai sempre crescendo com esta obra-prima da intelligencia humana. 
Á proporção que as sciencias aperfeiçoão a arte admirável de cons- 
truir e dirigir as embarcações, ella multiplica seus instrumentos, es- 
tende suas redes, inventa novos meios de successo, angaria maior 
pessoal, penetra nas profundidades dos abysmos ; ella arranca dos 
mais secretos asylos , e persegue até as extremidades do globo os 
objectos de sua constante pesquiza. » 

Não copiámos debalde este trecho do illustre naturalista francez 
sobre tão importante assumpto, que mais tarde e em lugar competente 
tencionamos desenvolver. Quando se soube no Ceará que para alli 
partia uma commissão scientifica, encarregada pelo governo central 
de explorar o interior da provincia, a mor parte dos habitantes exul- 
tou de prazer, sonhando logo com a descoberta de minas de diamantes 
e de quantos metaes preciosos se conhecem, apezar de possuírem já 
três ricas minas inesgotáveis, mais lucrativas do que se fossem de 
diamantes, de ouro e de platina: e todavia não as lavrão proveitosa- 
mente, talvez por falta de quem lhes abra os olhos, dê impulso e direc- 
ção conveniente ao trabalho : fallo da agricultura, criação do gado e 
pescaria, que pelas circumstancias peculiares com que a Providencia 
dotou aquella fertilissima região, a podem tornar em poucos annos 
uma das mais abundantes províncias do Império. 

Eis porque de propósito me demorei fazendo valer a utilidade das 
pescarias, as quaes infelizmente no Ceará são apenas emprehendidas 
por particulares, assim como em todo o Brasil, sendo de lamentar que 



CLII RELATÓRIO 

alli e em outros pontos se não haja incorporado companhias para ev- 
ptoral-a em grande escala, pois nossos mares e rios forão sempre 
afamados pela excellente e maravilhosa quantidade de peixes que 
nelles vivem; e para prova de não haver exageração basta correres 
olhos pela lista que Pison nos conservou dos peixes já conhecidos no 
seu tempo : por esta razão escreveu Cláudio de Abeville, na sua lingua- 
o-em figurada, ser tão difficil particularizar todas as qualidades, como 
enumerar as estrellas do céo. E' verdade que o governo imperial, 
autorisado pelas camarás legislativas a promover a incorporação de 
companhias para a pesca, salga e secca de peixe no littoral e rios do 
Brasil concedendo diversos favores ás primeiras que se estabelecerem 
regularmente, por decretos de Agosto de 1857 approvou os estatutos 
de duas companhias, a Nereida nesta corte, e outra no Para ; a pri- 
meira para exercer a industria da pesca e salga de peixe ate os Abro- 
lhos e a segunda para abastecer de peixe fresco esêcco o mercado 
daquella capital. Destas companhias a Nereida morreu, e da Paraense 
não se conhece o beneficio. Sem explicar as causas que produzirão 
tão máo resultado, insistimos pela formação de uma companhia pis- 
catória no Ceará, a qual, sendo dirigida por pessoas hábeis, enrique- 
ceria os seus emprezarios, e de muito valeria á província : somente o 
camoropim, peixe grande e saboroso que abunda naquella costa, sem 
contar mais de duzentas outras espécies, ajudaria muito o sustento da 
classe pobre, maximè nos annos em que a sêcca extingue o gado, alem 
de constituir um avultado item na verba da exportação. Cada peixe 
apanhado é uma moeda extrahida do mar, diz Franklin. 

Para não citar outros exemplos, os Hollandezes com a pescaria do 
arenque, em cuja preparação excedem a todas as nações, fazem subsis- 
tir um grande numero de pessoas de toda a idade e sexo, e tem adqui- 
rido incalculáveis riquezas. Attribue-se a um pescador de nome 
Beuckels, natural de Bieroliet (Paizes Baixos), a invenção de salgar e 
metter em quartos os arenques, conservando-os em estado de pode- 
rem ser exportados para differentes paizes: este notável Hollandez 
disse o imperador Carlos V visitando a sua sepultura, -foi maisutil 
á sua pátria do que se tivesse conquistado uma grande província. 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CLIII 



Entre nós mesmos, ninguém ignora o grande commercio que no Para' 
se faz do peixe-boi e do piraurucú, que substitue alli o bacalháo. 

Lê-se no relatório apresentado em 1857 áassembléa legislativa do 
Ceará pelo respectivo vice-presidente, o Sr. coronel Joaquim Mendes 
da Cruz Guimarães, que no anno anterior se havião empregado na 
pesca 69 jangadas, sendo o termo médio do producto daquella in- 
dustria nos três últimos annos 13:500$: « Este facto mostra que ella 
não vai em progresso, accrescenta elle ; essa industria ainda se acha em 
seu estado primitivo, e não creio mesmo que ella possa prosperar sa- 
tisfactoriamente senão por incorporação de alguma companhia; mas 
essa idéa, no estado actual das nossas cousas, não pode passar de uma 
aspiração. » 

Quasi me ia esquecendo dizer que as jangadas pagão imposto, e se 
cobra dizimo do peixe. 

Do meu exame dos peixes principaes que alli vi resultou-me o co- 
nhecimento de que alguns se não encontrão no littoral do Rio de 
Janeiro, e outros, embora da mesma espécie, apresentão modifica- 
ções mais ou menos salientes, e são diversamente denominados, como 
se dá também a respeito de alguns animaes de outras classes. Na dis- 
tribuição dosanimaes marinhos succede o mesmo que na das espécies 
terrestres : cada região cria os seus, e tem uma Fauna ichthyologica 
especial. Em idênticas condições climatológicas e atmosphericas 
vivem espécies análogas; porém raras vezes são em tudo iguaes, e 
offerecem quasi sempre um typo particular. Como bem raciocina 
Maury, a forma e a composição das costas exerce grande influencia 
sobre a distribuição dos peixes, e juntão-se á natureza do clima, á pro- 
fundidade das aguas, á qualidade do fundo para modificar as condi- 
ções da natureza ichthyologica. Quando a constituição geológica do 
littoral é a mesma, e fornece aos animaes marinhos um alimento se- 
melhante e abrigos iguaes, os caracteres de seus habitantes approxi- 
mão-se, e reconhecem-se as mesmas espécies. O gráo de salgamento 
das aguas entra também em parte nas condições biológicas dos peixes, 
e o mesmo se pode affirmar relativamente á Fauna malacologica. Os 
lagos tem a sua população á parte, e ainda mais distincta do que a dos 

C. s. 20 



CLIV RELATÓRIO 

mares, pois nenhuma communicação permitte ás vezes a troca de ha- 
bitantes, e o mesmo subsiste a respeito dos rios. 

Releva confessar que quanto aos hábitos dos peixes e methodo se- 
guido para alcançal-os não nos satisfez o complexo de informações 
tomadas ao acaso, nem as descripções exageradas ou imperfeitas dos 
pescadores: para fallar magistralmente da sua arte conviria praticar 
por muito tempo, ou pelo menos assistir ás lutas desses homens intré- 
pidos contra as ondas, e aos artifícios que elles empregão para sor- 
prender os habitantes das aguas, afim de pessoalmente e com critério, 
e á força de estudos e observações próprias, adquirir-se conhecimento 
exacto dos segredos da sua arriscada profissão, dos utensílios e meios 
postos em acçSo, segundo as localidades e as circumstancias. Suas 
redes e mais instrumentos, bem toscos ao aspecto, produzem effeito 
admirável quando em exercício, ao contrario desses bellos artefactos 
de pesca patenteados elegantemente nas vidraças das lojas, brilhantes 
pelas suas lustrosas cores e apparato, e que todavia estão longe de 
possuírem a facilidade e a solidez requeridas. 

Com quanto eu reservasse para depois de meu regresso do interior 
o demorar-me algum tempo no littoral para seguir os mais hábeis 
pescadores nas suas excursões pela costa, e ainda, me sendo possível 
e permittido, visitar os Abrolhos, tão ricos de pescado, não deixei 
apezar disso de reunir logo quantas informações pude, como já disse, 
e de mandar fazer modelos das redes e outros instrumentos alli em 
uso na pescaria, arrecadando igualmente amostras das matérias de 
que são fabricados. Foi também adiada para a minha volta a collecção 
dos peixes marinhos, attendendo a chegarem aqui melhor conserva- 
dos, do que se ficassem por muito tempo em barris, onde juntos 
perdem mais ou menos as suas cores e brilho : para conseguir-se que 
ellas persistão é mister que cada individuo seja guardado separada- 
mente em bocal de vidro, com álcool de gráo mais ou menos subido 
segundo a natureza do peixe. Não se podia evitar este inconveniente 
quanto aos peixes dos lagos e rios do interior da província, que fui 
arrecadando á proporção que os encontrava. 

Antes de deixar este artigo, já talvez longo de mais, escreverei 



DA SECÇÃO ZOOLOGIGA CLV 

ainda que de meus entretenimentos com aquella boa gente, de uma 
credulidade illimitadi, resullou-me o archivar, além das notas dese- 
jadas, uma curiosa compilação de contos mais ou menos divertidos, 
mais ou menos extravagantes, a respeito de successos occorridos no 
mar, da existência de peixes monstruosos, de naufrágios e scenas hor- 
ríveis que se seguirão, de encontros inesperados na vastidão do Ocea- 
no, etc; historias palpitantes de emoções, como as aventuras imagi- 
narias do Robinson de Daniel de Foé, próprias da penna do capitão 
Mayne Rei d, e dignas de figurarem entre as ficções mysteriosas de 
Hoffmann, ou de esmaltarem com mais vivas cores os desenhos 
fantásticos de Gustavo Doré. Quando algum pescador veterano, en- 
canecido no officio, começa a narrar, os circumstant.es attonitos 
e boquiabertos lhe prestão attenção igual á do Árabe do deserto 
escutando os prodigios da Lâmpada maravilhosa. Estas legendas 
fornecerão sem duvida amplo e novo assumpto ao eximio cantor das 
Brasilianas. 

Passamos a tratar da Fauna terrestre, e diremos primeiro das espé- 
cies bravias e depois das domesticas, começando pelos mammiferos, 
que em geral são os mesmos desta e de outras provincias do Brasil. 

Os grandes mammiferos sylvestres já se não encontrão perto das 
povoações, como é natural em toda a parte, e até mesmo vão desap- 
parecendo pouco a pouco da província do Ceará : em lugares onde 
não ha muitos annos era frequente seu encontro, hoje nem para 
amostra se achão, segundo me affirmárão os moradores, e a experiên- 
cia própria o demonstrou; todos os meios postos em acção para 
obtel-os forão baldados. 

A serra da Aratanha, por exemplo, seis léguas distante da cidade 
da Fortaleza , junto da qual estiverão por algum tempo destacados 
os meus caçadores , foi afamada como valhacouto de onças , antas , 
capivaras, caitetús, queixadas, veados, tamanduás, etc. ; agora porém 
não se topão alli estes anirnaes, e menos nas serras de Maranguape 
e Jatobá, que lhe ficão vizinhas : por acaso apparece algum indivi- 
duo de tal veação. Nas faldas da Aratanha, do lado oriental da ser- 
ra, está assentada a povoação da Pacatuba, cujo nome lhe foi dado, 



CLVI RELATÓRIO 

como indica , por ter sido viveiro de pacas , e presentemente nem 
vestigios alli se vêem de Ccelogenys. 

Não só nos lugares apontados , ainda em todo o Ceará, a anta [Tapir 
americanus) é actualmente rarissima , e o mesmo acontece com o 
tamanduá bandeira (Myrmecophaga jubata) ; mas a espécie cogno- 
minada mirim é coramum. No género Dasypus conta vão-se cinco 
espécies, a saber: tatu canastra, verdadeiro, peba, bola, e china ou 
molle : destes destentados o primeiro desappareceu, e parece que 
sahindo da província procurou refugio nas matas do Piauhy, no que 
foi imitado pelo tamanduá bandeira, o qual talvez desse o exemplo. 
No numero de mammiferos que alcançámos vivos havia um tamanduá 
bandeira, mas infelizmente morreu dous dias antes do nosso em- 
barque. O art. 1 I o das instrucções dadas á secção zoológica recom- 
mendava todas as diligencias afim de serem apanhados vivos alguns 
animaes menos communs ou mais curiosos, cujos hábitos conviesse 
indagar, e remettidos para esta corte, attenta a proposta do Ex m0 Sr. 
conselheiro Cândido Baptista de Oliveira de crear no Jardim Botâ- 
nico um parque zoológico, á imitação dos existentes em outras nações 
cultas. Reconhecendo a utilidade do preceito, e cumprindo-o como 
mandava o dever, não poupei esforços, que derão em resultado, sobre- 
tudo nos Carirís, a reunião de mais de cem animaes, entre quadrú- 
pedes, aves e reptis ; e receiando entregal-os a indivíduos que del- 
les pouco cuidassem, tencionava conduzil-os pessoalmente quando 
regressássemos. Com bastante dôr, á vista de tanto trabalho perdi- 
do como derão, os vi ir morrendo successivamente durante a via- 
gem , e alguns mesmo depois de chegarem á capital , de maneira 
que poucos restarão, os quaes aqui por ordem do governo imperial 
entreguei ao Sr. Dr. Frederico Leopoldo César Burlamaque , director 
do musêo nacional, d'onde forão passados, por falta deaccommodação, 
para a chácara do Sr. commendador António José Alves Souto : este 
illustre cavalheiro , além de outros serviços prestados ao nosso paiz, 
não se tem poupado a incommodos e despezas avultadas afim de con- 
servar vivos os mais notáveis animaes, tanto exóticos como indíge- 
nas^ e apezar dos mil embaraços com que luta para satisfazer a sua 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CLVII 

louvável paixão, sem lhe arrefecer isso o animo continua sempre com 
ardor a proseguir na carreira encetada. Franqueando á curiosidade 
publica o seu jardim zoológico, o Sr. commendador Souto não se 
esquece também de remetter para o musêo nacional os animaes que 
morrem, e desta maneira vai lucrando aquelle estabelecimento pu- 
blico. 

Se os mammiferos de maior volume abandonarão totalmente vários 
pontos da provinda, e em outros se vão tornando escassos, como no- 
támos, em compensação as espécies mais pequenas não tem deixado 
de procrear em muitos lugares, sem se sentir falta, apezar da guer- 
ra incessante que lhe fazem os habitantes para seu regalo , pois a 
carne saborosa de alguns daquelles animaes é digna de figurar nas 
mais delicadas mesas. Seria longa e fora do alcance deste relatori 
uma enumeração circumstanciada de todos os quadrúpedes espall 
dos pela provincia, trabalho reservado para outro lugar, e por j 
nos cingimos a accrescentar aqui os nomes de mais alguns, qu' à g ^ . 
guaribas (Mycetes), micos (Cebus), preguiça (Bradypus), furar JQ u f \ 
qu&tí (Nasua), paca (Ccelogenys), cutm (Dasiprocta), mocó(/ [ eroc i on \ 
ouriço ou coandú (Histrix), cassaco ou gambá (Didel i^ s \ j ar j_ 
tacaca ou maritacaca (Mephitis) , guará e raposa {Cani s \ Jliaraca já 
(Felis), etc. Dos géneros referidos, sobretudo do 7 fi e n s existem 
diversas espécies e variedades. O Ceará é ab uru i& n te de ratos 
principalmente nas matas : os mais vulgares são c ^'hecidos com os 
nomes de punaré, guabirú vermelho e catita. T j^<|os estes animaes 
estão já conhecidos e classificados , pelo que 1 limitei- me a indagar 
de seus hábitos naquella provincia, onde p r jueo ou nada differem 
do que se acha descri pto nos autores. Hâv/era muito que fazer na 
micromammalogia, mas para isso seria, mister demora e tempo 
que não tinhamos á nossa disposição. A historia dos pequenos mam- 
miferos apresenta grandes difficuldades, e se acha muito atrazada dos 
outros ramos da zoologia, mesmo quanto ás espécies da Europa. « Os 
pequenos roedores em particular, como pondera Pictet, ou por causa 
de sua semelhança geral, ou attentas as variações que existem muitas 
vezes entre os dous sexos e as differentes idades, são ainda medíocre- 



GLV1II RELATÓRIO 

mente conhecidos. Entre estes, o género dos ratos é de todos o que 
pelo numero de suas espécies necessita mais de estudos numerosos 
e reflectidos. » 

Durante as noites volteão pelo sertão bandos incalculáveis de mor- 
cegos, causando estrago nas criações , e a dar-se credito á exagera- 
ção dos habitantes, muita gente mesmo tem perdido a vida em conse- 
quência das feridas feitas por estes cheiropteros. No tomo XX (anno 
de 1857) da Revista trimensal do Instituto Histórico e Geographico 
vem transcripta uma memoria do Rev. Joaquim José Pereira, onde 
descrevendo o melancólico e horroroso quadro da grande sècca e fome 
que em 1791 e 1792 assolou aquelles sertões do norte , se exprime 
da seguinte maneira : « Ah ! quem pensara que creaturas humanas 
havião de servir de pasto ás aves nocturnas amigas do sangue? Elias 
pousavão nos seus próprios aposentos , e correndo pelo chão trepavão 
sobre as creaturas, que já estavão prostradas pela fraqueza, e á vista 
das mesmas pessoas que as cercavão lhes bebião o sangue, e naquel- 
le que derramavão pela terra se achavão nelle ensopadas aquellas 
tristes e desgraçadas victimas do acaso exhalando os últimos espiri- 
tos da vida, sem que pudesse haver alguém que , pela fraqueza em 
que se achavão todos, vigiasse a reparar o lamentável estrago que fa- 
zião sobre aquellas mesmas victimas o espantoso numero de mor- 
cegos. » 

Sendo o Ceará uma província cujo ramo mais importante de indus- 
tria consiste na criação do gado, é de lastimar que ainda alli esteja tão 
atrazada a zootechnia, conhecimento dos animaes applicado ás ne- 
cessidades do homem ; sciencia que nos ensina os meios de criar, 
conservar, multiplicar , melhorar e utilisar os animaes domésticos , 
apropriando-os melhor a seu destino especial , e tirando delles o 
maior numero de serviços e de proveitos. 

« A província do Ceará foi destinada para ser um paiz eminente- 
mente criador, como fundado na experiência de muitos annos af- 
firraa o illustrado e laborioso Sr. Dr. Thomaz Pompèo de Souza Brasil 
na sua interessante Memoria estatística: vastos sertões abertos, cheios 
de várzeas e taboleiros , que se cobrem todos os annos de pingues pas- 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CLIX 

tagens de mimoso, panasco e outras hervas de forragem, se prestão ex- 
celentemente á criação dos gados, que em verdade se reproduzem 
admiravelmente. Dous males porém contrarião o seu progresso, as 
sêccas e epizootias, além de que os nossos criadores não tem procura- 
do melhorar o systema de criação, que ainda hoje é o mesmo que ensi- 
narão os primeiros colonos, isto é , o da natureza. A espécie do gado 
não tem talvez degenerado, porque os pastos são excellentes 5 mas nada 
se tem feito para melhoral-a. Alguns municípios crião melhor do que 
outros, devido isso aos campos e pastos. As ribeiras de Quixeramobim, 
Acaracú e lnhamum , são as mais afamadas. Apezar porém das sêccas 
e epizootias parece que o gado actual da província não é inferior em 
quantidade, nem em qualidade, ao de épocas anteriores. » 

Esta é também a opinião de todas as pessoas entendidas que viajarão 
a província , e tem sido partilhada pelos respectivos presidentes nos 
seus relatórios. Ainda ha pouco , em 1858 , o Sr. Dr. João Silveira de 
Souza assim se exprimia : « Os sertões da província com as suas ex- 
cellentes pastagens favorecem maravilhosamente, sobretudo nas ri- 
beiras de Quixeramobim e Inhamuns , a criação e producção do 
gado , quer vaccum , quer cavallar , e na do Jaguaribe a do gado 
miúdo, que nellas seria prodigiosa a não serem varias causas pode- 
rosas de atrazo de uma e outra. A principal delias são as sêccas, que 
assolão a maior parte dos districtos do interior, em períodos mais ou 
menos longos, e com maior ou menor intensidade, e que são sempre 
acompanhadas de grande mortalidade no gado, já em consequência da 
falta d'agua , já das epizootias que principalmente nessas occasiões 
se desenvolvem e o acommettem. O espirito de rotina não tem 
sido uma causa menos efficienle do pouco ou nenhum aperfeiçoamen- 
to desta industria. As praticas e processos rudes dos séculos passados , 
ou antes o abandono completo do gado e de sua producção ás simples 
forças da natureza e do solo , são ainda os únicos , pouco mais ou 
menos, que prevalecem entre a generalidade dos nossos criadores : 
apenas um ou outro mais curioso , ou previdente, procura melhorar 
seus estabelecimentos , e ainda assim , muito acanhada e parcial- 
mente. A maior parte dellcs contentao-se com os lucros immedia- 



CLX RELATÓRIO 



tos, sem attenderera que as suas fontes vão progressivamente defi- 
nhando . e estão a todos os momentos em risco de aniquilar-se. » 

Posteriormente, em 1860, ponderava o Sr. Dr. António Marcellino 
Nunes Gonçalves : « A criação do gado. como se não ignora, com 
o ser ainda a principal riqueza da provincia. e cuja producção annua 
eleva-se a cerca de mil contos de réis. é também a mais precária. 
e por isso mesmo sujeita a incalculáveis variações. A" ella oppõe-se 
como causas naturaes a ausência de invernos regulares, quando não 
sêccas formaes. e as epizootias mais ou menos frequentes durante a 
estação calmosa, e como effeito da incúria dos homens a degeneração 
das raças, a falta de extensos depósitos dagua, e de pastagens sufi- 
cientes por meio de celleiros convenientemente preparados, a pouca 
attenção geralmente prestada a criação, etc. » 

que fica dito basta para demonstrar a necessidade urgente de 
attender-se quanto antes a um objecto de tanta importância para 
aquella província, como e não menos para o Estado em geral. Uma 
das principaes providencias vem a ser a abertura de grandes açudes, 
do que bem compenetrado o governo imperial mandou proceder 
á escolha dos lugares onde mais convenhão e seu melhor systema de 
construcção. trabalho que foi encarregado ao engenheiro Berthot. Tem 
sido também lembrado por vezes o plantio de arvores em vasta escala, 
adaptadas ao solo e á temperatura da provincia. conveniência que 
com factos e argumentos demonstrou com a sua reconhecida erudição 
o já citado Sr. Dr. Pompèo no recommendavel opúsculo que deu á 
luz em 18o9 com o titulo de Memorias sobre a conservação 
das matas e arboricultura como meio de melhorar o clima da 
provincia do Ceara. 

Para attingir porém o fim desejado, e arredar os males que amea- 
cão. não basta somente a construcção de açudes e o plantio de arvores 
aconselhados : deve isto ser coadjuvado pela iutroducção de animaes 
das melhores raças, que por meio do cruzamento melhorem as exis- 
tentes : e não menos convém contractar nos Estados-Unidos ou na 
Europa veterinários hábeis, que estudem as epizootias e meios de pre- 
venil-as e tralal-as. 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CLXI 

Destas enfermidades a mais mortífera no gado vaccum é a chama- 
da mal triste, que reapparece frequentemente nas fazendas, diziman- 
do-as de uma maneira cruel : o primeiro sjmptoma de mal triste 
que se manifesta nas vaccas é seccar-lhe o leite, o animal acabana as 
orelhas, arripia-se-lhe o pello, não quer comer, deita sangue pelas 
ventas, as ourinas também são sanguíneas, começa a cambalear, até 
que cahe para nunca mais se levantar. Como remédio costumão cortar- 
Ihe as orelhas, applicão clysteres de carrapato ou ricino, fazem-lhe 
fumigações de catingueira, de folhas de angico, etc. ; mas na maior 
parle dos casos tanto estes como os outros meios usados são infructi- 
feros. Além destas moléstias o gado vaccum também sofFre outras 
mais ou menos nocivas, e o gado cavallar igualmente é sujeito a males 
especiaes, por exemplo, o mofo, o treme, orengue, etc. 

Seria boa occasião de aproveitar esses homens contractados, col- 
locando-os á testa de uma fazenda normal de criação estabelecida 
na provincia, onde elles ensinassem praticamente a cultura dos 
prados artificiaes, e os processos para converter-se em feno as melho- 
res dessas gramineas forrageiras que alli crescem espontaneamente, 
e que se perdem com as sêccas ou com as chuvas prolongadas. Ocioso 
é dizer que entraria neste, plano de ensino o tratamento do gado, 
quer no estado normal ou no mórbido , e os meios de aproveitar 
todos os seus productos. No sertão é desconhecido o fabrico da man- 
teiga, que seria um género rendoso de exportação ; e os queijos, 
mesmo os mais afamados do Canindé, de Quixeramobim e de Sobral, 
deixão ainda muito a desejar. 

Creio termos exposto summariamente quanto basta para tornar sen- 
síveis o atrazo da criação do gado no Ceará e os óbices com que 
lutão os criadores, que muitas vezes passão da riqueza á penúria. 
Nada porém os desanima porque a procreação é espantosa , e 
dentro de poucos annos recobrão o perdido, graças á fertilidade do 
paiz, que parece rivalisar com a Cayenna, onde tendo sido intro- 
duzida em 1763 uma manada de gado cornigero de 1,500 rezes, 
em 1769, isto é, apenas seis annos depois, ella se elevava a sete 
mil cabeças! 

c. s. 2t 



CLXU RELATÓRIO 

Será assumpto de uma memoria especial expender mais larga- 
mente as nossas idéas acerca das diversas qualidades de gado que 
se cria no Ceará : vamos agora occupar-nos de outras classes de 
vertebrados. 

A justa observação feita pelo sábio chefe da secção botânica 
— de que a vegetação naquella província é muito abundante e vigo- 
rosa, mas as espécies em pequena quantidade relativamente , mi- 
lita também a respeito das aves, cuja variedade está longe de equi- 
parar-se á desta e de outras provincias do Brasil. Por toda a parte, 
salvo pequenas excepções, quasi sempre as mesmas espécies, com- 
pensada porém esta falta pela alluvião de indivíduos. Todos tem 
ouvido fallar das pombas de bando, que em certos mezes do anno, 
sobretudo no tempo da postura, alravessão o sertão formando lon- 
gas e successivas nuvens compostas de myriadas de voláteis : mas só 
vendose pode formar ideada profusão prodigiosa de um pombal ,nome 
dado pelos habitantes aos lugares onde aquellas pousãopara depo- 
sitar seus ovos, os quaes são avidamente devorados por varias es- 
pécies de animaes , que nesse tempo fazem delles seu único sus- 
tento , e também pelos sertanejos, que os apanhão quotidianamente 
em grandes porções. A esta cruel devastação ainda assim escapão 
milhões desses ovos ; em poucos dias começão a nascer novas pom- 
bas , que ainda implumes no campo offerecem pasto fácil e mimoso 
aos carnivoros, tanto voláteis, como terrestres. Apezar da dupla 
guerra, muitas vingão e formão novos bandos. O estrago continua 
nestas, em cuja caça se emprega muita gente, que com uma simples 
preparação fazem amplas provisões não só para seu sustento, como 
para venderem ás cargas. 

A Fauna ornithologica do sertão pouco varia da que se observa al- 
gumas léguas em torno da capital, sendo tal differença relativa a 
novas espécies, e não á modificação das mesmas. Excede a quatro mil 
o numero de exemplares de aves que trouxe a secção zoológica, todos 
preparados de maneira tal que nada deixão a desejar, trabalho devido 
á habilidade dos dous irmãos osSrs. João Pedro Vi lia Real e Lucas 
António VillaReal; e muitos mesmo já montados perfeitamente em 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CLXITI 

diversas posições estudadas do natural. Quasi dous terços das espécies 
obtidas não existião no musêo nacional, apezar de as haver aqui e em 
outras províncias, d'onde se deduz que foi um bom incremento da 
sua collecção ornithologica, que aliás não é das mais pobres. Algumas 
aves vierão, sobretudo de rapina, abundantes no norte da pro- 
vinda, que ao primeiro aspecto me parecerão novas ou ainda não 
bem classificadas ; o que com mais vagar e certeza decidiremos pos- 
teriormente, quando nos occuparmos da Fauna ornithologica cea- 
rense, a qual será acompanhada dos desenhos e descripção das 
espécies mais notáveis, sem o que perde todo o interesse , e por 
isso não fazemos agora, comopodiamos, um catalogo de nomes triviaes: 
haveria ainda o inconveniente, se assim o praticássemos, de induzir 
em erro a quem o percorresse, porque muitos pássaros são naquel- 
laprovincia designados diversamente dos nomes que aqui lhe damos, 
embora da mesma espécie. Esta divergência de nomenclatura, que 
se dá alli não só a respeito das aves, mas ainda quanto a alguns ani- 
maes de outras classes, estende-se também ás demais provincias, do 
que resulta que muitas vezes um mesmo animal é differentemente 
appellidado segundo os lugares onde vive ; synonymia que acarreta 
confusão, e só com muito tempo poderá ser dilucidada, quando o 
permittir um estudo e comparação attenta de bons exemplares. Notei 
que mesmo no interior, e sem sahir da provincia, alguns animaes 
tem designação differente da que dão na capital a espécies idênticas. 
As aves domesticas do Ceará não tem sofírido modificação alguma 
comparativamente ás nossas, e por todo o interior ha grande criação da 
espécie por nós chamada gallinha d' Angola (Numida) , alli conhecida 
pelo nome de Guiné ou Capote. Muitas aves porém existem em liber- 
dade, que poderião ser facilmente domesticadas, como depois provarei. 
Na classe dos reptis não foi a secção zoológica menos feliz, pois 
conseguiu oitenta e tantas espécies, e algumas bem curiosas per- 
tencentes aos saureos e ophidios. Procurei obter quantas informações 
pude acerca da cascavel, que se cria em abundância no Ceará, bem 
como nas provincias limitrophes, onde sacrificão annualmente uma 
porção de victimas, e dizem que nos mezes de Junho a Setembro é 



CLXIV RELATÓRIO 

quando este horrível crotalo se toma mais atrevido e perigoso, sendo 
então mui raras as pessoas mordidas que escapem da morte.' Ainda 
hoje o Ceará lamenta o funesto passamento do estimável padre José da 
Costa Leitão, vigário de Arneiroz, o qual mesmo no meio da praça 
daquella povoação foi picado por uma cascavel, e apezar da appíi- 
cação dos antídotos conhecidos apenas sobreviveu vinte e quatro 
horas. Voltando de Sobral para a Fortaleza, em Junho de 1861, 
encontrei na estrada dous sertanejos mortos por cascavel no dia an- 
terior, e como estes se reproduzem alli muitos factos. Apezar 
porém do horror, que com razão inspira aos habitantes este ophi- 
dio, felizmente não se podem equiparar os seus estragos aos da ví- 
bora lanceolada (Trigonocephalus lanceolatm) nas Antilhas, e 
tanto mais que elle é muito indolente, só ataca os animaes 'ne- 
cessários ao seu sustento, foge do homem, e differente da Borgia 
celebr.sada pela historia só faz uso do seu toxico quando provo- 
cado e para defender-se: isto é attestado unanimemente. Xos 
Carirís, e até póde-se dizer que mais ou menos em toda a pro- 
víncia, reina a crença de que a carne de todas as serpentes, e 
principalmente da cascavel, é poderoso antidoto contra a syphilis : 
invenção talvez dos Jesuítas para ajudar a extincção deste regjil, 
como em outras partes puzerão em pratica, visando o mesmo fim' 
e recommendando a Tanajura como acipipe. É extenso o rol dos 
vegetaes que affirmão neutralisar o veneno da cascavel ; mas como 
quasi todos elles são quasi sempre administrados com aguardente, 
somos levados a acreditar de que seja esta o remédio, e tanto que 
em alguns casos chegados ao nosso conhecimento, ella por si só 
produziu a cura. Ha também alli muita gente que crê com toda a 
fé no poder sobrenatural de certos curandeiros— de restabelecer a 
saúde aos mordidos por cobras venenosas usando de momos e 
rezas, eficazes igualmente para fazerem cahir os vermes das ul- 
ceras dos cavallos, embora estes se achem a muitas léguas de dis- 
tancia. Superstições populares idênticas encontrão-se por toda a 
parte, até nos paizes mais civilisados, e neste ponto nenhuma 
nação pôde rir de outra: leia Salgues quem duvidar desta nossa as- 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA C LXV 

serção. A cascavel no Ceará completa talvez os mil e um contos 
que se poderião escrever a respeito dos reptis conhecidos. Sua for- 
ça toxica não me pareceu todavia mais enérgica do que a de ou- 
tras serpentes das matas do Rio de Janeiro, como sejão a jararaca 
preguiçosa, surucucú, caninana, etc. 

Não nos descuidámos, segundo se recommendou, dos inverte- 
brados, sem dar igualmente o mesmo cuidado a todos os extensos 
ramos desta vastissima divisão do reino animal, a qual abrange os 
molluscos, crustáceos, arachnides, myriapodes, insectos, annelides 
e zoophytos. A vida de um homem, empregado exclusivamente 
no estudo de cada um desses ramos, seria mui curta ; e no fim 
delia, a infinitas questões que se lhe fizesse, responderia com Mon- 
taigne : Que sçais-je ? Porque ao estudo destes animaes se applica 
especialmente a proposição geral de que « o livro da creação se 
compõe de milhões de paginas, das quaes o espirito humano ape- 
nas sabe soletrar algumas linhas : mas essas linhas sublimes, que 
revelão o poder infinito de Deos em seu mais brilhante esplendor, 
recompensão por meio de prazeres indiziveis o observador feliz e 
paciente que chega a comprehendel-as. » 

Disse um celebre viajante naturalista que se podia considerar o 
Rio de Janeiro como a terra de promissão da entomologia : outro 
tanto não divulgaremos de certo relativamente ao Ceará. A diligen- 
cia porém elevou a nossa collecção a mais de doze mil insectos, que 
chegarão em perfeitissimo estado de conservação, e alguns, obtidos 
principalmente nos Carirís, são de espécie nova. Muitas vezes, an- 
dando á caça delles, me recordava das seguintes palavras do sábio 
Augusto de Saint-Hilaire : « Os naturalistas que formão collecções 
tem acarretado para a Europa a mór parte dos insectos pertencen- 
tes ao littoral do Rrasil : com elles tem formado quadros dispostos 
com mais ou menos ordem, eos tem classificado com arte sem n- 
do sua organisação ; mas ainda nenhum cuidou até hoje em estudar 
seus costumes tão variados, suas astúcias, seus amores, e a America 
ainda espera um Réaumur ou um Degeer. » 

Foi rica a colheita de hymenopteros, servindo de prova o painel 



CLXVI RELATÓRIO 

que figurou na exposição nacional ha pouca levada a effeito nesta 
corte, o qual encerrava vinte e seis espécies de abelhas, Íncolas da 
provincia do Ceará, acompanhadas de amostras do mel e cera pro- 
duzidas por cada uma ; alguns desses méis são de sabor exquisilo, 
e outros recommendão-se por gozarem de propriedades medicinaes. 
Cumpre advertir que no Ceará dão indistinctamente o nome de abelhas 
a algumas vespas, que também elaborão mel, cuja doçura rivalisa ás 
vezes com o das verdadeiras abelhas, sendo de muita influencia nas 
suas propriedades a natureza das flores d'onde é extrahido. Vários au- 
tores attestão com factos que o mel tirado de plantas narcóticas ou ve- 
nenosas produz náuseas, cólicas, e até mesmo envenenamento com- 
pleto. Sabe-se que Augusto de Saint-Hilaire, viajando pelo Brasil, 
esteve delirante muitas horas por ter provado apenas duas colheres pe- 
quenas de um mel agradável, colhido pela abelha Lecheguana [Charte- 
gus Brasiliensis,\$\&nç\\.) sobre uma sapindacea [Paullinia australis). 

A apicultura, que tanto podia florescer naquella provincia e pro- 
duzir bom lucro, não é alli explorada convenientemente, e apenas 
alguns indivíduos conservão cortiços por curiosidade ou para uso do- 
mestico : a cera indígena e o mel que se vende são quasi na totalidade 
apanhados nas matas. E' de desejar que seja imitado o exemplo do Sr. 
Francisco Alves de Lima, professor publico de Missão Velha, que no 
quintal da sua casa tem reunido uns 150 cortiços, em troncos de 
arvores, das espécies de abelhas appellidadas canudo , mandaçaia, 
tubiba, moça-branca e cupira, cujo mel vende todo a 320 rs. a gar- 
rafa, aproveitando também a cera. 

Uma monographia das abelhas do Brasil será trabalho curioso 
e de importância, não só para a sciencia, mas igualmente para 
o commercio, pois a bella cera de muitas além de satisfazer o 
consumo do paiz , libertando-nos do imposto que annualmente 
pagamos ao estrangeiro, poder-se-hia tornar ao mesmo tempo um 
género de subida exportação. A criação e penso das abelhas foi 
ensaiada e vai em progresso nas províncias de S. Paulo e Minas- 
Geraes; mas é uma industria ainda na sua infância, pois a pro- 
ducção está longe de fazer face ás necessidades daquelles povos. 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CLXVII 

Em quasi todo o Ceará encontrão-se uns insectos, a que o povo 
dá o nome de Papa-pimenta ou Pimentão., por causarem grande 
estrago nas pimenteiras e outras solaneas : estes insectos, de que 
ha abundância, principalmente em alguns annos, possuem enér- 
gica propriedade epispastica ou vesicante , sem o inconveniente 
de acção especial sobre certos órgãos, como as cantharidas, ás 
quaes poderião substituir com vantagem. 

Indicando este poderoso agente therapeutico, occorre-me registar 
também na zoologia medica do Ceará as sanguesugas indígenas, 
que pullulão em muitos riachos, lagoas^ brejos e açudes do interior, 
mormente na força do inverno. Ha diversas espécies ou varie- 
dades destes annelides, porém todas pequenas, inclusive as do Crato 
e de Quixeramobim , que são reputadas como melhores. Três ou 
quatro dessas hirudineas talvez mal produzão o effeito de uma das 
que empregamos vindas de Hamburgo : assim mesmo valem de 
muito naquellas paragens onde não se encontrão outras á venda , e 
até nem as do paiz, pois quem precisa manda apanhal-as na urgên- 
cia; de sorte que ás vezes durante o verão não é possivel achal-as, 
vendo-se o facultativo obrigado a substituil-as por ventosas ou san- 
grias de lanceta, ás quaes o povo, digamos de passagem, é bastante 
inclinado, e de que frequentemente usa ou antes abusa nos mais 
ligeiros incommodos physicos, em qualquer odontalgia, por exem- 
plo : d'onde nasce que no sertão topão-se sangradores e sangradoras 
ás dúzias, É obvio portanto com que difficuldades lutaráõ alli os 
médicos para combater certas enfermidades onde o emprego das san- 
guesugas seja reconhecido como o remédio heróico e prompto, e não 
possa ser supprido pelas ventosas, segundo as circumstancias : mas 
ainda nenhum se lembrou de fazer ensaios de hirudinicultura, tão 
fáceis e pouco dispendiosos, sobretudo em pequena escala. Quando 
algum o tentar, lembro-lhe que consulte o curioso opúsculo publica- 
do em Paris pelo Dr. Sauvé com o titulo : Experiências e estudos 
physiologicos sobre as funcções e a hygiene das sanguesugas, feitas 
com vistas de conservar e de multiplicar estes annelides. 

Volto aos insectos. Estende-se ao Ceará a crença vulgarisada em 



CLXVIII RELATÓRIO 

outras províncias acerca da FuUjora Getiranaboia. e da propriedade 
mortífera instantaneamente do seu appellidado ferrão. Além da 
Fulgora laternaria obtive mais dous exemplares muito curiosos do 
mesmo género, mas de espécie bem distincta e ainda não classificada. 
primeiro me foi dado na Fortaleza pelo fallecido pharmaceutico 
António Rodrigues Ferreira , que muitos serviços prestou a' com- 
missâo scientifica, e veio com a seguinte informação : « Este insecto 
alado é conhecido nos campos e sertões do Piauhy com o nome vulgar 
de Tiranaboia, e alli appareceu ha seis para oito annos. pouco mais 
ou menos, e agora nesta província nos sertões de Quixeramobim, 
onde fez algumas victimas entre os irracionaes. Este que conservo 
para amostra foi apanhado em 1856 : está um pouco estragado porque 
quem m'o mandou embrulhando-o em um papel lhe quebrou o pes- 
coço, que é esse tubo que sobe acima do tronco ; e tirárão-lhe também 
o ferrão ou estilete, arma mortífera e que mata instantaneamente a 
todo aquelle que toca ! Parece fabulosa a descri peão que fazem os 
sertanejos desse insecto. Dizem que é cego, e que tem no fim do pes- 
coço um ferrão agudo ; que quando parte ou vôa do lugar onde está 
é sem destino certo, e que o faz com uma velocidade tal que só se 
sabe pelo rugido das azas, que apenas dá tempo ao individuo que o 
ouve a deitar-se no chão para livrar-se de ser encontrado e espe- 
tado pelo seu ferrão : elle vòa, como disse, sem destino até que cansa 
e cahe, ou encontra qualquer obstáculo onde bate com o ferrão, e 
onde mata ou morre ; ou porque fica preso por elle, ou porque o 
quebra, e em ambos os casos morre : dizem mais que os animaes 
já o conhecem, e o temem tanto que tremem e encolhem-se todos 
quando o ouvem ! » 

Donde nasceria esta tradição a respeito da Getiranaboia. que tanto 
voga no Pará, é attestada até pelos próprios índios, que não se ar- 
receião de animal algum, mesmo das mais peçonhentas serpentes, e 
todavia se horrorisão quando fallão daquelle insecto ? Que verdade 
se occultará envolta neste raysterio ou enigma, cuja palavra ainda 
ignoramos ? Em quanto esperamos um QEdipo será bom suspender- 
mos nosso juizo : e sem aceitarmos o facto como real por falta de 



DA SECÇÃO ZOOLÓGICA CUHX 

provas incontestáveis, apezar da sua inverosimelhança não lhe vote- 
mos desprezo absoluto, pois a incredulidade, que nada prova tam- 
bém, caracterisa os semi-sabios ; e as tradições e historias fabulosas 
do vulgo tem sempre mais ou menos um fundo de verdade, e muitas 
vezes se procede mal rejeitando-as completamente. Não sirvão de 
corollario estas minhas palavras para induzir-se que eu pretendo 
authenticar a fabula da Getiranaboia ; o que desejamos é achar quem 
nos explique a moralidade dessa fabula. 

Recebi em Sobral o outro exemplar das duas novas Fulgoras 
acima mencionadas : esta segunda foi apanhada viva em uma fazenda 
pouco distante daquella cidade, e cautelosamente mettida n'um.cartu- 
xo de papel, através do qual o seu ferrão não teve força bastante para 
matar o imprudente que a encerrou, cuja coragem foi alli admirada 
por todos. Viva conservou-se em meu poder pelo espaço de dez 
dias, e durante as noites nem leves indicios apresentou da propriedade 
luminosa attribuida áquelles hemipteros por M Ue Mérian e outros ob- 
servadores, e negada por vários naturalistas. Esta controvérsia, ainda 
por decidir, não será esquecida em uma revista das Fulgoras brasi- 
leiras, de que nos occupamos presentemente, e onde resumiremos 
as opiniões sobre a contestada phosphorescencia. 

Remato aqui o relatório da secção zoológica, julgando haver dito 
assas pára ajuizar-se do como ella procedeu no desempenho do seu 
encargo. Esboçado a largos traços o quadro geral, resta prestar at- 
tenção particular a cada grupo, e ainda ás figuras mais salientes, que 
com tempo e estudo o fraco pincel do artista irá aperfeiçoando, em- 
bora não tenha á sua disposição as cores que desejava ; mas na defi- 
ciência de meios espera que se lhe lance em conta a sua boa vontade. 

Antes porém de largar a penna fique igualmente o Instituto preveni- 
do de que tomei também notas sobre vários assumptos alheios ao estudo 
de que fui incumbido, os quaes reduzidos a pequenas memorias irei 
opportunamente lendo nas nossas sessões ; assim como vos apresenta- 
rei outrosim o itinerário minucioso da secção zoológica, acercado qual 

22 



c. s. 



CLXX RELATÓRIO 

deixei de fallar para não me fazer mais fastidioso, bastando somente 
adiantar que percorri toda a provincia do Ceará. Oxalá conceda o 
Instituto aos escriptos promettidos a mesma indulgência com que 
sempre acolheu as minhas leituras, e por isso me confesso mil vezes 
grato. 

[ Rio de Janeiro, 6 de Dezembro de 1 86 1 . 



Manoel Ferreira Lagos. 



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